Bafafá da fé

Universal do Reino de Deus ataca o padre
Marcelo Rossi, o popstar dos carismáticos

Foto: Antonio Ribeiro Foto: Joao Raposo
Edir Macedo e o padre Marcelo: Bíblia evangélica contra o culto às imagens dos carismáticos

Polêmica por excelência, a Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo, vez por outra escolhe um alvo para ataques virulentos. Foi assim nas eleições presidenciais de 1994, quando seus pastores descreviam o candidato petista Luís Inácio Lula da Silva como a encarnação do demônio. Um ano depois, a Igreja lançou outro petardo, quando o bispo Sergio von Helde foi à televisão chutar uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, em pleno dia da padroeira do Brasil. Na semana passada, a Universal elegeu a bola da vez. Trata-se do padre Marcelo Rossi, de 31 anos, o ex-professor de aeróbica que se transformou no clérigo mais popular do país. A artilharia veio por meio de um texto publicado na Folha Universal, porta-voz do bispo Edir Macedo. Intitulado "Movimento católico tenta recuperar o tempo perdido, imitando evangélicos", o artigo — muito bem escrito, aliás — traça uma caricatura impiedosa do padre Marcelo: "Ele clona os cultos evangélicos e usa chavões que soam religiosos. A cúpula da Igreja Católica finge que não gosta, os padres carismáticos fingem que estão se rebelando e o povo que os segue finge que é crente".

Maior representante da Renovação Carismática, movimento de cunho fundamentalista que pretende levar os católicos de volta para o seio da Igreja Católica, o padre Marcelo também é acusado de roubar hinos evangélicos para gravar o CD recém-lançado Músicas para Louvar ao Senhor, 2,4 milhões de cópias vendidas. Mais que uma mostra da agressividade da Universal, a ofensiva cheira a guerra santa — e das boas. "É a primeira manifestação contra o padre feita por uma doutrina oposta ao catolicismo, sinal de que os cultos barulhentos dos carismáticos começam a incomodar os evangélicos", analisa Reginaldo Prandi, professor da Universidade de São Paulo e especialista em religião.

A Renovação Carismática está em 95% das cerca de 300 dioceses do país e tem um rebanho de 8 milhões de almas. É gente atuante, que vai além do mormaço de declarar-se "católico apostólico romano" em questionários do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE. A Igreja Universal, com 1,5 milhão de fiéis, está longe de ser o maior aglomerado pentecostal do país. Mas é o mais barulhento, controla sessenta emissoras de televisão e a cada dia abre novos templos. Até a semana passada, esses dois grupos travavam uma batalha discreta. O que fez o bispo Edir Macedo declarar guerra foi a evidência de que — em bom português — a turma do padre Marcelo está ciscando em seu terreno. Inicialmente apadrinhados pela classe média alta, os carismáticos arrebanham cada vez mais pobres, o público-alvo histórico dos evangélicos. É uma intromissão que fica mais perigosa com o surgimento de popstars como Marcelo Rossi e sua versão carioca, o padre Zeca, também citado no artigo.

Capaz de elevar o ibope da Rede Globo e do SBT a índices celestiais com sua "aeróbica do Senhor", o padre Marcelo é mais visto que qualquer pastor da Universal. O autor do libelo anti-Marcelo, o pastor José Cabral de Vasconcelos, editor da Folha Universal, garante que o ataque não é preventivo. "O culto dele não tem conteúdo e não vai tomar nossos fiéis", diz. Na dúvida, os católicos respondem com outra rajada. "A Universal ataca qualquer um que traga esperança para a população", diz dom Estevão Bittencourt, teólogo da arquidiocese do Rio de Janeiro.

Rodrigo Cardoso




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