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Tales
Alvarenga Inferno em Paris
"O
extremismo islâmico poderá eventualmente fornecer algumas idéias
e uma causa a esses novos radicais. Aí, será o inferno. Em Paris"
Eles usam celular e internet,
moram em conjuntos habitacionais e não em favelas, suas famílias
têm carros e recebem ajuda financeira do governo. Podem freqüentar
de graça escolas relativamente boas. Vivem com mais conforto do que a maioria
dos habitantes do Terceiro Mundo. Por que se revoltam então esses rapazes
árabes e negros que estão pondo fogo em carros, lojas e prédios
em uma centena de cidades francesas?
São filhos de imigrantes, em geral muçulmanos, que saíram
das ex-colônias francesas na África. Os franceses não os aceitam
como iguais, mas manifestam complexo de culpa devido a essa rejeição.
As autoridades estão atônitas, não sabem o que dizer. Alguns
analistas romantizam a revolta, inebriados como sempre com qualquer sinal vago
de explosão revolucionária.
O que acontece é de outra natureza. Uma multidão de jovens delinqüentes
joga coquetéis molotov dentro de carros e lojas dos próprios vizinhos.
Estão com raiva pela discriminação racial que sofrem. Ponto.
Aí, vem a retórica malpassada da imprensa e da academia fazendo
referências aos protestos estudantis de maio de 1968 e à tradição
libertária da França, expressa pela Revolução de 1789.
Oh, céus! Na verdade, esses rebeldes não têm líderes
nem ideologia. O francês tem
alergia a diferenças de raça e cultura. A França não
está sozinha entre os grandes países da Europa que perseguiram judeus
durante o nazismo alemão e hoje discriminam árabes, negros, turcos
e pobres provenientes de países como a Albânia. O desemprego é
muito maior entre os 6 milhões de islâmicos da França, que
falam um francês de baixa extração, costumam fugir da escola
na adolescência e, quando jovens, tendem a se meter em gangues.
Os franceses educados não explicitam sentimentos de preconceito. É
uma questão de finesse. Nicolas Sarkozy, ministro do Interior, quebrou
a etiqueta. Chamou os revoltosos de "escória", "gentalha", e agora quer
deportar os garotos presos em arruaças. Com essa manifestação,
Sarkozy provocou um recrudescimento dos incêndios criminosos. Talvez tenha
conquistado mais apoio entre a maioria silenciosa dos seus compatriotas. Sarkozy
sonha substituir Jacques Chirac na Presidência. Seu direitismo explícito
pode ter-lhe rendido mais popularidade.
A revolta na França apresenta um interesse sociológico óbvio.
Legiões de imigrantes progridem nos países de adoção
sem precisar incendiar automóveis. Japoneses, chineses, hispânicos,
italianos, portugueses, libaneses, armênios são alguns deles. Quanto
aos países que os recebem, lugares como o Brasil ou os Estados Unidos parecem
mais flexíveis no processo de assimilação do que as nações
européias, tão orgulhosas de suas conquistas sociais. No Brasil,
demos um passo adiante. Fizemos também a miscigenação, uma
glória nacional. As revoltas
coletivas deixam mensagens. Nesse caso, a primeira é a de que a França
falhou. A segunda, que a cultura e a religião desses novos radicais são
um elemento com potencial de risco, vivendo eles em comunidades segregadas. O
extremismo islâmico poderá eventualmente lhes fornecer algumas idéias,
uma identidade e uma causa. Aí, será o inferno. Em Paris. |