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Barrados nos EUA
Com regras
criadas contra o
terrorismo, os Estados Unidos
estão
negando visto a artistas
A guerra
contra o terrorismo está fazendo vítimas inesperadas: os
artistas provenientes de países suspeitos, como Irã e Cuba,
têm sido sistematicamente barrados na fronteira. O episódio
de maior repercussão envolveu o badalado cineasta iraniano Abbas
Kiarostami. Convidado a apresentar seu novo filme no Festival de Cinema
de Nova York, Kiarostami teve negado o visto de entrada nos Estados Unidos,
depois de ir até Paris para solicitá-lo (no Irã,
não há representação diplomática americana).
Foi informado de que seus "antecedentes" seriam investigados e de que
não deveria esperar uma resposta antes de três meses. Premiado
com a Palma de Ouro em Cannes, o Oscar do cinema de arte, ele já
havia visitado sete vezes os Estados Unidos sem nenhum problema. Kiarostami
precisou cancelar sua participação no festival e uma palestra
na Universidade Harvard. Situação semelhante ofuscou a entrega
da versão latina do Grammy, no mês passado. Vinte e dois
artistas cubanos indicados ao prêmio não puderam assistir
à cerimônia por falta de visto. O pianista Chucho Valdés,
que iria buscar seu quarto Grammy e realizar uma turnê pelos Estados
Unidos, também não pôde entrar no país.
Até
os velhinhos do grupo cubano Afro-Cuban All Stars, formado por alguns
integrantes do projeto Buena Vista Social Club, foram tratados como suspeitos
e tiveram de cancelar uma turnê de cinco semanas. Entende-se que
as novas restrições assinadas pelo presidente George W.
Bush depois dos atentados de 11 de setembro tornaram obrigatória
uma espera de vinte dias na concessão de visto a cidadãos
de 26 países, na maioria muçulmanos mas não
há explicação para o fato de artistas conhecidos
serem tratados com especial hostilidade. A ausência forçada
de Kiarostami motivou o boicote de vários cineastas estrangeiros
ao festival. "Os Estados Unidos estão provocando o seu isolamento
cultural e o desprezo a outras culturas", criticou Jack Lang, ex-ministro
da Cultura da França, que tentou inutilmente interceder por Kiarostami.
Em editorial, o jornal The New York Times alertou que "não
faz jus à capacidade intelectual americana que o governo Bush não
saiba distinguir entre um potencial terrorista e um renomado cineasta".
Impedida
de entrar nos Estados Unidos, a cantora iraniana Googoosh não é
uma fanática muçulmana. Trata-se de uma vítima do
fundamentalismo, que durante duas décadas foi proibida de cantar
pelo regime dos aiatolás. As novas regras de concessão de
visto são especialmente severas com relação a sete
países "patrocinadores do terrorismo" Iraque, Irã,
Síria, Líbia, Coréia do Norte, Sudão e Cuba.
Mas entre aqueles que passaram pelo constrangimento de ser barrados estão
bailarinos russos e um pianista da Irlanda do Norte. Na quarta-feira passada,
o Irã impediu a entrada no país de Christiane Amanpour,
repórter da rede CNN. Anunciada como represália às
restrições impostas pelos Estados Unidos aos viajantes iranianos,
a atitude se tratou, na realidade, de uma forma de se livrar de Amanpour,
crítica contumaz dos aiatolás. Pior é que, agora,
os americanos não têm como acusar os iranianos de obscurantismo.
Não
é de hoje que visitantes famosos passam por apuros nas fronteiras
americanas. Em maio do ano passado, o também cineasta iraniano
Jafar Panahi, que ia a Nova York receber um prêmio da Unesco, foi
algemado no aeroporto, confundido com um imigrante ilegal, e deportado
sem nenhuma explicação. Até o fim da Guerra Fria,
comunistas notórios não podiam entrar no país. Por
esse motivo, o arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer teve seu visto negado
por duas décadas. Mas nunca se viu antes artistas famosos serem
barrados com tanta intensidade.
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