|
|
Brasil Fecha-se
o cerco contra Palocci Alvejado pelo fogo
amigo e denúncias de ex-assessores, o ministro vive seu momento
mais delicado no governo  Policarpo
Jr. e Marcelo Carneiro
Montagem
com fotos de Dida Sampaio/AE, Jose Cruz/ABR, Marcello Cabral/ABR, Diário de Penopolis,
Wilson Dias/ABR e ilustração de Attilio
 | Da
esquerda para a direita: DILMA ROUSSEFF Ministra-chefe da Casa
Civil, faz guerrilha urbana e rural contra Palocci JUSCELINO DOURADO
Demitido, continua servindo como elo entre o grupo de Ribeirão
Preto e o ministro Palocci VLADIMIR POLETO É amigo
da família Barquete e íntimo do secretário particular do
ministro Palocci, Ademirson Ariovaldo RALF BARQUETE Foi
secretário de Finanças de Palocci em Ribeirão Preto. Morreu
de câncer em 2004. Sua memória é um pesadelo para o ministro ROGÉRIO
BURATTI Confirmou ter sido sondado, a pedido do ministro, sobre como
fazer para trazer 3 milhões de dólares de Cuba para o Brasil ADEMIRSON
ARIOVALDO DA SILVA É secretário particular do ministro
Palocci ROBERTO COLNAGHI Dono do Seneca usado para transportar
os dólares etílico-cubanos |
O ministro Antonio Palocci escorregou para o centro da crise que açoita
o governo há seis meses e chegou aí por dois caminhos distintos.
Primeiro, atingido pelo fogo amigo, disparado pela ministra Dilma Rousseff, da
Casa Civil. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, publicada na
quarta-feira passada, a ministra chicoteou a política de superávit
primário alto, classificando-a de "rudimentar", e declarou que o país
precisava reduzir a taxa de juros para "sair do atoleiro". Palocci queixou-se
com o presidente Lula, numa audiência em que deixou implícita a possibilidade
de abandonar o governo. Para apaziguar os ânimos, o presidente conversou
separadamente com os dois. Ao ministro Palocci, pediu que silenciasse sobre a
briga e não exigisse retratação pública de sua desafeta.
À ministra Rousseff, pediu que parasse de divergir da política econômica
em público. O conflito interno, porém, talvez tenha sido a empreitada
mais amena de Palocci. No front externo, entre fileiras da oposição
e depoentes de CPI, o nome de Palocci apareceu sob um cerco ainda mais cerrado.
E, dessa vez, as acusações não se restringem aos seus ex-assessores.
Em depoimento à CPI dos Bingos,
o advogado Rogério Buratti, ex-assessor de Palocci na prefeitura de Ribeirão
Preto, voltou a repetir que foi consultado a pedido de Palocci, segundo
lhe disseram sobre como a campanha de Lula poderia proceder para trazer
ao país 3 milhões de dólares de Cuba. Além disso,
perguntado se Palocci teria sido informado de uma contribuição de
1 milhão de reais feita por bingueiros de São Paulo, Buratti foi
surpreendentemente taxativo: "O ministro sabia, sim", disse. As declarações
de Buratti são graves na medida em que sugerem que Palocci não foi
só o coordenador-geral da campanha eleitoral de Lula em 2002, mas que pode
também ter participado da arrecadação de recursos clandestinos.
Nas contas eleitorais de Lula, não aparece a doação de 1
milhão de reais dos bingueiros. Para piorar, promotores de São Paulo
e a própria CPI colheram o depoimento de uma testemunha secreta segundo
a qual a doação foi feita por dois angolanos bingueiros em São
Paulo e recolhida pelo empresário Roberto Carlos Kurzweil, que entrou no
caso atendendo a um pedido de Palocci.
Na semana passada, VEJA localizou a testemunha secreta e, sob o compromisso de
manter sua identidade sob sigilo, obteve outros detalhes da negociação.
A testemunha diz que os empresários de bingo ofereceram 1 milhão
de reais à campanha em troca da garantia de que, se eleito, o governo do
PT legalizaria os bingos. O acordo ainda segundo a testemunha foi
selado em um jantar na casa do empresário Roberto Kurzweil, em São
Paulo, no qual estavam presentes o próprio Palocci, seu principal assessor,
Ralf Barquete, e dois empresários de bingo. "Eram dois angolanos", diz
a testemunha. Seus nomes: Artur José Valente de Oliveira Caio e José
Paulo Teixeira, conhecido como "Vadinho". Os dois são sócios da
Fábrica Brasileira de Máquinas Automáticas (Fabama), cuja
atividade principal é a produção de máquinas do tipo
videobingo. No jantar em São Paulo, não se falou em dinheiro, apenas
no compromisso do PT caso vencesse a eleição. Quem o externou
conforme a testemunha sigilosa foi Palocci, dizendo que ao país
interessava legalizar as casas de bingos para aumentar a arrecadação
tributária e acabar com o jogo clandestino.
