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Entrevista:
Tasso Jereissati "Fomos
incompetentes" O futuro presidente do
PSDB diz que "despreparo" dos tucanos fez com que denúncias graves
contra o governo passassem em branco  Thaís
Oyama
Ana Araujo
 | "A
história dos dólares na cueca, por exemplo: nós nunca chamamos aquele rapaz para
depor" | |
O PT, que há seis meses arde nas chamas da crise, encontrou um de seus
mais eficientes bombeiros num lugar inusitado: o PSDB. Ele é o senador
e ex-governador do Ceará Tasso Jereissati, futuro presidente do partido.
Tasso admite que os tucanos em parte por convicção, em parte
por incompetência agiram com timidez diante das denúncias
que assolaram o governo Lula. Nesta entrevista a VEJA, o senador descarta a hipótese
do impeachment do presidente da República, ao menos por ora, fala sobre
as conseqüências de uma eventual queda do ministro Antonio Palocci,
exime-se de responsabilidade sobre as atividades de seu irmão, o empresário
Carlos Jereissati (acusado de ter relações para lá de
íntimas com a tesouraria petista), e deixa claro, nas entrelinhas,
para que lado pende seu coração quando o assunto é a polarização
entre os dois "candidatáveis" do PSDB às eleições
de 2006, José Serra e Geraldo Alckmin. Veja
Existe no país uma avaliação quase consensual
de que a oposição vem tendo um comportamento tímido, hesitante
e, em alguns momentos, omisso diante da crise. O senhor concorda com isso? Jereissati
Omisso, eu não diria. Mas tímido, sim.
Veja E a que se deveria esse comportamento?
No caso do PSDB, fala-se em três hipóteses: incompetência,
comprometimento do partido com o esquema do valerioduto e interesses eleitorais
os tucanos estariam empenhados em "sangrar" o presidente Lula aos poucos
para que ele chegue enfraquecido às eleições de 2006.
Jereissati Eu descarto apenas a hipótese do comprometimento
do partido, mas aceito a da incompetência. E começo por mim mesmo:
eu não sei fazer dossiê de ninguém, diferentemente do PT.
Mas, do ponto de vista programático, acho que fizemos uma oposição
de boa qualidade. Na discussão das PPPs e da reforma tributária,
por exemplo, impedimos que muita coisa equivocada fosse feita neste país.
Aceito a crítica de que não existe, até hoje, uma única
denúncia feita por nós da oposição. Todas elas foram
descobertas pela imprensa. Nós ficamos inteiramente a reboque das revistas
e dos jornais. Nesse sentido, poderíamos ter sido mais efetivos.
Veja E por que não conseguiram ser? Jereissati
Acho que não estávamos preparados. Não tínhamos
articulação para enfrentar uma crise dessas proporções
e digerir todos os dados na velocidade com que a imprensa os foi revelando. Talvez,
por isso, muitos problemas graves tenham passado em branco. A história
dos dólares na cueca, por exemplo. Nunca chamamos aquele rapaz para depor.
Outra conseqüência do nosso despreparo foi dar ao governo a possibilidade
de ele tentar montar, como tentou, essa grande farsa de que tudo se resumiu a
um problema de caixa dois e hoje estar em plena campanha, como se nada tivesse
acontecido. Veja E
sobre a hipótese de deixar "sangrar" o presidente como tática eleitoral? Jereissati
Não foi uma estratégia eleitoral. O que ocorre é
que não compartilhamos da idéia de quanto pior melhor. Não
achamos adequado dividir o país em uma luta em que a nação
seria esgarçada ao limite. Não levaríamos a crise a um ponto
em que não haveria possibilidade de manutenção do governo.
Veja O senhor se
refere ao impeachment do presidente? Jereissati Sim, porque
o fato é que existem forças que apóiam o presidente Lula.
Essas forças iriam resistir à idéia e nós teríamos
uma espécie de Venezuela do Chávez. Veja
O senhor está dizendo, então, que a tibieza do PSDB
na crise se deve unicamente a um senso de responsabilidade que não inclui
nenhum cálculo eleitoral? Jereissati Eu vou falar
com toda a franqueza para que não se tenha esse entendimento de que houve
omissão da nossa parte ou acordão ou acordinho. Nós
vamos levar às últimas conseqüências os erros cometidos
por esse governo. As CPIs estão começando a chegar a conclusões.
