Edição 1931 . 16 de novembro de 2005

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Entrevista: Tasso Jereissati
"Fomos incompetentes"

O futuro presidente do PSDB diz
que "despreparo" dos tucanos fez
com que denúncias graves contra
o governo passassem em branco


Thaís Oyama

 

Ana Araujo

"A história dos dólares na cueca, por exemplo: nós nunca chamamos aquele rapaz para depor"

O PT, que há seis meses arde nas chamas da crise, encontrou um de seus mais eficientes bombeiros num lugar inusitado: o PSDB. Ele é o senador e ex-governador do Ceará Tasso Jereissati, futuro presidente do partido. Tasso admite que os tucanos – em parte por convicção, em parte por incompetência – agiram com timidez diante das denúncias que assolaram o governo Lula. Nesta entrevista a VEJA, o senador descarta a hipótese do impeachment do presidente da República, ao menos por ora, fala sobre as conseqüências de uma eventual queda do ministro Antonio Palocci, exime-se de responsabilidade sobre as atividades de seu irmão, o empresário Carlos Jereissati (acusado de ter relações para lá de íntimas com a tesouraria petista), e deixa claro, nas entrelinhas, para que lado pende seu coração quando o assunto é a polarização entre os dois "candidatáveis" do PSDB às eleições de 2006, José Serra e Geraldo Alckmin.

Veja – Existe no país uma avaliação quase consensual de que a oposição vem tendo um comportamento tímido, hesitante e, em alguns momentos, omisso diante da crise. O senhor concorda com isso?
Jereissati – Omisso, eu não diria. Mas tímido, sim.  

Veja – E a que se deveria esse comportamento? No caso do PSDB, fala-se em três hipóteses: incompetência, comprometimento do partido com o esquema do valerioduto e interesses eleitorais – os tucanos estariam empenhados em "sangrar" o presidente Lula aos poucos para que ele chegue enfraquecido às eleições de 2006.
Jereissati – Eu descarto apenas a hipótese do comprometimento do partido, mas aceito a da incompetência. E começo por mim mesmo: eu não sei fazer dossiê de ninguém, diferentemente do PT. Mas, do ponto de vista programático, acho que fizemos uma oposição de boa qualidade. Na discussão das PPPs e da reforma tributária, por exemplo, impedimos que muita coisa equivocada fosse feita neste país. Aceito a crítica de que não existe, até hoje, uma única denúncia feita por nós da oposição. Todas elas foram descobertas pela imprensa. Nós ficamos inteiramente a reboque das revistas e dos jornais. Nesse sentido, poderíamos ter sido mais efetivos.

Veja – E por que não conseguiram ser?
Jereissati – Acho que não estávamos preparados. Não tínhamos articulação para enfrentar uma crise dessas proporções e digerir todos os dados na velocidade com que a imprensa os foi revelando. Talvez, por isso, muitos problemas graves tenham passado em branco. A história dos dólares na cueca, por exemplo. Nunca chamamos aquele rapaz para depor. Outra conseqüência do nosso despreparo foi dar ao governo a possibilidade de ele tentar montar, como tentou, essa grande farsa de que tudo se resumiu a um problema de caixa dois e hoje estar em plena campanha, como se nada tivesse acontecido.

Veja – E sobre a hipótese de deixar "sangrar" o presidente como tática eleitoral?
Jereissati – Não foi uma estratégia eleitoral. O que ocorre é que não compartilhamos da idéia de quanto pior melhor. Não achamos adequado dividir o país em uma luta em que a nação seria esgarçada ao limite. Não levaríamos a crise a um ponto em que não haveria possibilidade de manutenção do governo.

Veja – O senhor se refere ao impeachment do presidente?
Jereissati – Sim, porque o fato é que existem forças que apóiam o presidente Lula. Essas forças iriam resistir à idéia e nós teríamos uma espécie de Venezuela do Chávez.

