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Edição 1 773 - 16 de outubro de 2002
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O dólar desafia o Banco Central

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Será que agora cai?

O Banco Central inverte a tática e, em
vez de vender dólares, vai diminuir o
estoque de reais do mercado financeiro


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Na manhã de sexta-feira passada, o presidente Fernando Henrique dizia em São Paulo que o governo ainda tinha bala na agulha para gastar na guerra que trava no mercado de câmbio. À tarde, o Banco Central puxou o gatilho. O BC baixou um pacote de medidas cujo efeito imediato sobre o preço do dólar foi sentido pelo mercado. Depois de bater na cotação de 4 reais na tarde de quinta-feira, o dólar caiu 4,26% e fechou a semana valendo 3,82 reais. Depois de semanas tentando não deixar a cotação da moeda americana disparar aumentando a oferta de dólares, o BC mudou de tática. Os técnicos do banco decidiram enxugar o estoque de reais de modo que sobrem menos recursos para que as instituições financeiras comprem moeda americana. Para fazer isso, o BC aumentou as alíquotas dos depósitos compulsórios que os bancos são obrigados a deixar sob a guarda do governo. A medida só entra em vigor a partir do próximo dia 21 e deve retirar do mercado cerca de 14,2 bilhões de reais. O Banco Central também limitou a quantidade de dólares que os bancos podem ter, forçando-os a vender parte de suas reservas em divisas. Até a semana passada, cada banco poderia ter em dólares até 60% de seu patrimônio líquido. Agora, esse limite foi reduzido para 30%.


Reuters
Armínio Fraga: sem viés político


"Nunca houve um viés político na atuação do Banco Central. Não admito insinuação a esse respeito. No exterior, quando afirmo que o Brasil tem rumo, dizem que estou a favor da oposição", declarou o presidente do BC, Armínio Fraga, dois dias antes do anúncio das medidas, ao responder a perguntas de jornalistas sobre insinuações do PT de que ele não estaria usando todo o arsenal a sua disposição para barrar a subida do dólar. O objetivo seria criar um clima de pânico que prejudicasse Lula, o candidato presidencial do PT. Por enquanto, as novas medidas parecem ter funcionado mesmo num cenário em que as outras variáveis adversas tenham mantido sua influência. Elas são, como se sabe, a redução drástica da entrada de dólares no país e a incerteza provocada pela indefinição da futura política econômica a ser adotada pelo candidato petista, que lidera as pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República. "Neste momento, é compreensível que não se divulguem os nomes de frente da equipe econômica, mas também não se pode evitar que o mercado fique ansioso", diz Carlos Kawal, economista-chefe do Citibank.

Não bastassem as turbulências provocadas pelo processo eleitoral, no cenário interno o Brasil ainda guarda algumas particularidades. Em meio à campanha da sucessão presidencial, vem ocorrendo forte concentração de vencimentos de títulos públicos atrelados ao dólar. É comum, nesses períodos, que o câmbio fique pressionado. É a lei da oferta e da procura. Isso porque quem detém a mercadoria tem interesse em que o preço do dólar fique mais alto para obter maiores ganhos. De outro lado, o governo tenta controlar o apetite do mercado, inibindo a desvalorização do real. Na próxima quinta-feira estarão vencendo 3,6 bilhões de dólares em papéis cambiais. Vai ser uma boa oportunidade para testar o vigor das medidas baixadas pelo Banco Central na sexta-feira. No campo da retórica, o Brasil recebeu uma ajuda interessante na semana passada. Paul O'Neill, secretário do Tesouro dos Estados Unidos, reconheceu que a pressão cambial no Brasil deverá ceder depois das eleições.

 

 

 
 
   
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