Agliberto
Lima/AE
 | | Palocci,
Lula e Kurzweil (com relógio no pulso), em Ribeirão Preto
|
A testemunha secreta
afirma que a primeira parcela da contribuição, de 500.000 reais,
foi entregue ao empresário Roberto Kurzweil, que a repassou a Ralf Barquete,
que, por fim, a despachou ao tesoureiro oficial, Delúbio Soares. Uma semana
depois, saiu outra parcela, de 500.000 reais, seguindo o mesmo percurso. A testemunha
conta que os detalhes lhe foram narrados por Palocci, numa conversa ocorrida no
restaurante do hotel Paulista Plaza, na Alameda Santos, em São Paulo. A
denúncia de agora não é a estréia da Fabama no mundo
dos caixas eleitorais clandestinos. A empresa já apareceu envolvida em
operações ilegais de financiamento de campanha em 1999. Na época,
a Fabama foi acusada, com outras cinco companhias que atuam no ramo de jogos,
de ter participado de uma caixinha clandestina destinada a custear as despesas
de uma campanha do então ministro do Esporte, Rafael Greca, ao governo
do Paraná, que se realizaria em 2002. Em troca de uma contribuição
que chegaria a 6,5 milhões de reais, o Ministério do Esporte editaria
portaria legalizando o comércio de máquinas caça-níquel.
A portaria, no entanto, nunca foi aprovada.
VEJA procurou os envolvidos no caso, mas a maioria não foi localizada ou
não quis falar. Só Delúbio Soares, o tesoureiro expulso do
PT, negou as acusações. "Nunca recebi dinheiro de Barquete, nem
de Cuba e muito menos de bingueiros", disse ele. O empresário Roberto Kurzweil
não foi localizado. A revista procurou ainda os angolanos Artur de Oliveira
Caio e José Paulo Teixeira. O advogado deles, Paulo Morais, informou que
a Fabama entrou em colapso desde que os bingos foram proibidos de funcionar. Os
sócios deixaram o Brasil. José Paulo Teixeira passou a viver em
Miami. O ministro Palocci também não se manifestou sobre o assunto.
Sua assessoria de imprensa não retornou os telefonemas de VEJA. Na semana
passada, Palocci evitou a imprensa. Até despachou num gabinete instalado
no Palácio do Planalto, em cujo prédio é possível
entrar sem dar entrevista aos jornalistas. No Ministério da Fazenda, onde
não há acesso subterrâneo pela garagem, o ministro Palocci
não tem como evitar o assédio da imprensa.
Nos últimos dias, o ministro Palocci perdeu a proteção que
contava entre a parcela mais responsável da oposição de tucanos
e pefelistas. Eles temiam que ataques ao ministro da Fazenda pudessem levar à
desestabilização da política econômica e, por isso,
esforçavam-se para manter Palocci longe dos holofotes. As coisas mudaram,
porém. "Os últimos acontecimentos tornaram obrigatória a
convocação do ministro Palocci", diz o senador Demostenes Torres,
do PFL de Goiás, que vai apresentar, nesta semana, um requerimento convocando
o ministro para depor na CPI dos Bingos. Era tudo o que Palocci gostaria de evitar,
sabendo que a presença de uma autoridade à mesa de uma CPI representa
sempre, no mínimo, um desgaste de imagem. Na semana passada, para evitar
sua ida a uma comissão parlamentar de inquérito, Palocci comprometeu-se
a comparecer na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), no Senado,
onde, a pretexto de falar sobre a política econômica, daria as explicações
necessárias sobre as denúncias mais recentes. Sua fala na CAE ficou
marcada para terça-feira 22, mas talvez o ministro tenha de explicar-se
antes numa CPI. A impressão
que se tem é que, subitamente, Palocci perdeu o apoio que antes parecia
tão disseminado. Na Câmara dos Deputados, Palocci não tem
mais grandes defensores. Na semana passada, diante dos ataques de Dilma Rousseff,
a bancada do PT não se mexeu para apoiá-lo ou a sua política
econômica. Até José Dirceu, a caminho do cadafalso da cassação,
tem sido mais defendido pelo partido do que Palocci. No Senado, Palocci ainda
conta com um fiel escudeiro, o senador Aloizio Mercadante, que tem críticas
pontuais à política econômica. Mas o presidente do Senado,
Renan Calheiros, por causa de uma questiúncula orçamentária
alagoana, agora anda bombardeando o ministro, que antes sempre adulara. "Palocci
é um bom ministro, mas é um personagem obscuro, com suspeitas fundamentadas
que precisam ser investigadas a fundo. Não dá mais para protegê-lo",
afirma o líder do PSDB, o senador Arthur Virgílio.
