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Edição 1 773 - 16 de outubro de 2002
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Crise? Encolha a roupa

Em tempos difíceis, estilistas
das grifes
de luxo apelam para
o sexy que vende


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Passarela de moda é, por princípio, o lugar onde estilistas sonham, fantasiam e exageram. A todo momento, despontam no corpo das modelos formas impraticáveis, decotes impossíveis, transparências absurdas, curtos inexeqüíveis. Tudo isso faz parte do show. Quando as roupas vão para as prateleiras das butiques, os arroubos mais enlouquecidos praticamente desaparecem. Há momentos, no entanto, em que o ultra-sexy extrapola o limite da extravagância criativa: é quando a caixa registradora tilinta menos e a grife de luxo precisa aparecer mais do que nunca, para recuperar as vendas. Aí, caras freguesas, é corpo à mostra para todo lado. Evidência desse mandamento do mercado da moda foram os desfiles da primavera-verão 2003 exibidos nas últimas semanas em Milão e Paris pelas marcas mais badaladas do planeta. A indústria do luxo vive dias difíceis, atordoada por economias recessivas, consumo encolhido e, ainda, pelos efeitos dos atentados nos Estados Unidos, que fizeram minguar os turistas, os grandes gastadores desse mercado. Qual a resposta? Grifes como Gucci, Dior e companhia carregaram como nunca em seios, pernas e barriguinhas de fora.

Reuters
Modelo de Tom Ford para Yves Saint Laurent: maquiagem no bico do seio


A locomotiva do cordão do pouco pano, tanto em Paris quanto em Milão, foi o americano Tom Ford, estilista-chefe da Yves Saint Laurent e da Gucci. Mago dos objetos de desejo absolutamente imprescindíveis, capaz de com uma única bolsa (a Mombasa, do ano passado, um modelo de couro com alça de osso) segurar as finanças de uma marca do porte da YSL, Ford tem amargado resultados esquálidos. A YSL, que o grupo Gucci comprou em 1999 à beira da falência, deu uma boa recuperada, é fato – a tal bolsinha impulsionou um aumento de vendas de 63% no primeiro trimestre deste ano –, mas ainda não saiu do vermelho. Seu prejuízo ficou na casa dos 20 milhões de dólares. A Gucci, fenômeno comercial dos últimos anos, apresentou no mesmo período queda de faturamento de 12% (26% só nos Estados Unidos) e costura maneiras de cumprir as metas estabelecidas para 2002. Dá-lhe, portanto, microvestidinhos em Milão e seios de fora (maquiados, ainda por cima) em Paris, para tentar vender mais e contornar uma crise que, quanto maior o negócio, mais assusta: a francesa LVMH, conglomerado número 1 de marcas de luxo do mundo, viu seu lucro líquido desabar de 715 milhões de dólares em 2000 para meros 10 milhões no ano passado.


AP
AFP
O microvestido Gucci, tailleur Scherrer com calcinha, Galliano decotado e Dior também: tática
AFP
Reuters

A moda do desvestir nesta temporada européia foi generalizada, presente em marcas com aura conservadora, como Scherrer, e disseminada nas que sempre usaram pouco pano, como Versace (a campeã do ultra-sexy), John Galliano para Dior, Alexander McQueen e Jean-Paul Gaultier. Houve focos de resistência, entre eles Giorgio Armani, que por um bom motivo repetiu sua infalível fórmula de roupas cheias de classe (veja entrevista abaixo): o faturamento líquido de sua empresa, num mundo de paetês cada vez menos brilhantes, cresceu 23% em 2001, totalizando 1,12 bilhão de dólares. Chanel e Valentino, com coleções elogiadíssimas, também optaram por não ultrapassar a cota habitual de exibicionismo, dando espetáculos de bom gosto. O inglês John Galliano transitou entre os dois mundos. Desvestiu suavemente as modelos na coleção desenhada para a grife Dior e, na sua própria marca, cobriu-as de casacões, véus e pinturas tribais, com uma ou outra exceção. Não é difícil adivinhar qual vai fazer mais sucesso comercial.

 

 

"FAÇO MODA QUE DURA"

Em meio ao abatimento geral no mercado de artigos de luxo, Giorgio Armani, 68 anos, é uma exceção cintilante. Tanto que prepara a abertura de sua primeira loja no Rio de Janeiro (quarta no Brasil), em novembro, e comemora a inauguração de três outras na China – mercado monumental em que pretende instalar 24 butiques no total. Em entrevista a VEJA por e-mail, Armani fala sobre moda e negócios:

Veja – Quando as vendas vão mal, os estilistas apelam para a sensualidade?
Armani – Apelam, sim. Pessoalmente, não lanço mão desse recurso, e por dois motivos. Um é que sempre desenho pensando na mulher "real", que trabalha e busca filhos na escola, e não a vejo fazendo isso de corselete e minissaia. O outro é que acho muito mais sensual mostrar só um pouquinho do corpo, como a fenda em uma saia, a transparência em uma blusa.

Veja – Seu grupo vem crescendo cerca de 20% ao ano num mercado dominado por conglomerados. Como é possível ser a exceção?
Armani – Há dois ou três anos as pessoas diziam que, se eu não fundisse com alguém ou comprasse alguém, iria desaparecer. Hoje me vêem com outros olhos. Acredito que o meu sucesso se deva ao fato de que sempre mantive os pés no chão. Nunca abri uma loja só para ser pioneiro no local, nunca paguei demais por um ponto só para garantir que meu concorrente não chegaria lá. Além disso, meu negócio não é baseado em acessórios, mas em roupas que duram.

Veja – Como são desenhadas suas coleções?
Armani – Eu trabalho com um pequeno grupo de colaboradores. Cada passo do desenvolvimento de uma linha é discutido e pensado em conjunto. Toda temporada, pesquisamos novos materiais e tecidos. Quando se mantém um estilo, inserindo nele novas idéias e influências, em vez de mudar tudo a cada temporada, constrói-se uma identidade com a qual as pessoas se identificam e à qual serão fiéis.

Veja – Seu mundo é o do prêt-à-porter, a roupa de luxo feita em série. A alta-costura, dos modelos exclusivos a preços exorbitantes, está fadada a desaparecer?
Armani – É um nicho pequeno, mas que sempre vai existir. Em parte, porque a alta-costura é inspiradora, ajuda as pessoas a sonhar. Mas, acima de tudo, porque o brilho do seu nome ajuda a promover e a vender perfumes e acessórios.

Veja – Que estilistas o senhor mais admira?
Armani – Minha favorita é Coco Chanel, que mudou radicalmente a maneira como as mulheres se vestem e influencia a moda até hoje. Entre os estilistas atuais, admiro Jean-Paul Gaultier, Yohji Yamamoto e Yves Saint Laurent, porque sua moda tem continuidade, foco e estilo.

Veja – O senhor tem planos de se aposentar?
Armani – Continuo muito envolvido com meu trabalho, mas tenho consciência de que não sou imortal. Comecei a montar uma estrutura sólida, com administradores capazes e equipes que terão condições de levar o negócio adiante.



   
 
   
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