Edição 1931 . 16 de novembro de 2005

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Economia e Negócios
Por que elas nadam
em dinheiro

Com avaliação de risco melhor que a do
próprio governo brasileiro, companhias
reduzem o custo de seus empréstimos


Giuliano Guandalini

 
Reuters
Lançamento de papéis da Vale na Bolsa de Nova York: maior fluxo de dólares reduz risco da empresa

No começo deste mês, a fábrica de celulose Aracruz e o grupo Votorantim receberam da agência de classificação de risco Standard & Poor's o "investment grade" – ou grau de investimento, título conferido às companhias ou países que, por serem capazes de pagar suas dívidas, mesmo em condições adversas, são porto seguro para todos os tipos de empréstimos. A nova condição permitirá às duas companhias vender papéis aos gigantescos fundos de pensão americanos e europeus, que não aceitam investimentos de risco mais elevado. Isso amplia a liquidez dos títulos dessas empresas e tende a reduzir ainda mais o custo dos empréstimos. Como o "preço" do dinheiro é proporcional ao risco, elas passarão a pagar menos juros e terão prazos maiores, explica Isac Zagury, diretor financeiro da Aracruz. "Temos hoje um rating melhor do que a Ford e a GM", orgulha-se Luis Felipe Schiriak, diretor da Votorantim, em referência às montadoras americanas.

Não são as primeiras companhias brasileiras a constar da lista. Em 2004, a AmBev e a Petrobras já haviam recebido a mesma distinção. No mês passado, foi a vez da Vale do Rio Doce. Essas empresas obtiveram a nota BBB, o primeiro nível do grau de investimento. Nenhuma empresa brasileira jamais atingiu o nível máximo, AAA. Pelo salto que deram na escala de classificação de risco, no entanto, elas já obtêm excepcionais condições de crédito. Hoje nadam em dinheiro e se dão ao luxo de rejeitar ofertas de empréstimo. Pagam, em média, taxa de juros de 7% ao ano para efetuar empréstimos em dólares no exterior, enquanto o governo brasileiro desembolsa 8%. As boas empresas do México e do Chile estão em situação um pouco melhor que as brasileiras de excelência. Como seus governos são os únicos latino-americanos que conquistaram a confiança dos investidores externos, o setor privado consegue pagar juros no mercado externo entre 5,5% e 6% ao ano, pouco acima dos americanos. As melhores companhias brasileiras ainda não chegaram aos níveis mexicano e chileno, mas já escapam dos exorbitantes juros praticados no mercado brasileiro. Uma empresa brasileira sem presença externa, por exemplo, não consegue emitir títulos no mercado doméstico se não pagar juros de ao menos 20% ao ano. Há situações ainda piores. Às companhias de porte menor não resta alternativa além dos bancos comerciais, cujas taxas médias são de 44% ao ano.

À primeira vista pode parecer normal que empresas do porte da Vale do Rio Doce ou da Aracruz recebam o grau de investimento. Mas não num país com o histórico econômico do Brasil. Durante as moratórias dos anos 80, até as empresas mais saudáveis foram impedidas pelo governo de remeter recursos ao exterior para honrar suas dívidas. Hoje, é verdade, o risco de o governo impor controles cambiais já é bem menor, mas ainda há um resíduo de desconfiança, realimentada de vez em quando por discursos mais exaltados. O que explica a ascensão desse grupo de companhias ao grau de excelência é o processo de internacionalização a que elas se submeteram na última década. Além de exportar mais, começaram a investir em filiais e a comprar empresas lá fora, ganhando assim uma preciosa receita em dólares – receita essa que fica livre das loucuras cíclicas dos governos brasileiros.

 

Nilton Souza
Unidade de produção da Aracruz, empresa que teve o rating elevado

Centenas de companhias fizeram o mesmo. Os investimentos estrangeiros diretos de empresas brasileiras do setor produtivo somavam, no ano passado, 66 bilhões de dólares, segundo a Unctad, órgão das Nações Unidas para comércio e desenvolvimento. Dez anos atrás, esse investimento externo era nulo. Ainda há muito que avançar. Uma pesquisa da Fundação Dom Cabral, de Minas Gerais, com 109 dentre as maiores empresas de capital nacional, mostra que 73% delas mantinham em 2002 algum tipo de atuação fora do Brasil. Desse total, 68% exportavam e 25% possuíam alianças estratégicas, mas somente 11% tinham subsidiárias ou unidades de produção em outros países.

No caso da Votorantim, a internacionalização teve início recentemente, em 2001, com a compra de fábricas de cimento na América do Norte. Hoje, as subsidiárias estrangeiras trazem para o grupo 250 milhões de dólares ao ano. Como explica Schiriak, diretor da empresa, esses recursos representam uma proteção contra a volatilidade brasileira. Caso semelhante é o da AmBev. Na fusão com a belga Interbrew, no ano passado, a companhia de bebidas ficou com a cervejaria canadense Labatt. De acordo com Milena Zaniboni, da agência de classificação de risco Standard & Poor's, o fluxo de caixa em moeda forte da subsidiária foi um ponto importante na melhora do rating da empresa. As companhias nacionais, por lei, são obrigadas a trazer para o Brasil os dólares obtidos com a exportação. Já as receitas internacionais das subsidiárias podem permanecer lá fora, colocando-se como um importante escudo contra eventuais loucuras cambiais impostas pelo governo brasileiro. Segundo o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega, o país tem uma legislação cambial extremamente primitiva. "Ela é mais anacrônica que a trabalhista."

Além de conceder o grau de investimento à Aracruz e ao grupo Votorantim, a S&P também elevou, pelos mesmos motivos, as notas de outras nove grandes companhias, que ainda não ganharam o certificado máximo, mas obtiveram avaliação melhor do que o governo brasileiro. São elas: Alcoa, Gerdau, Braskem, Camargo Corrêa Cimentos, CSN, Klabin, Sadia, Telemar e Usiminas. Todas essas empresas ainda sofrem, e muito, com o custo Brasil. Infra-estrutura precária, falta de leis claras e elevada carga tributária são apenas alguns exemplos de elementos que reduzem a competitividade das empresas, afetando os resultados e o desempenho financeiro.

Em certa medida, as melhores empresas também se beneficiaram do momento de extrema liquidez da economia mundial. Com o crédito mais abundante, conseguiram refinanciar suas dívidas em termos mais generosos. Mas boa parte do mérito se deve ao esforço próprio. "Depois de diversas crises, houve um processo de consolidação. As empresas mais fracas rodaram no começo desse processo", afirma o presidente da Associação Nacional das Instituições do Mercado Financeiro (Andima), Alfredo Moraes. As que sobreviveram são companhias maiores, com grande poder de barganha. Tudo isso evidencia a distância entre o duro ajuste feito na última década pelo setor privado, que paga cada vez menos pelos empréstimos que toma, e a ineficiência crônica do poder público, sobre o qual ainda recai uma enorme desconfiança.

 
Foto Antonio Milena

Colaborou Carlos Rydlewski

 

 

 
 
 
topovoltar