E essas conclusões têm se mostrado muito contundentes. Houve roubo
no Banco do Brasil, por exemplo isso agora se sabe. Outras conclusões
tão graves como essa se aproximam. E, a partir daí, os instrumentos
jurídicos darão seqüência ao trabalho das CPIs. Mas,
do ponto de vista político, é preciso que haja um amadurecimento
político para discutir a questão do impeachment, independentemente
da questão jurídica. Veja
Traduzindo? Jereissati Traduzindo, significa
que é preciso que a população brasileira esteja, em sua grande
maioria, querendo o impeachment. Nós não podemos querer o impeachment
do presidente sem que a grande maioria da população esteja convencida,
como esteve no caso Collor, de que está na hora de o presidente da República,
eleito por ela, ser impedido. Veja
Isso está longe de acontecer, na sua opinião? Jereissati
Não está claro que exista esse clima no Brasil. E tomar
essa iniciativa sem que haja esse clima é uma irresponsabilidade.
Veja Faltou falar sobre a hipótese
de que o PSDB teria evitado uma postura mais agressiva diante da crise por causa
do envolvimento do seu ex-presidente Eduardo Azeredo com o valerioduto. Jereissati
Eu não concordo porque esse, sim, é um problema de caixa
dois. Que é sério e precisa ser investigado, mas que não
é um problema com a dimensão daquele que atingiu o PT. O problema
do PT é de corrupção e de desvio de dinheiro público
o maior já feito no Brasil de forma sistemática. E que funcionava
a partir da mais alta cúpula do governo: a Casa Civil. É diferente
de caixa dois. Veja
Que não deixa de ser um crime, como o senhor mesmo afirma. Ainda assim,
o senhor foi um dos maiores defensores da permanência de Azeredo no comando
do partido. Jereissati Eu não defendi a permanência
dele. Apenas coloquei que o Eduardo Azeredo deveria decidir de acordo com sua
consciência. Depois, nesse caso, o crime eleitoral, é bom
frisar ocorreu quando ele foi candidato ao governo de Minas, antes de assumir
a presidência do partido. Não houve, portanto, um comprometimento
do PSDB nacional. Veja
O seu irmão vem sendo acusado de ter relações mais próximas
do que o desejável com o governo. Como o senhor vê isso? Jereissati
Tenho dois irmãos e eles são maiores de idade.
Veja Eu me refiro
ao seu irmão Carlos Jereissati. Jereissati Acho que
ele mesmo tem condições de responder às acusações
e assumir a responsabilidade sobre o que fez ou deixou de fazer.
Veja Mas o senhor considera as acusações
injustas? Jereissati Eu não conheço as atividades
dele. Em relação à campanha (presidencial), por exemplo,
não sei quem ajudou ou deixou de ajudar. Tenho com meu irmão uma
relação pessoal, cordial. Mas ele tem as suas idéias, as
suas atividades, e eu não tenho nada a ver com isso.
Veja O caso Telemar (concessionária
do governo que injetou 5 milhões de reais numa empresa de Fábio
Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula) nunca foi investigado
pelas CPIs. O fato de seu irmão ser um dos controladores da empresa teria
algo a ver com isso? Jereissati Eu não tenho esse
controle todo sobre as CPIs. Mas sempre defendi, a não ser que haja um
favorecimento muito evidente, que é preciso resguardar a intimidade familiar.
Veja O senhor não
acha que, no caso da Telemar, houve um evidente favorecimento a Lulinha? Jereissati
Acho que não é tão claro. Se vier a ficar claro,
penso que é inevitável uma investigação.
Veja Como poderia ficar mais claro? Trata-se
de uma concessionária do governo, que tem parte de seu capital formado
por dinheiro público, e que injetou essa quantidade de reais na empresa
do filho do presidente. Jereissati Acho que poderia ficar
mais claro se, por exemplo, uma auditoria provasse que o valor é muito
acima do razoável, que o investimento não vale a pena...
