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Edição 1 773 - 16 de outubro de 2002
Eleições 2002

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1 570 000 votos

Enéas, eleito com votação recorde,
gaba-se da fama de conquistador
e ri de si próprio

Thaís Oyama

 
 MEU NOME É ENÉAS!

Antonio Milena






Enéas: luta contra "plano diabólico" chega agora ao Congresso

ELE E AS MULHERES
"Houve um cidadão que disse: 'O Enéas, com aquela barba, deve ter dificuldades para arranjar moças'. Deu-me vontade de rir. Como ele é tolo, como ele é tolo. Pensar que mulheres só olham para músculos, desculpe, é diminuir muito as mulheres"  

A BARBA
"Sentei-me para fazer o meu livro. Escrevi e escrevi sem parar. Um dia, olhei no espelho e a barba estava lá. Gostei, sobretudo, porque desvia a atenção. Deixaram de apontar-me como 'aquele careca' e passei a ser 'aquele barbudo'"

VOTO CACARECO
"Aquele senhor, que até hoje só fez greves, virou líder popular. A senhora Benedita da Silva, que só sabe cozinhar, tornou-se governadora. Então, eu pergunto: por que nos perseguem tanto?"  

HOMOSSEXUALISMO
"Não tenho nada contra os homossexuais. Tenho contra a ovação em torno do assunto, que tratam como sendo uma vitória da civilização. É um desvirtuamento"



Veja também
Nesta edição
Barrados pelas urnas
Aécio une Minas e mira o Planalto
O jogo das alianças
O Congresso que aguarda Lula ou Serra
Na internet
Noticiário diário no site Eleições 2002

É um espanto. O acreano Enéas Ferreira Carneiro, de 63 anos, foi eleito deputado federal por São Paulo com 1,6 milhão de votos, em números redondos. Com esse recorde, graças ao critério de representação proporcional imposto pela legislação, o barbudão conseguiu puxar para a Câmara outros cinco candidatos de seu Prona, Partido de Reedificação da Ordem Nacional. Um desses novos deputados está rindo à toa: mudará para Brasília, como representante do Estado mais populoso e rico do país, levando na bagagem apenas 275 votos realmente seus. Em muitos conjuntos residenciais, essa quantidade não daria para eleger o síndico. Enéas e o Prona são fruto de uma distorção circunstancial e de uma característica nacional. A distorção é do sistema político brasileiro, que transformou a representação proporcional em alavanca para agremiações parasitárias. A característica é o deboche cívico – o mesmo que, na época da cédula de papel, "elegeu" um rinoceronte de zoológico, o "Cacareco", vereador paulistano.

Mas vá alguém sugerir a Enéas que sua eleição tem algo a ver com a propensão brasileira à zombaria. Ouvirá em resposta adjetivos como "pacóvio", "pascácio" e "mentecapto" – os preferidos de um vasto arsenal de impropérios que ele costuma proferir com expressão furibunda. Fúria amainada, surge um Enéas bem diferente do carrancudo da televisão. Fora do alcance das câmeras e do embate político, o fundador do Prona gaba-se de ser um conquistador de corações femininos, revela que não sai de casa sem passar perfume e não só tem bom humor como é capaz de gargalhar de si próprio. Ele aperta os olhos míopes de tanto rir quando conta sua piada preferida, da qual é protagonista: uma nave extraterrestre aterrissou em Brasília. Seu comandante, interessado em conhecer os problemas do planeta, exigiu falar com o líder local. Fernando Henrique Cardoso foi até sua presença, mas, depois de uma breve conversa, acabou dispensado pelo ET: "Esse aí acha que está tudo bom", disse. Convocaram, então, Luís Inácio Lula da Silva, que se viu igualmente desprezado: "Esse acha que está tudo ruim". Alguém, então, se lembrou de chamar Enéas. "Só que, quando me aproximei da nave, saiu dela uma porção de etezinhos gritando: 'Papai, papai!'."

Enéas é mesmo um ser de outro mundo. Ou alguém mais neste planeta tem o hábito de dormir de calça e camisa sociais? O ex-sargento do Exército, defensor ardoroso da ordem e da disciplina, o faz: "Não gosto de pijama nem de calça curta", explica. Antes de virar militar, o filho de um barbeiro e de uma dona-de-casa foi ajudante de açougueiro e auxiliar de almoxarifado. Sustentado pelo soldo de sargento, estudou na então Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro e, na mesma época, cursou as faculdades de matemática e física. Era um aluno brilhante e, dizem os amigos, já naqueles dias um dom-juan para lá de competente. "Ele sempre foi bom de conversa. Vivia embandeirado de mulheres", conta o ex-colega e engenheiro Osório Alexandrino de Souza. Enéas não esconde o orgulho: "Sempre gostei do sexo oposto. Sou um estudioso, um entusiasta, um admirador do gênero – e dou-me muito bem com ele", garante. Tanto assim que até hoje não lhe faltou companhia feminina nem mesmo na hora de tratar da barbona, cuidadosamente pintada. "Tenho amigas, uma aqui, outra acolá, que me auxiliam nessa tarefa", conta, entre risinhos.

