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Noites tropicais
Documentação
histórica
conta detalhes do
casamento
no Brasil colônia
Ronaldo França
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| Casamento
de negros: uniões formais eram freqüentes, mas sem "mistura de raças"
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Durante os
últimos três anos, o historiador alagoano Nireu Cavalcanti,
professor da Universidade Federal Fluminense, compilou informações
a respeito do casamento no Brasil colônia, período que se
encerra em 1815, quando o Brasil é declarado Reino Unido. Consultando
uma papelada arquivada na arquidiocese do Rio de Janeiro referente aos
matrimônios celebrados naquela época, Cavalcanti reuniu um
material rico em detalhes. E fez alguns achados. A começar pela
sempre sensível questão da virgindade. Constata-se na documentação
que as relações sexuais antes do casamento eram muito mais
comuns do que se imaginava. De cada dez noivas, uma admitia ao padre já
ter se deitado com um homem. Ou, na linguagem utilizada pela Igreja, ter
praticado "cópula ilícita". O historiador acredita que os
dados embutam uma subnotificação de casos, uma vez que havia
muitas uniões sem casamento formal. Mas já é um número
surpreendente, diante dos rígidos padrões morais da época.
O que mostra que as noites nos trópicos não eram nada tediosas
ou sonolentas.
Durante
os três meses que antecediam o casamento, a união era obrigatoriamente
anunciada nas paróquias, incluindo a mais próxima à
residência e a do local de batismo dos noivos. Nessa etapa, como
acontece até hoje com os proclamas, que devem correr antes da oficialização
de uma união, qualquer um podia alegar uma razão para impedir
o casamento. Não era raro surgirem ruborizantes informações
adicionais. A delação era incentivada tanto pela Igreja
quanto pela Coroa portuguesa. Bastava procurar o padre e sapecar uma mancha
na honra dos noivos. Era graças a esse expediente que se ficava
sabendo, por exemplo, da ocorrência das tais cópulas ilícitas
e do intenso trabalho das alcoviteiras.
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Alcoviteira: o sexo antes do casamento era mais comum do que se
imagina
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Um dos casos
que mais chamaram a atenção de Cavalcanti ocorreu em 1736,
nos proclamas de um jovem jornaleiro termo que naquela época
designava o biscateiro chamado Pedro de Oliveira e sua amada, Maria
de Oliveira. Quando eles tornaram público o desejo de se casar,
o mundo de Maria desabou. Descobriu-se que ela já havia tido relações
sexuais tanto com o noivo quanto com um tio dele. Diante da denúncia,
a noiva admitiu que era tudo verdade, mas mesmo assim o casamento seguiu
em frente. Uma constatação valiosa nos documentos é
ver que a perda da virgindade nunca foi de fato uma barreira ao matrimônio.
Inescapáveis eram as penas que se aplicavam nesses casos. Um ato
grave recebia penitências que, além das 150 ave-marias, incluíam
a obrigação de permanecer de pé durante a missa,
com uma vela acesa na mão. Era a forma de expor-se à comunidade,
o que tornava o castigo particularmente incômodo. O pecador podia
ser obrigado ainda a fazer doações de velas à paróquia.
Havia especial interesse da Igreja por essa punição devido
ao alto custo que as velas representavam à época. Uma única
procissão, por exemplo, podia gastar até 200.000
réis somente com a iluminação. Essa quantia equivalia
à metade do dinheiro necessário para a construção
de uma casa num bairro não muito distante do Rio. Se o delator
fosse flagrado mentindo, também era punido. Muitas denúncias
aconteciam por pura vingança.
O material
apresenta um caso curioso. Deu-se em 1789, nos proclamas do lavrador Pedro
Firminiano de Marins com Antonia Maria de Jesus. Tudo iria bem se não
fosse por um certo Manoel Pereira da Silva, que acusou Pedro Firminiano
de ter "copulado com a própria sogra". O caso, aparentemente escandaloso,
não passava de falsa denúncia. Manoel admitiu mais tarde,
como se vê no processo, que tentou destruir o casamento para vingar-se
do pai da noiva, que a havia prometido a ele antes de a Pedro Firminiano.
O episódio mostra que o casamento arranjado entre os pais, embora
fosse tradição nas famílias brasileiras, nem sempre
era levado a termo. O exemplo mais conhecido até então foi
o que se deu durante o Império, no casamento do duque de Saxe com
a princesa Leopoldina, filha mais nova de dom Pedro II. Ela estava prometida
originalmente para o conde d'Eu. A princesa Isabel, filha mais velha,
casaria com o duque. As irmãs simplesmente trocaram os noivos,
porque uma gostou mais do pretendente da outra. Os documentos encontrados
agora mostram que, já bem antes do Império, havia uma tendência
a valorizar o amor.
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Casamento da princesa Leopoldina: o amor falou mais alto
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Os documentos
da Igreja revelam muito mais. Mostram que os casamentos entre negros e
mestiços, por exemplo, eram quase tão raros quanto as uniões
entre negros e brancos. Manter a linhagem pura era uma forma de resistência.
Há uma infinidade de informações sociológicas
ainda a ser explorada pelos pesquisadores. Mas é nos detalhes da
vida privada que a história fica mais saborosa. "Até pouco
tempo atrás se pensava que a devassidão era uma exclusividade
das cortes francesa ou inglesa. Esse é um mito que vem desaparecendo",
afirma o historiador Rubim Aquino, especialista na história social
do Brasil.
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