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Edição 1 773 - 16 de outubro de 2002
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Barrados nos EUA

Com regras criadas contra o
terrorismo, os Estados Unidos
estão negando visto a artistas

A guerra contra o terrorismo está fazendo vítimas inesperadas: os artistas provenientes de países suspeitos, como Irã e Cuba, têm sido sistematicamente barrados na fronteira. O episódio de maior repercussão envolveu o badalado cineasta iraniano Abbas Kiarostami. Convidado a apresentar seu novo filme no Festival de Cinema de Nova York, Kiarostami teve negado o visto de entrada nos Estados Unidos, depois de ir até Paris para solicitá-lo (no Irã, não há representação diplomática americana). Foi informado de que seus "antecedentes" seriam investigados e de que não deveria esperar uma resposta antes de três meses. Premiado com a Palma de Ouro em Cannes, o Oscar do cinema de arte, ele já havia visitado sete vezes os Estados Unidos sem nenhum problema. Kiarostami precisou cancelar sua participação no festival e uma palestra na Universidade Harvard. Situação semelhante ofuscou a entrega da versão latina do Grammy, no mês passado. Vinte e dois artistas cubanos indicados ao prêmio não puderam assistir à cerimônia por falta de visto. O pianista Chucho Valdés, que iria buscar seu quarto Grammy e realizar uma turnê pelos Estados Unidos, também não pôde entrar no país.

Até os velhinhos do grupo cubano Afro-Cuban All Stars, formado por alguns integrantes do projeto Buena Vista Social Club, foram tratados como suspeitos e tiveram de cancelar uma turnê de cinco semanas. Entende-se que as novas restrições assinadas pelo presidente George W. Bush depois dos atentados de 11 de setembro tornaram obrigatória uma espera de vinte dias na concessão de visto a cidadãos de 26 países, na maioria muçulmanos – mas não há explicação para o fato de artistas conhecidos serem tratados com especial hostilidade. A ausência forçada de Kiarostami motivou o boicote de vários cineastas estrangeiros ao festival. "Os Estados Unidos estão provocando o seu isolamento cultural e o desprezo a outras culturas", criticou Jack Lang, ex-ministro da Cultura da França, que tentou inutilmente interceder por Kiarostami. Em editorial, o jornal The New York Times alertou que "não faz jus à capacidade intelectual americana que o governo Bush não saiba distinguir entre um potencial terrorista e um renomado cineasta".

Impedida de entrar nos Estados Unidos, a cantora iraniana Googoosh não é uma fanática muçulmana. Trata-se de uma vítima do fundamentalismo, que durante duas décadas foi proibida de cantar pelo regime dos aiatolás. As novas regras de concessão de visto são especialmente severas com relação a sete países "patrocinadores do terrorismo" – Iraque, Irã, Síria, Líbia, Coréia do Norte, Sudão e Cuba. Mas entre aqueles que passaram pelo constrangimento de ser barrados estão bailarinos russos e um pianista da Irlanda do Norte. Na quarta-feira passada, o Irã impediu a entrada no país de Christiane Amanpour, repórter da rede CNN. Anunciada como represália às restrições impostas pelos Estados Unidos aos viajantes iranianos, a atitude se tratou, na realidade, de uma forma de se livrar de Amanpour, crítica contumaz dos aiatolás. Pior é que, agora, os americanos não têm como acusar os iranianos de obscurantismo.

Não é de hoje que visitantes famosos passam por apuros nas fronteiras americanas. Em maio do ano passado, o também cineasta iraniano Jafar Panahi, que ia a Nova York receber um prêmio da Unesco, foi algemado no aeroporto, confundido com um imigrante ilegal, e deportado sem nenhuma explicação. Até o fim da Guerra Fria, comunistas notórios não podiam entrar no país. Por esse motivo, o arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer teve seu visto negado por duas décadas. Mas nunca se viu antes artistas famosos serem barrados com tanta intensidade.

   
 
   
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