José
Cruz/ABR
 | | O
senador Torres (PFL-GO): hora de convocar Palocci |
Aos
45 anos, Antonio Palocci não tem sido apenas um ministro de alta eficiência
no governo de Lula é, ainda hoje, seu grande esteio e uma garantia
contra os assaltos constantes do populismo econômico, exatamente como os
que apareceram na semana passada na boca da ministra Dilma Rousseff. Ocorre que,
dentro e fora do governo, começa a disseminar-se a sensação
de que o grande lastro da atual política econômica, eficiente e responsável,
vem a ser o próprio presidente da República. Na semana passada,
VEJA quis saber se uma eventual saída de Palocci do governo poderia provocar
uma crise na economia. Dos seis economistas ouvidos pela revista, cinco disseram
que esse risco não existe. "Hoje, no Brasil, as instituições
são maiores que os nomes", diz Hugo Penteado, economista-chefe do ABN Amro
Asset Management. Um dos poucos a discordar dessa tese é Carlos Langoni,
ex-presidente do Banco Central e diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação
Getulio Vargas. Diz ele: "A figura do ministro Palocci ainda é essencial
para o bom andamento da economia. É quem dá sustentação
para temas como ajuste fiscal e a própria política econômica".
Com reportagem de Otávio
Cabral, de Brasília
O mensalinho vinha das ruas Dida
Sampaio/AE
 | Clique
para ampliar | | Buratti
e o depoimento do engenheiro: coação dos funcionários para falsificar documentos
que superfaturavam a prestação de serviços |
Cerca de três meses depois de Rogério Buratti
ter denunciado à polícia e à CPI dos Bingos a existência
de um esquema de propinas na prefeitura de Ribeirão Preto durante a gestão
de Antonio Palocci, começam a surgir as provas. Na ocasião, Buratti
afirmara que a empresa Leão&Leão, da qual foi dirigente, pagava
uma taxa mensal à prefeitura de Ribeirão. Na semana passada, VEJA
teve acesso a dois depoimentos considerados altamente comprometedores pelos promotores
do caso. Eles comprovariam o mensalinho de 50 000 reais. Os depoimentos foram
prestados à Polícia Civil do Estado de São Paulo e aos promotores
do Ministério Público Estadual em Ribeirão Preto. O esquema
teria durado quase quatro anos. Envolve o Departamento de Água e Esgotos
(Daerp) e a Leão&Leão. Dois funcionários do órgão
afirmaram que eram forçados a falsificar notas fiscais e efetuar pagamentos
superfaturados pelo serviço de varrição das ruas da cidade.
Ambos acusaram a ex-superintendente do Daerp Isabel Bordini de autorizar os pagamentos
fraudulentos e de ter ignorado os avisos de que os pagamentos não correspondiam
ao serviço prestado. Isabel é mulher de Donizeti Rosa, braço-direito
de Palocci e hoje na direção do Serpro, em Brasília. "Buratti
falava a verdade", disse a VEJA o promotor Aroldo Costa Filho na quinta-feira
passada. Nos próximos dias, os promotores devem convocar Isabel Bordini
para depor. Os depoimentos foram dados
no dia 28 de setembro por dois funcionários do Daerp um engenheiro
e uma secretária. O engenheiro M.J. contou que era "forçado e coagido"
a assinar ordens de serviço falsas para a Leão&Leão por
determinação de Isabel Bordini. Uma das mais notórias fraudes
ocorria em um bosque, que tem 4,5 quilômetros de extensão e era varrido
por três funcionários da Leão&Leão. No entanto,
a documentação atesta que eram cobrados valores referentes à
varrição de 45 quilômetros. Uma distância impossível
de ser cumprida. "Nós éramos forçados a assinar. Havia uma
coação da diretoria", afirmou M. à polícia. Ele diz
ter denunciado o caso sem sucesso pelo menos quatro vezes. Em 2004,
pediu demissão. O depoimento da secretária M.F. é ainda mais
contundente. Ela afirma que o superfaturamento nos valores era justificado por
uma guia extra de "varrição volante", um serviço que dispensa
apresentação de distâncias varridas. "Eu formalizava os registros
falsos, mas era obrigada a agir assim. Meu marido estava desempregado", afirmou.
Segundo ela, as irregularidades ocorreram entre 2001 e dezembro de 2004. "Em 2005,
o trabalho passou a ser feito corretamente", disse. De acordo com a planilha de
pagamentos do Daerp para a Leão&Leão, entre 2001 e 2004 os valores
dispararam. Em 2001, a empresa recebeu 15,3 milhões de reais. Em 2004,
o valor saltou para 26,5 milhões de reais. O pagamento quase dobrou, mas
o serviço executado foi o mesmo. Suspeitíssimo.
Daniela Pinheiro | |
|