Veja – O senhor está dizendo, então, que a tibieza do PSDB na crise se deve unicamente a um senso de responsabilidade que não inclui nenhum cálculo eleitoral?
Jereissati – Eu vou falar com toda a franqueza para que não se tenha esse entendimento de que houve omissão da nossa parte – ou acordão ou acordinho. Nós vamos levar às últimas conseqüências os erros cometidos por esse governo. As CPIs estão começando a chegar a conclusões. E essas conclusões têm se mostrado muito contundentes. Houve roubo no Banco do Brasil, por exemplo – isso agora se sabe. Outras conclusões tão graves como essa se aproximam. E, a partir daí, os instrumentos jurídicos darão seqüência ao trabalho das CPIs. Mas, do ponto de vista político, é preciso que haja um amadurecimento político para discutir a questão do impeachment, independentemente da questão jurídica.

Veja – Traduzindo?
Jereissati – Traduzindo, significa que é preciso que a população brasileira esteja, em sua grande maioria, querendo o impeachment. Nós não podemos querer o impeachment do presidente sem que a grande maioria da população esteja convencida, como esteve no caso Collor, de que está na hora de o presidente da República, eleito por ela, ser impedido.  

Veja – Isso está longe de acontecer, na sua opinião?
Jereissati – Não está claro que exista esse clima no Brasil. E tomar essa iniciativa sem que haja esse clima é uma irresponsabilidade.

Veja – Faltou falar sobre a hipótese de que o PSDB teria evitado uma postura mais agressiva diante da crise por causa do envolvimento do seu ex-presidente Eduardo Azeredo com o valerioduto.
Jereissati – Eu não concordo porque esse, sim, é um problema de caixa dois. Que é sério e precisa ser investigado, mas que não é um problema com a dimensão daquele que atingiu o PT. O problema do PT é de corrupção e de desvio de dinheiro público – o maior já feito no Brasil de forma sistemática. E que funcionava a partir da mais alta cúpula do governo: a Casa Civil. É diferente de caixa dois.

Veja – Que não deixa de ser um crime, como o senhor mesmo afirma. Ainda assim, o senhor foi um dos maiores defensores da permanência de Azeredo no comando do partido.
Jereissati – Eu não defendi a permanência dele. Apenas coloquei que o Eduardo Azeredo deveria decidir de acordo com sua consciência. Depois, nesse caso, o crime – eleitoral, é bom frisar – ocorreu quando ele foi candidato ao governo de Minas, antes de assumir a presidência do partido. Não houve, portanto, um comprometimento do PSDB nacional.  

Veja – O seu irmão vem sendo acusado de ter relações mais próximas do que o desejável com o governo. Como o senhor vê isso?
Jereissati – Tenho dois irmãos e eles são maiores de idade.  

Veja – Eu me refiro ao seu irmão Carlos Jereissati.
Jereissati – Acho que ele mesmo tem condições de responder às acusações e assumir a responsabilidade sobre o que fez ou deixou de fazer.  

Veja – Mas o senhor considera as acusações injustas?
Jereissati – Eu não conheço as atividades dele. Em relação à campanha (presidencial), por exemplo, não sei quem ajudou ou deixou de ajudar. Tenho com meu irmão uma relação pessoal, cordial. Mas ele tem as suas idéias, as suas atividades, e eu não tenho nada a ver com isso.  

Veja – O caso Telemar (concessionária do governo que injetou 5 milhões de reais numa empresa de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula) nunca foi investigado pelas CPIs. O fato de seu irmão ser um dos controladores da empresa teria algo a ver com isso?
Jereissati – Eu não tenho esse controle todo sobre as CPIs. Mas sempre defendi, a não ser que haja um favorecimento muito evidente, que é preciso resguardar a intimidade familiar.

Veja – O senhor não acha que, no caso da Telemar, houve um evidente favorecimento a Lulinha?
Jereissati – Acho que não é tão claro. Se vier a ficar claro, penso que é inevitável uma investigação.

Veja – Como poderia ficar mais claro? Trata-se de uma concessionária do governo, que tem parte de seu capital formado por dinheiro público, e que injetou essa quantidade de reais na empresa do filho do presidente.
Jereissati – Acho que poderia ficar mais claro se, por exemplo, uma auditoria provasse que o valor é muito acima do razoável, que o investimento não vale a pena...

Veja – Mas, se a CPI não está investigando...
Jereissati – Não sou eu que estou impedindo que a CPI investigue. Eu não tenho de me defender disso. Aliás, sou membro apenas da CPI dos Bingos.  