Veja Mas, se a CPI não está
investigando... Jereissati Não sou eu que estou impedindo
que a CPI investigue. Eu não tenho de me defender disso. Aliás,
sou membro apenas da CPI dos Bingos. Veja
O que o senhor achou da entrevista do presidente Lula ao programa
Roda Viva? Jereissati Eu esperava que ele falasse com franqueza
à nação. E o que percebi foi uma fala treinada treinada
por um advogado competente. A preocupação do presidente foi apenas
evitar incriminar a Presidência da República. Em nenhum momento ele
foi franco o que inclui a afirmação de que não sabe
se vai se candidatar. Lula já está claramente em campanha. Não
faz outra coisa e não pensa em outra coisa.
Veja Quais serão as próximas
etapas da crise, na sua opinião? Jereissati Ela tende
a se aprofundar, diante das conclusões a que as CPIs estão chegando.
Tudo indica que teremos revelações graves e contundentes nos próximos
dias. Até agora, no entanto, ao menos um aspecto positivo resultou dela.
O estouro da crise mostrou que a cultura bolchevique e totalitária do PT
estava arraigada no governo e que alguns de seus integrantes de fato acreditam
e praticam a idéia de que os fins justificam os meios, de que é
preciso destruir o inimigo a qualquer custo e aparelhar o Estado. As digitais
desse totalitarismo estão presentes em muitas das ações do
governo. Se a crise não tivesse estourado, do ponto de vista da eficiência,
o Estado estaria destruído e, do ponto de vista do aparelhamento, estaria
completamente tomado. Veja
O senhor sempre defendeu a política econômica do ministro Antonio
Palocci, que hoje está no centro da crise, sofre o bombardeio da ministra
Dilma Rousseff e ameaça sair. Qual seria o impacto de sua eventual queda? Jereissati
Para o governo, seria o fim. O governo Lula só resiste por causa
da economia. Basta olhar o discurso do Lula e dos outros ministros tudo
o que eles argumentam está baseado na economia. E o fiador da economia
hoje não é o Lula, é o Palocci. Sua saída significaria
a queda do único pilar que está sustentando o governo.
Veja O secretário executivo da Fazenda,
Murilo Portugal, é sempre lembrado como um nome que poderia substituir
o ministro Palocci sem grandes traumas para a economia. Jereissati
O Murilo Portugal, numa briga com a Dilma, não sobreviveria cinco minutos.
Ele não tem a intimidade nem a confiança do Lula, muito menos a
do PT. Não conseguiria nunca impor esse tipo de política. E eu acho
que o Lula nem gosta dele. Veja
O senhor tem proximidade com o governador Aécio Neves, que
está, ao que tudo indica, fora do páreo na disputa interna do PSDB
pela candidatura à Presidência, polarizada por Geraldo Alckmin e
José Serra. Acha que ele absorveu essa situação? Jereissati
Estou mais próximo do Aécio do que nunca. O que ocorre
é que o Aécio tem sinalizado que está mais concentrado em
outro projeto político; não parece interessado na Presidência
da República agora. Mas, no momento em que sinalizar que é candidatável,
evidentemente que ele se coloca no páreo novamente.
Veja A sua candidatura está descartada? Jereissati
Totalmente descartada. Veja
A campanha de 2006 promete ser uma das mais belicosas dos últimos
tempos. Nesse contexto, o candidato do PSDB deveria ter quais características,
na sua opinião? Ser mais aguerrido, assertivo, agressivo ou justamente
o contrário? Jereissati Justamente o contrário.
O que o país espera é alguém que tenha condições
de conciliar a sociedade e apresentar um projeto para o país. Então,
o que se exige não é um candidato aguerrido ou carismático.
Dessa coisa de carisma já estamos cansados. Veja
O senhor diz que não é supersticioso, mas afirma não
assinar documentos no dia 13, não gostar de ficar perto de pessoas vestidas
de marrom e ter uma relação especial com Juazeiro do Norte, que
acredita lhe dar sorte. Jereissati É verdade.
Veja Em 1994, o senhor
levou a Juazeiro Fernando Henrique Cardoso, então candidato do PSDB à
Presidência da República. Neste ano, o senhor levou o governador
Geraldo Alckmin. Por que não levou o prefeito José Serra? Jereissati
Ah, mas eu também vou levar o Serra. Vou levar assim que ele
quiser. Quem sabe no ano que vem. E vou levar o Aécio. |