Susto e coragem

Como o governador Mário Covas enfrentou
o diagnóstico de câncer de bexiga

Karina Pastore

"São milhares de pessoas que rezam, oram. E, como vocês vêem, eu não estou tão mal quanto pintam"

— Governador, tenho duas notícias para lhe dar. Uma boa e uma má.

O anúncio do médico Sami Arap, professor titular da Universidade de São Paulo e um dos mais conceituados urologistas brasileiros, deixou o paciente do quarto 616 do Instituto do Coração (Incor) sobressaltado.

— A má é que o Santos não será finalista do campeonato brasileiro. A boa é que o câncer não se alastrou para os ossos.

Torcedor fanático do Santos, time de sua cidade natal, Mário Covas, de 68 anos, ergueu os braços para o alto, num gesto de alívio.

As novas do doutor Arap encerravam, na manhã de quinta-feira, uma semana de muitas surpresas — algumas ruins (de verdade) e outras animadoras. Vítima de um crescimento exagerado da próstata, Covas foi submetido a uma cirurgia no último dia 4. Procedimento simples, durou pouco menos de duas horas. Com uma cânula de calibre equivalente ao de uma caneta Bic e uma minicâmara na ponta, os médicos retiraram o excesso de tecido da glândula prostática pela uretra do paciente. Covas deveria receber alta dali a três ou quatro dias. Durante a intervenção cirúrgica, porém, descobriu-se um tumor na parede lateral esquerda da bexiga. Câncer? Extraído um pedaço da lesão, levado para análise, na noite de domingo 6, o resultado: câncer. Foi um choque.

O pânico tomou conta do PSDB. Um dos fundadores do partido, Covas sempre teve muita ascendência sobre o tucanato. Ao se reeleger governador do Estado de São Paulo, com o maior PIB e eleitorado do país, ganhou ainda mais força e tornou-se peça-chave de seu partido para a corrida presidencial de 2002. Para os tucanos, havia bons motivos para acalentar o sonho de ver Covas na cadeira que hoje é de Fernando Henrique Cardoso. O primeiro é que nem o PMDB nem o PFL, aliados do governo, têm candidatos com alguma perspectiva de trilhar com sucesso o caminho do Palácio do Planalto. O segundo bom motivo é o jeitão Covas de ser. Durante os quatro anos de seu primeiro mandato, o governador paulista não teve receio de ser chamado de inoperante, burocrata, mal-humorado, paradão. Empenhado em sanear as contas estaduais, Covas pouco tem a apresentar em termos de obras ou realizações no terreno social. Mesmo assim, bom de voto, conseguiu reeleger-se. Agora, com o caixa em ordem, a idéia é que teria mais tranqüilidade para fazer o tipo de governo que rende popularidade — uma obra aqui, outra ali, um programa social acolá — e injetaria vitamina numa candidatura para 2002. Na semana passada, a paisagem da sucessão presidencial ficou ainda mais deserta, porque, se Covas conseguiu afastar de si o pesadelo de um câncer em fase de metástase, por outro lado é câncer, sim, o que ele tem. Inclui-se nesse diagnóstico todo o rol de incertezas que costuma acompanhar uma doença ainda sem cura definitiva.

Internado no Incor,
Covas ouviu a má
notícia: "O Santos
está fora da final"
Foto: Lailson Santos  

Cerimônia de posse — Como o tumor já comprometeu a bexiga, os médicos terão de retirá-la totalmente, o que está marcado para acontecer na segunda-feira. A operação, considerada uma das mais complexas da urologia, deve durar de sete a nove horas. A certeza de que o câncer está restrito à bexiga é um alívio. As chances de sobrevida são de 75% em cinco anos para casos como o do governador, conforme dados do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos. Com a remoção da bexiga, porém, é preciso criar novos meios de estocar urina. Estão aí, nesse ponto preciso, dúvidas amargas sobre o futuro do governador.

