Edição 1931 . 16 de novembro de 2005

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Saúde
O chocolate sem culpa

Novo produto, com mais cacau,
promete prevenir as doenças
cardíacas sem perder o sabor


Tiago Cordeiro

Os médicos recomendam cautela com o chocolate e a balança teima em lembrar que ele é um de seus maiores inimigos. Mesmo assim, essa iguaria inventada pelos astecas e levada para a Europa pelos conquistadores espanhóis permanece como uma das maiores tentações – a que pouca gente resiste – no terreno da gastronomia. A Mars, uma grande indústria de alimentos, acaba de lançar nos Estados Unidos um produto que, promete a empresa, colocará de vez o chocolate no rol dos alimentos que se podem comer sem susto. Batizado de CocoaVia, ele tem o dobro do cacau existente nos chocolates comuns, chamados genericamente de "ao leite". Isso faz com que abrigue em sua composição um elevado grau de flavonóis, substâncias que contribuem para prevenir a hipertensão e dilatar os vasos sanguíneos, evitando o acúmulo de gordura. Ou seja, concorrendo para diminuir o risco de ataques cardíacos. A fórmula do CocoaVia tem ainda a adição de esteróis naturais, tirados do óleo de canola, substância que ataca o colesterol ruim. A Mars aconselha que o novo produto seja consumido como um suplemento alimentar ou remédio, à razão de duas pequenas barras por dia.

A questão central é se o mundo realmente precisa de um chocolate que também funciona como remédio. Chocolates com alta concentração de cacau não são novidade. Os do tipo amargo também têm por volta de 60% de cacau em sua composição – a diferença, no caso do CocoaVia, é que o processamento é feito por um sistema capaz de extrair o máximo de flavonóis da fruta. Chocolates amargos são menos saborosos do que aqueles ao leite. Embora os gourmets, sempre um tanto excêntricos, defendam que o verdadeiro chocolate é o que tem muito cacau, a guloseima pela qual a humanidade se derrete é aquela que não contém mais de 30% do produto em sua composição. Esse é o padrão seguido pelos fabricantes dos mais famosos chocolates suíços, franceses e belgas em sua linha principal de produtos.

Nos Estados Unidos, o consumo de chocolate amargo aumentou 31% nos últimos cinco anos, justamente na esteira das pesquisas médicas que apontam os benefícios dos flavonóis. Mas o chocolate ao leite ainda detém 80% do mercado. No Brasil, o chocolate amargo não chega a representar 1% do consumo. Os flavonóis são bons coadjuvantes na prevenção de doenças cardíacas, mas estão presentes também em outros alimentos, como a laranja, a maçã, o chá verde e o vinho tinto. Duas taças de Bordeaux de boa cepa têm a mesma quantidade de flavonóis que uma barra de chocolate amargo. A favor do novo produto da Mars está o fato de que ele traz 30% menos calorias do que o chocolate ao leite. É uma boa notícia. Resta saber se o produto será capaz de levar os chocólatras ao estado de graça que só o chocolate pode produzir.

 

 
 
 
 
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