O duro depois

A briga para cuidar de Gerson Brenner é
raridade no mundo dos incapacitados

Dagmar Serpa

Foto: Antonio Milena
Fotos: Reprodução de TV


Brenner, da casa dos pais para a da mulher, Denise: disputa pelo direito de acompanhar a longa reabilitação

Incapaz de decidir e exprimir preferências, o ator Gerson Brenner, 38 anos, virou alvo de acirrada disputa familiar desde que sobreviveu, espantosamente, a um tiro na cabeça, em agosto. De um lado, os pais, Alice e Arnaldo dos Santos Oliveira; de outro, a mulher, Denise Tacto, que brigaram palmo a palmo pelo direito de cuidar de Brenner nessa fase de reabilitação. Quando recebeu alta, depois de mais de sessenta dias internado, o ator foi levado para a casa dos pais. Não ficou lá nem um mês. Denise, que já havia obtido na Justiça a guarda e tutela dos bens do marido, providenciou a remoção para um apartamento emprestado. Restaram, evidentemente, queixas e farpas. "O Gerson não é brinquedo, já estava decidido que ele ficaria comigo", critica Denise. "O acertado é que ele ficaria aqui. Tanto que adaptamos tudo para recebê-lo", rebate Cristina, irmã do ator. Ramos contrários da família brigando para assumir a arduíssima tarefa de cuidar de doentes totalmente dependentes são um acontecimento excepcional — raramente ocorrem quando a vítima não é ator, não é conhecido e não tem suporte financeiro. O comum nessas situações é que, passado o desespero, alguém na família assuma a responsabilidade, com consentimento (e até certo alívio) dos demais.

"Uma recuperação neurológica dura de dezoito a 24 meses, e podem restar seqüelas. É uma barra", diz a médica fisiatra Cristiane de Almeida Camargo, coordenadora da equipe de traumas de crânio da Associação de Assistência à Criança Defeituosa, AACD. Se a vítima é casada, poucas uniões sobrevivem. "A mulher tende mais a permanecer com o marido do que o homem com a esposa", constata o psicólogo Luiz Manzochi, da mesma AACD, que também trata da recuperação de adultos. A ex-bancária Elisângela Machado, 26 anos, um filho, é um exemplo de abnegação feminina. Jamais pensou em se separar do marido, Reynaldo, 29, vítima de um acidente de carro em janeiro. Em casa depois de longo coma, ele recuperou a memória e a fala, mas ainda tem dificuldades motoras. "Cada melhora dele me alegra", diz Elisângela.

Belleza com o
enfermeiro, 24 horas
por dia: afastamento
da mulher foi "natural"
Foto: Egberto Nogueira  

Logística — Já o casamento de quatro anos de Mírian Quadrelli Valentini acabou quando ela teve um derrame cerebral depois do parto. Mírian, hoje com 38 anos, saiu do hospital sem falar nem sentar. Foi direto para a casa dos pais. "Nosso apartamento era maior, com mais estrutura", justifica a mãe, Neyde Valentini, de 61 anos. "Ela precisava de uma logística complicada", concorda o ex-marido de Mírian, Mario Ezequiel, que aceitou a decisão da sogra e ficou, por um tempo, com a filha recém-nascida. Seis meses depois, pediu a separação. "Não suportei o tranco", admite. "Só mãe para agüentar", opina Angelina Garcia, 65, evocando um clichê em geral suportado pela realidade. Angelina cuida do filho Marcos, 31 anos, imobilizado por um acidente de moto desde 1994. A mulher o deixou dois anos depois. "Ela disse que não dava mais e foi embora levando o carro comprado com o dinheiro da indenização dele", queixa-se Angelina.

Mírian, a
mão e a filha:
separação
  Foto: Frederic Jean

O ideal, claro, é que a família una esforços. "Se há mais gente envolvida, ninguém fica sobrecarregado", diz a fisioterapeuta Fátima Gobbi. Isso até acontece no começo, mas a prática mostra que, com o tempo, um lado assume a causa e o outro, no máximo, dá uma ajuda aqui, outra ali. Em 1995, um mês depois de se separar da mulher, Andréa, o agente de viagens Roberto Belleza, 40 anos, foi derrubado por uma onda em Saquarema, no Rio de Janeiro, teve vértebras "estraçalhadas" e ficou tetraplégico. "Do dia para a noite você vira um bebê de meses, dependente e preso a uma cama. A família é fundamental", afirma Belleza. Ele mora com os pais e já voltou a trabalhar, mas, do pescoço para baixo, só movimenta levemente a mão direita e conta com ajuda em tempo integral de um enfermeiro. Depois do acidente, o casal até ensaiou uma reconciliação, que não deu certo. "Não me senti à vontade para segurar uma menina de 24 anos. Achei o afastamento natural", conta ele. Quem pode dizer que faria diferente?




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