Roberto Pompeu de Toledo
Brasilienses
"É como se a moçada
do Plano Piloto, gente de mente aberta
e acesso a uma boa universidade,
dissesse aos emergentes
da Uniban: Viram? Nós podemos. Vocês
não"
Não
se trata de um recorde apenas brasileiro. No mundo todo, nunca antes o público
ganhara igual oportunidade de contemplar a arte da corrupção em
tal esplendor. Entre os itens da rica coleção de filmes estrelada
pelo governador Arruda e sua turma, cada um terá suas próprias prefe-rências.
A deste colunista é a seguinte:
Medalha de bronze, empatados:
1) Aquele em que o governador, escarrapachado no sofá, é despertado
da sonolência pela mão amiga que lhe estende os maços de dinheiro.
"Ah, ótimo", ele diz. Justificativa do prêmio: a naturalidade
com que o governador saúda a oferta, embalada por um "ah, ótimo"
tão protocolar como o que saudasse a chegada do cafezinho. 2) Aquele em
que a deputada entra na sala, recebe o dinheiro, abre a bolsa, guarda o dinheiro
e se vai. Justificativa: a simplicidade do ato.
Medalha de
prata: o filme da oração, em que três dos propineiros se abraçam
e agradecem ao Senhor a graça concedida. Justificativa: a força
da fé, mesmo em circunstância em que o comum das pessoas não
esperaria sua presença.
Medalha de ouro: o filme em
que o presidente da Assembleia de Brasília, sentado diante do distribuidor
da propina, recebe os maços e os vai alocando, primeiro, nos diferentes
bolsos do paletó, depois nas meias. Justificativa: a didática exposição
do caráter clandestino da propina, mas não apenas isso. O filme
leva a palma também por seus valores estéticos. O personagem está
bem vestido, exibe uma silhueta esguia, e os movimentos que executa, primeiro
com os braços, conduzindo as mãos aos bolsos, em seguida com as
pernas, levantando uma, depois a outra, para alcançar as meias, mostram
flexibilidade e boa coordenação. É o estilo a serviço
da corrupção.
Ainda falta
acrescentar um detalhe, uma nota de rodapé, ao episódio em que a
moça de minissaia foi escorraçada pelas hordas de trogloditas da
universidade Uniban, em São Paulo. O detalhe, que talvez não seja
tão detalhe assim, foi a manifestação encenada na Universidade
de Brasília por algumas dezenas de estudantes, homens e mulheres, alguns
em roupas íntimas, outros sem roupa alguma, em protesto contra o ocorrido.
Duas moças de peitos de fora escreveram na pele: "O corpo é
meu". Um grupo de meninas entoava: "Eu uso o que quiser / eu sou mulher".
Não
foi noticiado se, como usam, ou não usam, o que bem entendem, os
estudantes costumam assistir às aulas pelados. Presume-se que não.
Mas naquele dia puderam, sim, exibir-se pelados no câmpus. Em si o fato
não seria tão relevante se não revelasse
falar nisso
é chato, é quase proibido, mas vá lá
se não
revelasse uma questão de classe. É como se a juventude dourada do
Plano Piloto, abençoada, entre outras coisas, com o acesso a uma boa universidade
e a um meio de hábitos livres e "mente aberta", dissesse aos
emergentes da Uniban, condenados a uma universidade ruim e a um meio de hábitos
não tão livres e men-tes não tão abertas: "Viram,
seus basbaques? Nós podemos. Vocês não". Acrescente-se
que a moçada do Plano Piloto cursa uma universidade gratuita, enquanto
a Uniban cobra caro de sua clientela classe C, e tem-se um retrato que, para além
dos costumes, flagra a perversidade do sistema brasileiro de ensino superior
em seu coração.
O Ministério
das Cidades lançou uma campanha em que ensina aos pedestres que só
devem atravessar a rua na faixa e depois de esperar que os carros parem.
Que é isso, Ministério das Cidades?! O alvo está invertido.
É o motorista que tem de ser instruído a parar, assim que avista
um pedestre na faixa. Essa é a questão central.
Esclareça-se
desde logo que o que está em pauta é a faixa de pedestres sem semáforo.
Com semáforo as coisas se simplificam: o sinal fecha, os carros param.
Nesses locais nem precisaria haver faixa zebrada. Bastaria uma linha sinalizando
o ponto em que os carros devem parar. O que os motoristas brasileiros não
compreendem é que, à vista de uma faixa de pedestres onde não
há semáforo, já ocupada ou em via de ser ocupada por pedestres,
devem também obrigatoriamente parar. (Uma exceção surpreendente
são os motoristas de Brasília: depois de uma série de atropelamentos,
uma campanha de imprensa e multas que passaram a ser aplicadas, mais de dez anos
atrás, aprenderam a respeitar a faixa.)
A faixa de pedestres
é um marco civilizatório. Os países se dividem entre aqueles
cujos motoristas a respeitam e os que não. O Brasil já conseguiu
a capa da Economist e o investment grade das agências de risco.
Falta a promoção no quesito res-peito à faixa de pedestres.
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