Mesmo na hipótese de novos focos de câncer não aparecerem, é impossível imaginar um homem que tenha de urinar por intermédio de um orifício aberto no abdome enfrentando a pesada rotina de uma campanha presidencial. Esse é um dos cenários. Outro é os médicos desviarem o percurso da urina para o intestino. Nesse caso, a evacuação e a micção ocorrem simultaneamente. No melhor cenário, consegue-se construir uma nova bexiga a partir de tecidos extraídos do intestino, com a urina saindo pela uretra. "Esse é o método que mais se aproxima do processo de micção natural", afirma Celso Gromatzky, urologista do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Pela aparência de normalidade, é essa alternativa a preferida pelos médicos, ainda que implique o risco de o paciente desenvolver incontinência urinária. Um em cada dez doentes operados sofre desse problema. "De todo modo, só saberemos o que será possível fazer no momento da cirurgia", diz o doutor Arap. Não importa o tipo de reconstituição, muito provavelmente o governador não comparecerá à cerimônia de posse em 1º de janeiro. O pós-operatório está previsto para levar cerca de quinze dias. Ele só estará completamente recuperado em um mês.

"Só faltava isso" — Eram 9 horas da noite do domingo 6 quando Covas recebeu a notícia do câncer na bexiga. Havia apenas dois dias, ele tinha sido submetido a uma operação para a retirada do tumor benigno na próstata. Ainda estava internado, recuperando-se, acompanhado da mulher, Lila, dos filhos Renata e Mário e do genro Pedro. Estupefato, Covas ficou calado por alguns minutos, olhando para Lila, um sorriso nervoso nos lábios.

— Só faltava isso — disse, quebrando o silêncio.

Ele então passou a listar, um a um, todos os seus problemas de saúde. O infarto, as pontes de safena e mamária, a vesícula inflamada, as infecções, as erisipelas (veja quadro). Refeito do choque, quis detalhes da doença, do tratamento e da recuperação. Sami Arap e o infectologista David Uip, médico de Covas há vários anos, argumentaram que se ele quisesse poderia ouvir a opinião de outros especialistas. Se desejasse, passaria o Natal em casa. Com a determinação que lhe é peculiar, o paciente anunciou:

— Estou com minha família, os médicos de minha confiança, meus amigos. Tenho certeza de que todos farão o melhor por mim. E eu farei a minha parte: vou à luta.

Quatro graus definem o teto de malignidade de um câncer. Quanto maior o estágio, mais severa a doença. O de Covas está no grau 3. É também invasivo — cresce em direção ao músculo do órgão. De todos os tipos de câncer de bexiga, está entre os mais agressivos. No decorrer da semana, apesar da angústia à espera dos resultados dos exames que lhe mapearam o corpo em busca de outros eventuais focos de câncer, Covas, em nenhum momento, se deixou abater.

Pijama azul e robe cinza, na tarde de terça-feira ele veio a público. De pé na porta do quarto, agradeceu as mensagens de apoio: "São milhares e milhares de pessoas que telefonam, que rezam, que oram". Falou de política: "Eu não pretendo de maneira nenhuma deixar de exercer as minhas prerrogativas na plenitude. Às vezes eu as faço errado, mas não vou deixar de exercê-las". Descreveu o baque do diagnóstico: "Não é fácil. E, como vocês vêem, eu não estou tão mal quanto pintam". De todos, parentes e amigos, era Covas quem esbanjava otimismo e esperança.

Durante a manhã de terça-feira, enfrentou uma anestesia peridural, dois cortes de 1,5 centímetro no abdome, por onde os médicos introduziram uma broca de 2 milímetros de diâmetro e recolheram fragmentos de osso. À tarde, encontrou disposição para visitar um paciente do Incor — uma menina de 8 anos que lhe havia enviado um bilhete de "boa sorte", decorado com um beijo de batom. Como a garota passaria por uma cirurgia cardíaca, para tranqüilizá-la, Covas mostrou-lhe a sua própria cicatriz, resultado das duas pontes de safena e uma mamária recebidas em 1987.

