Carreiras
A geração
que tem pressa
Os jovens profissionais são infiéis
às empresas e querem chegar logo
aos
cargos de comando.
Seus chefes acham que eles desprezam a hierarquia

Carolina
Romanini
As empresas costumam combinar
em suas equipes o arrojo dos jovens em início de carreira e a temperança
dos funcionários mais experientes. Com a conjunção de visões
diferentes, ganham os dois grupos e, principalmente, a companhia. A julgar por
estudos recentes, porém, a conexão entre os profissionais jovens
e seus chefes tem produzido uma quantidade maior de conflitos de valores do que
no passado. É o que se depreende de duas pesquisas cujos resultados foram
divulgados recentemente. A primeira foi realizada pelo Atelier de Pesquisa Organizacional,
uma empresa paulista que estuda o comportamento de funcionários de companhias.
A pesquisa reúne a opinião de 100 gestores de grandes empresas em
todo o Brasil sobre o comportamento dos jovens de 18 a 24 anos por eles chefiados.
A segunda pesquisa foi elaborada pela consultoria de recursos humanos Cia de Talentos,
de São Paulo, especializada em recrutar jovens para programas de estágio
e trainee. Por meio de um questionário enviado pela internet, 30.000 jovens
de todo o país, na faixa de idade até 28 anos, expressaram suas
experiências no ambiente de trabalho e suas expectativas profissionais.
A
pesquisa com os gestores mostra que 64% deles acreditam que a nova geração
não se apega aos valores da empresa e, portanto, não cria vínculos
de fidelidade com ela. A um estalar de dedos, os jovens estão dispostos
a trocar de emprego em busca de uma nova oportunidade de crescimento. Seu objetivo
é um só: subir na carreira o mais rapidamente possível. Na
mesma pesquisa, 63% dos gestores dizem que os jovens sob seu comando têm
dificuldade em lidar com as formalidades do ambiente de trabalho. Tendem a desrespeitar
a hierarquia e, frequentemente, são descontraí-dos além do
que mandam as regras de convivência profissional. Na opinião dos
chefes, é indispensável que um novato passe por todos os degraus
da empresa antes de alcançar cargos elevados. "Muitas vezes o rápido
crescimento profissional faz com que esses jovens ultrapassem etapas de aprendizado
importantes para a construção de sua carreira", diz Werner
Mitteregger, diretor de recursos humanos da Pfizer e um dos entrevistados pela
pesquisa.
As observações feitas pelos chefes
se comprovam na pesquisa com os jovens. A vontade de alcançar rapidamente
os cargos de chefia aparece em primeiro lugar na lista de objetivos profissionais
dos entrevistados. Em segundo lugar, ter desafios constantes no dia a dia e evitar
a rotina a todo custo. O terceiro objetivo citado pelos jovens é dispor
de um ambiente de trabalho que valorize suas capacidades. A pesquisa realizada
com os jovens profissionais mostra que eles têm um perfil típico.
Além do bom nível educacional, falam dois ou mais idiomas e conhecem
várias culturas porque costumam viajar bastante, principalmente em programas
de intercâmbio. Eles se interessam por uma grande variedade de assuntos,
procuram estar bem informados e usam toda sorte de recursos oferecidos pela era
digital. "Equilibrar o relacionamento entre os jovens profissionais e seus
chefes é hoje um desafio para as grandes empresas", diz a psicóloga
Sofia Esteves, da Cia de Talentos.
As gerações
anteriores à dos jovens profissionais de hoje costumam se orgulhar de trabalhar
há décadas na mesma empresa. Hoje, segundo a pesquisa, os jovens
acreditam que seis anos seja o prazo ideal de permanência numa companhia.
"Não me vejo trabalhando muito tempo no mesmo lugar", afirma
o administrador de empresas paulista Fernando Cintra, de 24 anos, funcionário
de uma consultoria empresarial há um ano e meio. Fernando e seu pai, o
engenheiro João Júnior Tabosa Bernardo, de 49 anos, refletem a postura
profissional de suas respectivas gerações. Bernardo começou
a carreira como aprendiz na Petrobras, em 1983, e continua na companhia até
hoje. "Sinto-me patrimônio da empresa e tenho orgulho dela", ele
diz. Esse argumento, ao que tudo indica, não vai sensibilizar Fernando
e seus colegas.
Laílson Santos
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CAMINHOS OPOSTOS
O administrador paulista Fernando Cintra, de 24 anos (ao
alto), faz parte da geração que não hesita em trocar de
emprego para tentar subir na carreira o mais rapidamente possível. "Não
me vejo trabalhando muito tempo na mesma empresa", ele diz. Seu pai, o engenheiro
João Tabosa, de 49 anos, pensa diferente. "Comecei como aprendiz na
Petrobras e me orgulho de até hoje trabalhar na companhia", afirma |
Manoel
Marques
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ROTINA JAMAIS
No ano passado, a administradora
paranaense Alessandra Mie, 24 anos, pediu demissão da empresa em que trabalhava
por se sentir desmotivada e entediada pela rotina. Meses depois foi surpreendida
pelo ex-chefe, que lhe ofereceu um cargo de chefia. Não teve dúvidas
em voltar à empresa. "O que me apavorava antes era a falta de perspectiva
de crescer profissionalmente", ela diz |
Bruno Magalhães/Nitro |
QUERO SER GRANDE
Quando era trainee, o engenheiro mineiro Fábio
Augusto Macedo, de 29 anos, sentiu-se motivado a trabalhar na Fosfertil, do setor
de fertilizantes, pela fama da empresa em dar ouvidos aos jovens. Conseguiu o
emprego e desenvolveu um projeto que hoje rende 6 milhões de reais
por ano à companhia. "Eles apostaram nas minhas ideias",
diz Macedo |
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