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O
terceiro russo
Menos lembrado que Tolstoi
e
Dostoievski, Ivan Turguêniev
foi
tão grande quanto eles
Marilia
Pacheco Fiorillo

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Imagine
disputar uma eleição com ninguém menos que o inglês
Winston Churchill e o francês Charles de Gaulle, dois dos maiores
políticos do século passado. Algo semelhante aconteceu com
o escritor Ivan Turguêniev, mas na arena literária: ele foi
contemporâneo, conterrâneo e desafeto cordial dos dois maiores
nomes da literatura russa do século XIX, Leon Tolstoi (autor de
Guerra e Paz) e Fiodor Dostoievski (autor de Crime e Castigo).
A fama de ambos acabou por obscurecer a sua. Muito injustamente, contudo.
O aristocrata Turguêniev, nascido em 1818, foi o mais cosmopolita
dos três. Foi o mais permeável a influências estéticas
européias (passou boa parte de sua vida adulta na Alemanha e na
França). E foi o menos ocupado com dilemas nacionais como a defesa
do eslavismo (ou seja, de uma tradição puramente russa)
ou a servidão, cuja abolição, no entanto, defendia.
Enquanto as obras de Tolstoi e Dostoievski soam como sinfonias majestosas
místicas, nacionalistas, redencionistas , a de Turguêniev
é como um quarteto de cordas, lacônica e delicada.
É
essa qualidade de música de câmara que encontramos em Ássia
(tradução de Fátima Bianchi; Cosac &
Naify; 119 páginas; 15 reais), não a maior de suas obras,
mas bastante exemplar. Publicada em 1858, é uma novela quase sem
enredo. Ássia, diminutivo de Anna, passa uma temporada com o irmão
Gáguin na cidadezinha de L., onde conhece o narrador, que por ela
pensa se apaixonar, quase se declara, mas deixa passar a oportunidade.
Anos depois, "condenado à solidão de um solteirão
sem família, tendo vivido anos enfadonhos", ele se recorda do episódio,
sem tristeza e sem remorso.
O narrador é a quintessência de uma figura presente em toda
a literatura de Turguêniev, a do niilista ou "homem inútil",
sujeito marcado pela inapetência, lassidão e inércia
diante da vida. Seus niilistas são pequenos Hamlets desprovidos
de tragédia, hesitantes e pusilânimes. Neles o autor retratava
a indiferença de sua própria geração às
injustiças da Rússia czarista tipos sob medida para
seu estilo de narrar distante, desapaixonado e levemente irônico.
Se o narrador é um fraco, cabe a Ássia toda a energia, ação
e decisão descritas na novela. Apesar de muito jovem e atrapalhada,
ela é a única com vontade e caráter, contrastando
com a letargia dos personagens masculinos. É assim com a maioria
das heroínas de Turguêniev a virtude é delas,
não deles. Se quisermos homens de qualidade, melhor buscá-los
na correspondência entre Turguêniev e o amigo e escritor francês
Gustave Flaubert. Nela se revelam duas figuras excepcionais, em prosa
excepcional.
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Pães
doces e dourados
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"Eu
tinha na época uns vinte e cinco anos começou
N. N. , como o senhor vê, são coisas de um
tempo que já vai longe. Acabara de ganhar minha liberdade,
parti para o estrangeiro, e não para 'concluir minha
educação', como se dizia, mas simplesmente por
vontade de ver esse mundo de Deus. Era jovem, saudável,
alegre, dinheiro não me faltava, as preocupações
ainda não haviam conseguido me agarrar vivia ao
Deus dará, fazia o que bem queria, em suma, florescia.
Nem me passava pela cabeça, então, que o homem
não é uma planta e não floresce todo ano.
A juventude come pães doces e dourados, pensando que
é esse o pão de cada dia; no entanto, chega a
hora em que se faz qualquer coisa até mesmo por um pãozinho
comum. Mas isso não vem ao caso."
Trecho de Ássia
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