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Edição 1 773 - 16 de outubro de 2002
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Eles não querem
fazer a guerra

A história de reservistas israelenses
que se recusam a servir nos territórios
palestinos por se opor à ocupação militar

José Eduardo Barella


Fotos AP
AP
Soldado israelense prende palestino e manifestação do Paz Agora: por uma solução negociada

David Zonshein, um engenheiro eletrônico de 29 anos, tomou a decisão mais difícil de sua vida em janeiro, depois de ter cumprido as três semanas de serviço militar obrigatório anual no Exército israelense na Faixa de Gaza. Tenente da reserva condecorado por bravura, com experiência de combate no Líbano e nas Colinas de Golã, Zonshein procurou seu superior no destacamento de pára-quedistas para informar que não serviria mais na Faixa de Gaza nem na Cisjordânia – os territórios ocupados por Israel em 1967, onde vivem 3 milhões de palestinos e 200.000 colonos judeus. Revoltado com as humilhações impostas à população civil palestina pelo Exército israelense, Zonshein descobriu outros cinqüenta reservistas insatisfeitos e decidiu agir. O grupo publicou um manifesto na imprensa em que relata prisões arbitrárias, destruição de casas e agressões contra idosos e crianças que afirma ter presenciado. "Jurei que nunca mais vou entrar na casa de um civil palestino e humilhá-lo na frente de seus filhos", disse Zonshein. Foi assim que nasceu o Coragem para Recusar, que reúne oficiais das Forças de Defesa de Israel que estão se negando a atuar nos territórios ocupados. É a chamada "recusa seletiva", já que esses militares não se opõem a servir no Exército, desde que dentro das fronteiras propriamente ditas do país.

Conhecidos como refuseniks, numa alusão aos judeus soviéticos que lutavam pelo direito de emigrar para Israel, eles conseguiram atrair a ira da cúpula militar e dividir a sociedade israelense. Cerca de 500 militares, a maioria da reserva, aderiram ao movimento. Destes, pelo menos 140 já cumpriram pena de trinta dias de prisão por insubordinação. O número de refuseniks é pequeno diante do efetivo de 173.000 soldados da ativa e de 445.000 da reserva que formam as Forças de Defesa de Israel. A polêmica envolvendo esses militares ultrapassou os muros dos quartéis por envolver uma das instituições mais respeitadas do país. Com apenas 5 milhões de habitantes e cercado de inimigos, Israel vive em estado de guerra desde sua criação, em 1948 – daí o papel central na vida do país desse contingente militar permanentemente mobilizado.

O serviço militar é obrigatório para todo cidadão israelense e é encarado como dever cívico. Dos 18 aos 21 anos de idade, a dedicação é exclusiva. Depois disso, e até chegar aos 40, aqueles que passam para a reserva têm de servir durante três semanas por ano. É nessa categoria que se encaixa a maioria dos refuseniks. As acusações de antipatriotismo e covardia não se justificam contra esse grupo de soldados. Eles estão prontos para lutar pelo Estado de Israel – apenas não querem tomar parte na opressão de outro povo. Se estivessem exclusivamente interessados em se livrar do inferno que significa servir nos territórios ocupados, poderiam alegar um problema de saúde ou mesmo viajar para o exterior.

A mobilização dos oficiais é reflexo do dilema moral a que está submetida a sociedade israelense depois de dois anos de Intifada, a rebelião palestina nos territórios ocupados. São mais de 2.500 mortos em ambos os lados e um ciclo interminável de atentados palestinos seguidos de represálias do Exército israelense. Os toques de recolher, os combates em áreas densamente povoadas, a morte de civis e as prisões em massa nas cidades palestinas nestes últimos meses chocaram o mundo. O desinteresse de Sharon por buscar uma solução política para a crise reforçou os argumentos dos refuseniks, que consideram a situação moralmente inaceitável. "A ocupação dos territórios é ilegal, por isso não há justificativa democrática para forçar um soldado a fazer parte dela", disse a VEJA Peretz Kidron, porta-voz do grupo pacifista Yesh Gvul (nome que significa "há um limite"), que apóia os refuseniks.

Não é a primeira vez que militares israelenses alegam objeção de consciência. Nos dezoito anos em que Israel ocupou um pedaço do Líbano, até se retirar, em 2000, 168 soldados preferiram cumprir pena de prisão de trinta dias a servir fora das fronteiras do país. Outros 3.000 assinaram uma petição solicitando formalmente transferência para quartéis dentro de Israel – a chamada meia-rejeição, que os livrou de uma condenação por insubordinação. A invasão do Líbano, comandada por Ariel Sharon, então ministro da Defesa, acabou estimulando a criação de alguns dos mais ativos grupos pacifistas israelenses, como Paz Agora e Yesh Gvul. Nos últimos meses, devido aos terríveis atentados palestinos, esses grupos haviam perdido espaço na sociedade israelense – mas os refuseniks, com sua mobilização, conseguiram trazê-los de volta à cena política. Eles defendem não só a retirada israelense dos territórios ocupados, mas também a assinatura de um acordo de paz com os palestinos. Oito reservistas entraram com uma petição na Suprema Corte, no mês passado, para tentar anular as penas militares a que foram submetidos. Eles alegam que desobedeceram a ordens de servir nos territórios porque a ocupação, em si, é ilegal. A decisão, mesmo que não lhes seja favorável, deverá esquentar o debate sobre as fronteiras definitivas de Israel.

 

ESCUDO PROTETOR


O novo sistema antimíssil de Israel, conhecido como Arrow, já protege Tel-Aviv do ataque dos Scuds, os mísseis iraquianos. O projeto, que nasceu nos anos 80, tornou-se urgente depois que 39 Scuds atingiram o país durante a Guerra do Golfo, em 1991. Já custou 2 bilhões de dólares, dos quais os Estados Unidos pagaram 800 milhões. A idéia é que trabalhe em conjunto com o Patriot, o antimíssil americano de fraco desempenho no Golfo. Criado originalmente para abater aviões e depois adaptado para interceptar mísseis, o Patriot opera em baixas altitudes. O Arrow foi projetado para deter o atacante em grande altitude e com maior precisão. Toda a operação precisa ser muito rápida: o tempo de vôo de um Scud entre o Iraque e Israel é de apenas seis, sete minutos. Quando todos os radares e baterias de mísseis estiverem instalados, em 2004, Israel será o primeiro país com sistema antimíssil de cobertura nacional.


 
 
   
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