Edição 1931 . 16 de novembro de 2005

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Livros
Ciúme entre os medíocres

Novo romance da veterana
escocesa Muriel Spark ironiza
as ambições literárias


Jerônimo Teixeira

 
Alan Riding/The New York Times
Muriel Spark: aulas de redação e etiqueta

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Trecho do livro

A foto nesta página pode enganar. A senhora flagrada no gesto tão doméstico de acariciar seu gato evoca o estereótipo da "boa velhinha", a vovó incapaz de um pensamento malicioso. Mas a octogenária que vemos em sua casa na Toscana, Itália, é a escocesa Muriel Spark, uma das mais importantes figuras da ficção em língua inglesa surgidas na segunda metade do século XX. Essa reputação foi conquistada, entre outros méritos, pelo exercício de uma ironia cruel. E, em seu mais recente romance – o 22º de uma carreira que também enveredou pelo conto, pela poesia e pela crítica literária –, Muriel estende a verve satírica para sua própria atividade. Uma Escola para a Vida (tradução de Domingos Demasi; Ediouro; 122 páginas; 34,90 reais) trata das imodestas ambições que os escritores nutrem em relação à própria obra – e da venenosa inveja que devotam ao trabalho de seus pares.

Assim como em A Primavera da Srta. Jean Brodie, um de seus livros mais conhecidos, a ação do novo romance tem lugar em uma escola interna. O colégio Sunrise é uma pequena instituição itinerante (começou na Bélgica, transferiu-se para a Austria e depois para a Suíça) dedicada ao "aperfeiçoamento" de alunos de elite – um lugar onde adolescentes ricos ganham um lustro entre o fim do secundário e o início da universidade. Com apenas nove privilegiados estudantes, a instituição é administrada por Nina Parker, que dá aulas de etiqueta, e seu marido, Rowland Mahler, responsável pelo curso de redação criativa. Rowland tem pretensões literárias: deseja aproveitar a calma da escola à beira de um lago para escrever seu grande romance. Mas um de seus diletos alunos, Chris Wiley, também está empenhado na elaboração de um livro, uma ficção histórica sobre Mary Stuart, a rainha da Escócia. Seu trabalho parece progredir com mais desenvoltura do que o do suposto mestre. A inveja que Rowland sente de Chris ganha contornos cada vez mais obsessivos, a ponto de Nina temer pela sanidade do marido (e pela vida de seu aluno).

A princípio, fica a impressão de que essa é uma daquelas histórias convencionais do artista medíocre que inveja o concorrente talentoso (algo na linha da rivalidade entre Salieri e Mozart no filme Amadeus). Mas o melhor do livro está na reversão dessas expectativas. O narrador impessoal e impiedoso do livro esconde muito do leitor, que fica sem saber se Chris é mesmo o prodígio juvenil que Rowland imagina. Esta é a ironia final do livro: a mediocridade pode despertar tanta inveja quanto o gênio.

 

O pecado da inveja

"De acordo com o catecismo da fé católica romana, na qual Rowland nascera, são especificados seis pecados contra o Espírito Santo. O quarto é "invejar o bem espiritual do próximo", e era desse pecado que vinha o seu sofrimento. Seu ciúme obsessivo de Chris era seu grande infortúnio. (...) Muitas vezes Rowland já havia pensado como seria se Chris estivesse morto. Não adiantaria. Não seria o bastante. Sempre restaria o fato de que Chris vivera, escrevera um livro enquanto ainda estudava, impedira Rowland de escrever seu romance."

Trecho de Uma Escola para a Vida

 
 
 
 
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