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Os
traços de um craque
O
caricaturista Cássio Loredano
lança
uma coletânea com cerca de 300
desenhos que homenageiam grandes
nomes da literatura brasileira e universal
Lucila Soares
Ilustrações Cassio Loredano
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Vinicius
de Moraes
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Nelson
Rodrigues
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Monteiro
Lobato
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Carlos
Drummond de Andrade
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O
Brasil produziu, no último século e meio, um time notável
de caricaturistas. Nesse time, o carioca Cássio Loredano, de 54
anos, tem vaga de titular. Ele é um dos mais conceituados desenhistas
brasileiros da atualidade, e um dos poucos de carreira internacional,
com trabalhos publicados em veículos como o jornal francês
Libération e o italiano La Repubblica. A peculiaridade
de sua trajetória é que ele nunca se voltou para a charge,
ou seja, para a crônica social e política feita por meio
do desenho. Loredano é, antes de mais nada, um retratista. Dispensando
diálogos e legendas, bem como a criação de "historinhas",
ele reinventa e às vezes desconstrói impiedosamente
a imagem de figuras célebres. Em três décadas
de atuação, ele se especializou em retratos de políticos
e de personalidades do mundo cultural. Essa última vertente de
sua obra vem representada em Alfabeto Literário (Editora
Capivara; 250 páginas; 59 reais), compilação de cerca
de 300 caricaturas de escritores.
Com
lançamento previsto para o dia 21, Alfabeto Literário
reúne trabalhos feitos por Loredano para os suplementos culturais
de O Estado de S. Paulo e do jornal espanhol El País
nos últimos vinte anos. O resultado é um passeio pela literatura
universal, que vai de Shakespeare a Machado de Assis, de Luís de
Camões a Franz Kafka, de Virgílio a Gabriel García
Márquez. Há espaço também para pensadores
como Sigmund Freud e Karl Marx. Alguns desenhos são de identificação
imediata, pela fidelidade às representações mais
conhecidas do retratado, como o Monteiro Lobato e o Vinicius de Moraes
que ilustram esta reportagem. Outros contêm referências mais
sutis. É o caso do Carlos Drummond de Andrade que aparece curvado
sob o peso de uma interrogação uma referência
ao poema clássico E Agora, José?. Ou então
do Manuel Bandeira que aparece de mala em punho o que faz lembrar
os versos de Vou-me Embora pra Pasárgada. O corpo de Franz
Kafka lembra o de um inseto gigantesco, como se o escritor checo passasse
pela transformação do personagem Gregor Samsa em A Metamorfose.
E, numa homenagem ao modernismo, o poeta Mário de Andrade é
retratado na mesma pose do Abaporu de Tarsila do Amaral.
Oscar Cabral
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| Loredano:
ácido com os políticos, ele faz "desenhos de fă" dos escritores
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Quem conhece as caricaturas políticas de Loredano sabe que, quando
sua intenção é crítica, ele é capaz
de distorcer uma figura até as raias do grotesco. Nesse domínio,
ele é um craque comparável a poucos. São inesquecíveis,
por exemplo, muitos desenhos produzidos para os semanários Opinião
e Pasquim e para o Jornal do Brasil durante a ditadura militar,
assim como aqueles feitos na Europa para atacar líderes da extrema
direita ou o fundamentalista islâmico aiatolá Khomeini, do
Irã. Nesses trabalhos que comporiam, aliás, outro
belo livro , Loredano se mantém próximo do significado
original da palavra caricatura: ela vem do italiano carica, que
significa carga, ou "ataque impetuoso". Já o que se vê nas
suas caricaturas literárias é diferente. Elas são
homenagens, ou "desenhos de fã", como diz o próprio autor,
um rato de biblioteca. O que elas têm de especial é o fato
de que não somente sintetizam os principais traços físicos
de um escritor: elas freqüentemente trazem à lembrança
seus trabalhos mais importantes e, nos melhores casos, são verdadeiras
traduções do espírito de sua obra.
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