Foto: Divulgação

Os exames que investigavam a presença de câncer nas estruturas ósseas acusaram uma mancha na porção esquerda da bacia (veja quadro). Poderia ser metástase, fenômeno em que as células tumorais mergulham na corrente sanguínea e migram para outros órgãos. Covas sabia: se fosse esse o caso, o prognóstico seria dos piores. De um a um ano e meio de vida no máximo, conforme alguns oncologistas. Mesmo assim, o governador não perdeu o ânimo. Dois dias depois, receberia a "má" notícia da desclassificação do Santos. E a "boa": as alterações anotadas nos ossos da bacia são resultado de um processo de cicatrização ou a fase inicial de uma doença óssea, chamada Paget, comum em pessoas com mais de 60 anos, benigna e tratável à base de medicamentos.

O tumor de Covas foi descoberto por acaso. "Esse achado talvez decida a vida dele", diz o infectologista Uip. "Se passasse despercebido, em seis meses, o quadro provavelmente seria o de uma metástase", completa o professor Arap. No dia 15 de novembro, o governador procurou o doutor Uip reclamando de dores para urinar. A primeira hipótese era a de uma inflamação da próstata. Os exames de urina e cultura de urina não apontaram nessa direção. O doutor Arap foi então chamado ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista. A avaliação clínica revelou um aumento da próstata. Depois dos 50 anos, 80% dos homens apresentam alterações no tamanho da glândula. Normalmente, a próstata tem de 18 a 20 gramas. A de Covas estava com 65. Ao submeter o governador a uma ultra-sonografia, o urologista notou alterações no lado esquerdo do sistema urinário — espessamento da parede lateral esquerda da bexiga, dilatação do ureter e inchaço do rim. "Achei esquisito", lembra o médico. Pediu uma tomografia. Nenhum tumor. Durante a cirurgia para reduzir o tamanho da próstata, aproveitou para vasculhar a área. Topou então com 1 centímetro de tumor.

Sangramento — Diferentemente da maioria dos cânceres de bexiga, o tumor de Covas cresceu para fora, em direção à parede muscular. Por isso ele não apresentou o sintoma mais comum da doença — urinar sangue, como acontece com 98% dos pacientes. Como a bexiga é um órgão oco e grande parte dos nódulos malignos cresce em direção a esse vazio, o contato freqüente do tumor com a urina acaba provocando sangramento. O câncer de bexiga está entre os dez mais comuns (veja quadro). Conforme estimativas do Instituto Nacional do Câncer, entidade ligada ao Ministério da Saúde, cerca de 8.000 novos casos serão registrados no Brasil neste ano. Doença associada ao sexo masculino, é quatro vezes mais comum entre os homens do que entre as mulheres. Atinge sobretudo senhores com mais de 60 anos. Como acontece com os tumores de pulmão, boca e laringe, seu principal fator de risco é o cigarro. Entre fumantes e ex-fumantes, o perigo é duas a três vezes maior. "Como a excreção dos produtos cancerígenos inalados é feita pela urina, e como a urina fica armazenada na bexiga, esses resíduos acabam facilitando o aparecimento do câncer", explica o cancerologista Osvaldo Giannotti Filho, chefe do departamento de patologia da Universidade Federal de São Paulo. Durante quarenta anos, o governador chegou a consumir quatro maços de cigarro por dia. Só largou o vício em 1986, depois do infarto.

O tumor de bexiga é um câncer ingrato. Não há exames específicos capazes de diagnosticá-lo, como acontece, por exemplo, com os tumores de mama e próstata. Na maioria das vezes é detectado apenas pelo sangue na urina. Sem o sangramento, a descoberta torna-se difícil. Mas não impossível, como se viu no caso do governador. Um médico experiente pode vir a flagrá-lo pelo ultra-som, um método que junto com o (desagradável, mas necessário) exame de toque retal e o PSA (análise de sangue que investiga a presença de tumores na glândula prostática) constitui o arsenal de prevenção ao câncer de próstata — uma bateria de testes pela qual todos os homens com mais de 40 anos deveriam passar uma vez por ano. Covas não era um deles. Tinha o costume de fazer apenas o PSA. Toque e ultra-som, não. Não fosse a perspicácia dos médicos que julgaram "esquisito" o espessamento da parede da bexiga, o tumor poderia ter passado despercebido. Quando fosse descoberto, poderia ser tarde demais.

Com reportagem de Sandra Brasil, de Brasília




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