Veja – O que o senhor achou da entrevista do presidente Lula ao programa Roda Viva?
Jereissati – Eu esperava que ele falasse com franqueza à nação. E o que percebi foi uma fala treinada – treinada por um advogado competente. A preocupação do presidente foi apenas evitar incriminar a Presidência da República. Em nenhum momento ele foi franco – o que inclui a afirmação de que não sabe se vai se candidatar. Lula já está claramente em campanha. Não faz outra coisa e não pensa em outra coisa.  

Veja – Quais serão as próximas etapas da crise, na sua opinião?
Jereissati – Ela tende a se aprofundar, diante das conclusões a que as CPIs estão chegando. Tudo indica que teremos revelações graves e contundentes nos próximos dias. Até agora, no entanto, ao menos um aspecto positivo resultou dela. O estouro da crise mostrou que a cultura bolchevique e totalitária do PT estava arraigada no governo e que alguns de seus integrantes de fato acreditam e praticam a idéia de que os fins justificam os meios, de que é preciso destruir o inimigo a qualquer custo e aparelhar o Estado. As digitais desse totalitarismo estão presentes em muitas das ações do governo. Se a crise não tivesse estourado, do ponto de vista da eficiência, o Estado estaria destruído e, do ponto de vista do aparelhamento, estaria completamente tomado.

Veja – O senhor sempre defendeu a política econômica do ministro Antonio Palocci, que hoje está no centro da crise, sofre o bombardeio da ministra Dilma Rousseff e ameaça sair. Qual seria o impacto de sua eventual queda?
Jereissati – Para o governo, seria o fim. O governo Lula só resiste por causa da economia. Basta olhar o discurso do Lula e dos outros ministros – tudo o que eles argumentam está baseado na economia. E o fiador da economia hoje não é o Lula, é o Palocci. Sua saída significaria a queda do único pilar que está sustentando o governo.  

Veja – O secretário executivo da Fazenda, Murilo Portugal, é sempre lembrado como um nome que poderia substituir o ministro Palocci sem grandes traumas para a economia.
Jereissati – O Murilo Portugal, numa briga com a Dilma, não sobreviveria cinco minutos. Ele não tem a intimidade nem a confiança do Lula, muito menos a do PT. Não conseguiria nunca impor esse tipo de política. E eu acho que o Lula nem gosta dele.  

Veja – O senhor tem proximidade com o governador Aécio Neves, que está, ao que tudo indica, fora do páreo na disputa interna do PSDB pela candidatura à Presidência, polarizada por Geraldo Alckmin e José Serra. Acha que ele absorveu essa situação?
Jereissati – Estou mais próximo do Aécio do que nunca. O que ocorre é que o Aécio tem sinalizado que está mais concentrado em outro projeto político; não parece interessado na Presidência da República agora. Mas, no momento em que sinalizar que é candidatável, evidentemente que ele se coloca no páreo novamente.

Veja – A sua candidatura está descartada?
Jereissati – Totalmente descartada.  

Veja – A campanha de 2006 promete ser uma das mais belicosas dos últimos tempos. Nesse contexto, o candidato do PSDB deveria ter quais características, na sua opinião? Ser mais aguerrido, assertivo, agressivo ou justamente o contrário?
Jereissati – Justamente o contrário. O que o país espera é alguém que tenha condições de conciliar a sociedade e apresentar um projeto para o país. Então, o que se exige não é um candidato aguerrido ou carismático. Dessa coisa de carisma já estamos cansados.

Veja – O senhor diz que não é supersticioso, mas afirma não assinar documentos no dia 13, não gostar de ficar perto de pessoas vestidas de marrom e ter uma relação especial com Juazeiro do Norte, que acredita lhe dar sorte.
Jereissati – É verdade.  

Veja – Em 1994, o senhor levou a Juazeiro Fernando Henrique Cardoso, então candidato do PSDB à Presidência da República. Neste ano, o senhor levou o governador Geraldo Alckmin. Por que não levou o prefeito José Serra?
Jereissati – Ah, mas eu também vou levar o Serra. Vou levar assim que ele quiser. Quem sabe no ano que vem. E vou levar o Aécio.

 
 
 
 
topovoltar