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Economia e
Negócios Por que elas nadam em dinheiro Com
avaliação de risco melhor que a do próprio governo brasileiro,
companhias reduzem o custo de seus empréstimos
 Giuliano
Guandalini Reuters
 | | Lançamento
de papéis da Vale na Bolsa de Nova York: maior fluxo de dólares reduz risco da
empresa |
No começo
deste mês, a fábrica de celulose Aracruz e o grupo Votorantim receberam
da agência de classificação de risco Standard & Poor's
o "investment grade" ou grau de investimento, título conferido às
companhias ou países que, por serem capazes de pagar suas dívidas,
mesmo em condições adversas, são porto seguro para todos
os tipos de empréstimos. A nova condição permitirá
às duas companhias vender papéis aos gigantescos fundos de pensão
americanos e europeus, que não aceitam investimentos de risco mais elevado.
Isso amplia a liquidez dos títulos dessas empresas e tende a reduzir ainda
mais o custo dos empréstimos. Como o "preço" do dinheiro é
proporcional ao risco, elas passarão a pagar menos juros e terão
prazos maiores, explica Isac Zagury, diretor financeiro da Aracruz. "Temos hoje
um rating melhor do que a Ford e a GM", orgulha-se Luis Felipe Schiriak, diretor
da Votorantim, em referência às montadoras americanas.
Não são as primeiras companhias brasileiras a constar da lista.
Em 2004, a AmBev e a Petrobras já haviam recebido a mesma distinção.
No mês passado, foi a vez da Vale do Rio Doce. Essas empresas obtiveram
a nota BBB, o primeiro nível do grau de investimento. Nenhuma empresa brasileira
jamais atingiu o nível máximo, AAA. Pelo salto que deram na escala
de classificação de risco, no entanto, elas já obtêm
excepcionais condições de crédito. Hoje nadam em dinheiro
e se dão ao luxo de rejeitar ofertas de empréstimo. Pagam, em média,
taxa de juros de 7% ao ano para efetuar empréstimos em dólares no
exterior, enquanto o governo brasileiro desembolsa 8%. As boas empresas do México
e do Chile estão em situação um pouco melhor que as brasileiras
de excelência. Como seus governos são os únicos latino-americanos
que conquistaram a confiança dos investidores externos, o setor privado
consegue pagar juros no mercado externo entre 5,5% e 6% ao ano, pouco acima dos
americanos. As melhores companhias brasileiras ainda não chegaram aos níveis
mexicano e chileno, mas já escapam dos exorbitantes juros praticados no
mercado brasileiro. Uma empresa brasileira sem presença externa, por exemplo,
não consegue emitir títulos no mercado doméstico se não
pagar juros de ao menos 20% ao ano. Há situações ainda piores.
Às companhias de porte menor não resta alternativa além dos
bancos comerciais, cujas taxas médias são de 44% ao ano.
À primeira vista pode parecer normal que empresas do
porte da Vale do Rio Doce ou da Aracruz recebam o grau de investimento. Mas não
num país com o histórico econômico do Brasil. Durante as moratórias
dos anos 80, até as empresas mais saudáveis foram impedidas pelo
governo de remeter recursos ao exterior para honrar suas dívidas. Hoje,
é verdade, o risco de o governo impor controles cambiais já é
bem menor, mas ainda há um resíduo de desconfiança, realimentada
de vez em quando por discursos mais exaltados. O que explica a ascensão
desse grupo de companhias ao grau de excelência é o processo de internacionalização
a que elas se submeteram na última década. Além de exportar
mais, começaram a investir em filiais e a comprar empresas lá fora,
ganhando assim uma preciosa receita em dólares receita essa que
fica livre das loucuras cíclicas dos governos brasileiros. Nilton
Souza
 | | Unidade
de produção da Aracruz, empresa que teve o rating elevado |
Centenas de companhias fizeram o mesmo. Os investimentos estrangeiros diretos
de empresas brasileiras do setor produtivo somavam, no ano passado, 66 bilhões
de dólares, segundo a Unctad, órgão das Nações
Unidas para comércio e desenvolvimento. Dez anos atrás, esse investimento
externo era nulo. Ainda há muito que avançar. Uma pesquisa da Fundação
Dom Cabral, de Minas Gerais, com 109 dentre as maiores empresas de capital nacional,
mostra que 73% delas mantinham em 2002 algum tipo de atuação fora
do Brasil. Desse total, 68% exportavam e 25% possuíam alianças estratégicas,
mas somente 11% tinham subsidiárias ou unidades de produção
em outros países. No caso da
Votorantim, a internacionalização teve início recentemente,
em 2001, com a compra de fábricas de cimento na América do Norte.
Hoje, as subsidiárias estrangeiras trazem para o grupo 250 milhões
de dólares ao ano. Como explica Schiriak, diretor da empresa, esses recursos
representam uma proteção contra a volatilidade brasileira. Caso
semelhante é o da AmBev. Na fusão com a belga Interbrew, no ano
passado, a companhia de bebidas ficou com a cervejaria canadense Labatt. De acordo
com Milena Zaniboni, da agência de classificação de risco
Standard & Poor's, o fluxo de caixa em moeda forte da subsidiária foi
um ponto importante na melhora do rating da empresa. As companhias nacionais,
por lei, são obrigadas a trazer para o Brasil os dólares obtidos
com a exportação. Já as receitas internacionais das subsidiárias
podem permanecer lá fora, colocando-se como um importante escudo contra
eventuais loucuras cambiais impostas pelo governo brasileiro. Segundo o ex-ministro
da Fazenda Mailson da Nóbrega, o país tem uma legislação
cambial extremamente primitiva. "Ela é mais anacrônica que a trabalhista."
Além de conceder o grau de
investimento à Aracruz e ao grupo Votorantim, a S&P também elevou,
pelos mesmos motivos, as notas de outras nove grandes companhias, que ainda não
ganharam o certificado máximo, mas obtiveram avaliação melhor
do que o governo brasileiro. São elas: Alcoa, Gerdau, Braskem, Camargo
Corrêa Cimentos, CSN, Klabin, Sadia, Telemar e Usiminas. Todas essas empresas
ainda sofrem, e muito, com o custo Brasil. Infra-estrutura precária, falta
de leis claras e elevada carga tributária são apenas alguns exemplos
de elementos que reduzem a competitividade das empresas, afetando os resultados
e o desempenho financeiro. Em certa
medida, as melhores empresas também se beneficiaram do momento de extrema
liquidez da economia mundial. Com o crédito mais abundante, conseguiram
refinanciar suas dívidas em termos mais generosos. Mas boa parte do mérito
se deve ao esforço próprio. "Depois de diversas crises, houve um
processo de consolidação. As empresas mais fracas rodaram no começo
desse processo", afirma o presidente da Associação Nacional das
Instituições do Mercado Financeiro (Andima), Alfredo Moraes. As
que sobreviveram são companhias maiores, com grande poder de barganha.
Tudo isso evidencia a distância entre o duro ajuste feito na última
década pelo setor privado, que paga cada vez menos pelos empréstimos
que toma, e a ineficiência crônica do poder público, sobre
o qual ainda recai uma enorme desconfiança. Foto
Antonio Milena
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Colaborou
Carlos Rydlewski |