Lya Luft
O que devemos aos jovens
"Tratando dos jovens e de suas frustrações, falo sobre nós,
adultos,
pais, professores, autoridades, e em quanto lhes somos devedores"
Fiquei surpresa quando uma entrevistadora disse que em meus
textos falo dos jovens como arrogantes e mal-educados. Sinto muito: essa, mais
uma vez, não sou eu. Lido com palavras a vida toda, foram uma de minhas
primeiras paixões e ainda me seduzem pelo misto de comunicação
e confusão que causam, como nesse caso, e por sua beleza, riqueza e ambiguidade.
Escrevo repetidamente sobre juventude e infância, família
e educação, cuidado e negligência. Sobre nossa falha quanto
à autoridade amorosa, interesse e atenção. Tenho refletido
muito sobre quanto deve ser difícil para a juventude esta época
em que nós, adultos e velhos, damos aos jovens tantos maus exemplos,
correndo desvairadamente atrás de mitos bobos, desperdiçando nosso
tempo com coisas desimportantes, negligenciando a família, exagerando
nos compromissos, sempre caindo de cansados e sem vontade ou paciência
de escutar ou de falar. Penso sobretudo no desastre da educação:
nem mesmo um exame de Enem tranquilo conseguimos lhes oferecer. A maciça
ausência de jovens inscritos, quase a metade deles, não se deve
a atrasos ou outras dificuldades, mas ao desânimo e à descrença.
De modo que, tratando dos jovens e de suas frustrações,
falo sobre nós, adultos, pais, professores, autoridades, e em quanto
lhes somos devedores. O que fazem os que de maneira geral deveriam ser líderes
e modelos? Os escândalos públicos que nos últimos anos se
repetem e se acumulam são para deixar qualquer jovem desencantado: estudar
para quê? Trabalhar para quê? Pior que isso: ser honesto para quê,
se nossos pretensos líderes se portam de maneira tão vergonhosa
e, ano após ano, a impunidade continua reinando neste país que
tenta ser ufanista?
Tenho muita empatia com a juventude, exposta a tanto descalabro,
cuidada muitas vezes por pais sem informação, força nem
vontade de exercer a mais básica autoridade, sem a qual a família
se desintegra e os jovens são abandonados à própria sorte
num mundo nem sempre bondoso e acolhedor. Quem são, quem podem ser, os
ídolos desses jovens, e que possibilidades lhes oferecemos? Então,
refugiam-se na tribo, com atitudes tribais: o piercing, a tatuagem, a dança
ao som de música tribal, na qual se sobrepõe a batida dos tantãs.
Negativa? Censurável? Necessária para muitos, a tribo é
onde se sentem acolhidos, abrigados, aceitos.
Escola e família ou se declaram incapazes, ou estão
assustadas, ou não se interessam mais como deveriam. Autoridades, homens
públicos, supostos líderes, muitos deles a gente nem receberia
em casa. O que resta? A solidão, a coragem, a audácia, o fervor,
tirados do próprio desejo de sobrevivência e do otimismo que sobrar.
Quero deixar claro que nem todos estão paralisados, pois muitas famílias
saudáveis criam em casa um ambiente de confiança e afeto, de alegria.
Muitas escolas conseguem impor a disciplina essencial para que qualquer organização
ou procedimento funcione, e nem todos os políticos e governantes são
corruptos. Mas quero também declarar que aqueles que o são já
bastam para tirar o fervor e matar o otimismo de qualquer um.
Assim, não acho que todos os jovens sejam arrogantes,
todas as crianças mal-educadas, todas as famílias disfuncionais.
Um pouco da doce onipotência da juventude faz parte, pois os jovens precisam
romper laços, transformar vínculos (não cuspir em cima
deles) para se tornar adultos lançados a uma vida muito difícil,
na qual reinam a competitividade, os modelos negativos, os problemas de mercado
de trabalho, as universidades decadentes e uma sensação de bandalheira
geral.
Tenho sete netos e netas. A idade deles vai de 6 a 21 anos.
Todos são motivo de alegria e esperança, todos compensam, com
seu jeito particular de ser, qualquer dedicação, esforço,
parceria e amor da família. Não tenho nenhuma visão negativa
da juventude, muito menos da infância. Acho, sim, que nós, os adultos,
somos seus grandes devedores, pelo mundo que lhes estamos legando. Então,
quando falo em dificuldades ou mazelas da juventude, é de nós
que estou, melancolicamente, falando. |