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Crise? Encolha a
roupa
Em tempos
difíceis, estilistas
das grifes de
luxo apelam para
o sexy que vende

Veja também |
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Passarela
de moda é, por princípio, o lugar onde estilistas sonham,
fantasiam e exageram. A todo momento, despontam no corpo das modelos formas
impraticáveis, decotes impossíveis, transparências
absurdas, curtos inexeqüíveis. Tudo isso faz parte do show.
Quando as roupas vão para as prateleiras das butiques, os arroubos
mais enlouquecidos praticamente desaparecem. Há momentos, no entanto,
em que o ultra-sexy extrapola o limite da extravagância criativa:
é quando a caixa registradora tilinta menos e a grife de luxo precisa
aparecer mais do que nunca, para recuperar as vendas. Aí, caras
freguesas, é corpo à mostra para todo lado. Evidência
desse mandamento do mercado da moda foram os desfiles da primavera-verão
2003 exibidos nas últimas semanas em Milão e Paris pelas
marcas mais badaladas do planeta. A indústria do luxo vive dias
difíceis, atordoada por economias recessivas, consumo encolhido
e, ainda, pelos efeitos dos atentados nos Estados Unidos, que fizeram
minguar os turistas, os grandes gastadores desse mercado. Qual a resposta?
Grifes como Gucci, Dior e companhia carregaram como nunca em seios, pernas
e barriguinhas de fora.
Reuters
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| Modelo
de Tom Ford para Yves Saint Laurent: maquiagem no bico do seio |
A locomotiva do cordão do pouco pano, tanto em Paris quanto em
Milão, foi o americano Tom Ford, estilista-chefe da Yves Saint
Laurent e da Gucci. Mago dos objetos de desejo absolutamente imprescindíveis,
capaz de com uma única bolsa (a Mombasa, do ano passado, um modelo
de couro com alça de osso) segurar as finanças de uma marca
do porte da YSL, Ford tem amargado resultados esquálidos. A YSL,
que o grupo Gucci comprou em 1999 à beira da falência, deu
uma boa recuperada, é fato a tal bolsinha impulsionou um
aumento de vendas de 63% no primeiro trimestre deste ano , mas ainda
não saiu do vermelho. Seu prejuízo ficou na casa dos 20
milhões de dólares. A Gucci, fenômeno comercial dos
últimos anos, apresentou no mesmo período queda de faturamento
de 12% (26% só nos Estados Unidos) e costura maneiras de cumprir
as metas estabelecidas para 2002. Dá-lhe, portanto, microvestidinhos
em Milão e seios de fora (maquiados, ainda por cima) em Paris,
para tentar vender mais e contornar uma crise que, quanto maior o negócio,
mais assusta: a francesa LVMH, conglomerado número 1 de marcas
de luxo do mundo, viu seu lucro líquido desabar de 715 milhões
de dólares em 2000 para meros 10 milhões no ano passado.
AP
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AFP
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| O
microvestido Gucci, tailleur Scherrer com calcinha, Galliano decotado
e Dior também: tática |
AFP
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Reuters
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A moda do
desvestir nesta temporada européia foi generalizada, presente em
marcas com aura conservadora, como Scherrer, e disseminada nas que sempre
usaram pouco pano, como Versace (a campeã do ultra-sexy), John
Galliano para Dior, Alexander McQueen e Jean-Paul Gaultier. Houve focos
de resistência, entre eles Giorgio Armani, que por um bom motivo
repetiu sua infalível fórmula de roupas cheias de classe
(veja entrevista abaixo):
o faturamento líquido de sua empresa, num mundo de paetês
cada vez menos brilhantes, cresceu 23% em 2001, totalizando 1,12 bilhão
de dólares. Chanel e Valentino, com coleções elogiadíssimas,
também optaram por não ultrapassar a cota habitual de exibicionismo,
dando espetáculos de bom gosto. O inglês John Galliano transitou
entre os dois mundos. Desvestiu suavemente as modelos na coleção
desenhada para a grife Dior e, na sua própria marca, cobriu-as
de casacões, véus e pinturas tribais, com uma ou outra exceção.
Não é difícil adivinhar qual vai fazer mais sucesso
comercial.
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"FAÇO
MODA QUE DURA"
Em meio ao abatimento geral no mercado de artigos de luxo, Giorgio
Armani, 68 anos, é uma exceção cintilante.
Tanto que prepara a abertura de sua primeira loja no Rio de Janeiro
(quarta no Brasil), em novembro, e comemora a inauguração
de três outras na China mercado monumental em que pretende
instalar 24 butiques no total. Em entrevista a VEJA por e-mail,
Armani fala sobre moda e negócios:
Veja
Quando as vendas vão mal, os estilistas
apelam para a sensualidade?
Armani
Apelam, sim. Pessoalmente, não lanço mão
desse recurso, e por dois motivos. Um é que sempre desenho
pensando na mulher "real", que trabalha e busca filhos na escola,
e não a vejo fazendo isso de corselete e minissaia. O outro
é que acho muito mais sensual mostrar só um pouquinho
do corpo, como a fenda em uma saia, a transparência em uma
blusa.
Veja
Seu grupo vem crescendo cerca de 20% ao ano num
mercado dominado por conglomerados. Como é possível
ser a exceção?
Armani
Há dois ou três anos as pessoas diziam que,
se eu não fundisse com alguém ou comprasse alguém,
iria desaparecer. Hoje me vêem com outros olhos. Acredito
que o meu sucesso se deva ao fato de que sempre mantive os pés
no chão. Nunca abri uma loja só para ser pioneiro
no local, nunca paguei demais por um ponto só para garantir
que meu concorrente não chegaria lá. Além disso,
meu negócio não é baseado em acessórios,
mas em roupas que duram.
Veja
Como são desenhadas suas coleções?
Armani
Eu trabalho com um pequeno grupo de colaboradores. Cada
passo do desenvolvimento de uma linha é discutido e pensado
em conjunto. Toda temporada, pesquisamos novos materiais e tecidos.
Quando se mantém um estilo, inserindo nele novas idéias
e influências, em vez de mudar tudo a cada temporada, constrói-se
uma identidade com a qual as pessoas se identificam e à qual
serão fiéis.
Veja
Seu mundo é o do prêt-à-porter, a
roupa de luxo feita em série. A alta-costura, dos modelos
exclusivos a preços exorbitantes, está fadada a desaparecer?
Armani
É um nicho pequeno, mas que sempre vai existir.
Em parte, porque a alta-costura é inspiradora, ajuda as pessoas
a sonhar. Mas, acima de tudo, porque o brilho do seu nome ajuda
a promover e a vender perfumes e acessórios.
Veja
Que estilistas o senhor mais admira?
Armani
Minha favorita é Coco Chanel, que mudou radicalmente
a maneira como as mulheres se vestem e influencia a moda até
hoje. Entre os estilistas atuais, admiro Jean-Paul Gaultier, Yohji
Yamamoto e Yves Saint Laurent, porque sua moda tem continuidade,
foco e estilo.
Veja
O senhor tem planos de se aposentar?
Armani Continuo muito envolvido com meu trabalho,
mas tenho consciência de que não sou imortal. Comecei
a montar uma estrutura sólida, com administradores capazes
e equipes que terão condições de levar o negócio
adiante.
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