|
|
Livros Ciúme
entre os medíocres Novo romance da veterana
escocesa Muriel Spark ironiza as ambições literárias
 Jerônimo
Teixeira
Alan
Riding/The New York Times
 | | Muriel
Spark: aulas de redação e etiqueta |
A foto nesta
página pode enganar. A senhora flagrada no gesto tão doméstico
de acariciar seu gato evoca o estereótipo da "boa velhinha", a vovó
incapaz de um pensamento malicioso. Mas a octogenária que vemos em sua
casa na Toscana, Itália, é a escocesa Muriel Spark, uma das mais
importantes figuras da ficção em língua inglesa surgidas
na segunda metade do século XX. Essa reputação foi conquistada,
entre outros méritos, pelo exercício de uma ironia cruel. E, em
seu mais recente romance o 22º de uma carreira que também enveredou
pelo conto, pela poesia e pela crítica literária , Muriel
estende a verve satírica para sua própria atividade. Uma Escola
para a Vida (tradução de Domingos Demasi; Ediouro; 122 páginas;
34,90 reais) trata das imodestas ambições que os escritores nutrem
em relação à própria obra e da venenosa inveja
que devotam ao trabalho de seus pares. Assim como
em A Primavera da Srta. Jean Brodie, um de seus livros mais conhecidos,
a ação do novo romance tem lugar em uma escola interna. O colégio
Sunrise é uma pequena instituição itinerante (começou
na Bélgica, transferiu-se para a Austria e depois para a Suíça)
dedicada ao "aperfeiçoamento" de alunos de elite um lugar onde adolescentes
ricos ganham um lustro entre o fim do secundário e o início da universidade.
Com apenas nove privilegiados estudantes, a instituição é
administrada por Nina Parker, que dá aulas de etiqueta, e seu marido, Rowland
Mahler, responsável pelo curso de redação criativa. Rowland
tem pretensões literárias: deseja aproveitar a calma da escola à
beira de um lago para escrever seu grande romance. Mas um de seus diletos alunos,
Chris Wiley, também está empenhado na elaboração de
um livro, uma ficção histórica sobre Mary Stuart, a rainha
da Escócia. Seu trabalho parece progredir com mais desenvoltura do que
o do suposto mestre. A inveja que Rowland sente de Chris ganha contornos cada
vez mais obsessivos, a ponto de Nina temer pela sanidade do marido (e pela vida
de seu aluno). A princípio, fica a impressão
de que essa é uma daquelas histórias convencionais do artista medíocre
que inveja o concorrente talentoso (algo na linha da rivalidade entre Salieri
e Mozart no filme Amadeus). Mas o melhor do livro está na reversão
dessas expectativas. O narrador impessoal e impiedoso do livro esconde muito do
leitor, que fica sem saber se Chris é mesmo o prodígio juvenil que
Rowland imagina. Esta é a ironia final do livro: a mediocridade pode despertar
tanta inveja quanto o gênio.
O pecado da inveja "De
acordo com o catecismo da fé católica romana, na qual Rowland nascera,
são especificados seis pecados contra o Espírito Santo. O quarto
é "invejar o bem espiritual do próximo", e era desse pecado que
vinha o seu sofrimento. Seu ciúme obsessivo de Chris era seu grande infortúnio.
(...) Muitas vezes Rowland já havia pensado como seria se Chris estivesse
morto. Não adiantaria. Não seria o bastante. Sempre restaria o fato
de que Chris vivera, escrevera um livro enquanto ainda estudava, impedira Rowland
de escrever seu romance." Trecho
de Uma Escola para a Vida | | |