 
 ÁLBUM DE FAMÍLIA

Fotos arquivo pessoal. Reprodução Oscar Cabral
Enéas, aos 6 meses de idade, como cadete do Exército e, aos 26 anos, quando estudava medicina no Rio: não, ele não nasceu de barba

Enéas tornou-se um especialista em eletrocardiografia. Os cursos que dá sobre o tema, hoje sua única fonte de renda, lotam nos primeiros dias de matrícula. As aulas são cronometradas. Faz parte da coleção de excentricidades do professor consultar compulsivamente o relógio para que elas não comecem um minuto atrasadas nem terminem um segundo além do previsto. Enéas arregimentou boa parte do Prona entre seus pupilos. Dos fundadores do partido, quatro são ex-alunos seus. O Prona nasceu em 1989 de um típico diálogo que casais costumam ter na hora do jantar. A então mulher de Enéas, a hoje subprocuradora-geral do Ministério Público Militar, Adriana Lorandi, cansada de ouvi-lo vociferar contra as desgraças do país, disse-lhe: "Se você tem solução para tudo, por que não se candidata a presidente da República?". Atípico foi o desfecho da conversa: o marido achou que era uma boa idéia.

Concorreu pela primeira vez em 1989, quando os exíguos quinze segundos a que tinha direito no horário eleitoral ajudaram-no a criar o bordão mais bem-sucedido da propaganda política brasileira: o Brasil inteiro ficou sabendo que o nome dele era Enéas. Em 1994, terminou a corrida presidencial em terceiro lugar, com 4,6 milhões de votos, à frente de Leonel Brizola e Orestes Quércia. Caiu para a quarta posição na campanha de 1998, da qual saiu praticamente reduzido à bancarrota. Já havia fechado sua clínica de cardiologia e, em 1994, perdera o emprego de médico da rede pública – descobriu-se que contratava uma colega para exercer a função que era sua.

Para agravar a situação, Enéas caiu em diversos contos-do-vigário. "Ligavam de Rondônia, por exemplo, dizendo que queriam fundar um diretório do Prona. O doutor Enéas mandava dinheiro, passagem e o sujeito nunca mais aparecia. Ele confia demais nas pessoas", afirma um de seus assessores. Resultado: dois carros, algumas jóias e um apartamento em Ipanema viraram santinhos de campanha ou sumiram no bolso de espertalhões. "Em treze anos de vida pública, perdi tudo o que construí", diz ele. Hoje, seu patrimônio se resume ao Monza 85 que dirige. O apartamento em que fica quando está no Rio de Janeiro, no bairro de Laranjeiras, está no nome da ex-mulher. Quando fala dela, Enéas chega a verter lágrimas. "Adriana não suportou o processo infernal que é uma campanha. Foi minha maior perda. Era uma esposa extraordinária." Foi sua última mulher e a terceira de uma série. Com cada uma teve uma filha: Janete, de 35 anos, funcionária do Itamaraty, Gabriela, de 30, estudante de história, e Lígia, de 17, estudante de medicina.

A última campanha eleitoral custou-lhe 60.000 reais, tomados emprestados em um banco. Somadas todas as aparições na TV, Enéas teve nove minutos para apresentar suas idéias, baseadas na luta contra um certo "plano diabólico" que, segundo ele, prevê a destruição do Estado por meio de uma estratégia que inclui a desmoralização das Forças Armadas e o uso da imprensa para divulgar "só o que não presta". Dessa forma, acredita, o povo ficaria convencido de que "o Estado não serve para nada" e estaria aberto o caminho para a grande desgraça que se avizinha: a entrega do patrimônio nacional aos articuladores do tal plano diabólico, quem quer que sejam eles. Parece confuso? Bem, Enéas Carneiro, o deputado federal mais votado da história nacional, talvez tenha vindo para confundir, e não para explicar.


Com reportagem de
Ronaldo França

 
 UMA MULHER COM H MAIÚSCULO: HAVANIR

Fotos Antonio Milena

Silicone, Botox e plástica no nariz: agora, ela vai trocar também a casa (à dir.) e o estado civil


Havanir Tavares de Almeida Nimtz, a doutora Havanir do Prona, é uma espécie de Enéas Carneiro de tailleur. Assim como o médico, fala grosso, faz cara de brava para as câmeras e exibe currículo político inversamente proporcional à votação obtida nessas eleições: no seu caso, foram estrondosos 680 000 votos – resultado que lhe rendeu o título de deputada estadual mais votada de São Paulo. Filha de um caminhoneiro e de uma dona-de-casa que tiveram outros sete filhos, essa sergipana de 49 anos chegou de caminhão a São Paulo, aos 10 anos. Aos 17, quando tocava piano numa igreja batista, conheceu o cantor de ópera Adaulton Nimtz, pai de seus dois filhos, Ricardo, de 24 anos, e Maysa, de 21. Sim, porque, ao contrário do que reza a lenda, a doutora Havanir não é mulher de Enéas. "Todo mundo pergunta se ele é meu pai", diverte-se Ricardo, um publicitário descolado, que já chegou a dirigir um curta-metragem com Enéas. Depois que se elegeu vereadora, Havanir aderiu ao pacote completo das celebridades instantâneas: silicone nos seios, Botox na testa, lifting no rosto e plástica no nariz. "Cuido da minha sensualidade", justifica. No momento, mora com o marido num sobrado geminado, quase na periferia paulistana. Mas, em breve, a deputada eleita vai inaugurar novo estado civil (separada) e mudar-se com a filha para um apartamento no bairro de Pinheiros.

Havanir conheceu Enéas durante o curso de eletrocardiograma que fez em São Paulo, pouco antes de se formar em medicina em uma faculdade em Bragança Paulista (agora ela estuda para ser também advogada). Convidada pelo professor, candidatou-se, sem sucesso, em três eleições, incluindo uma para a prefeitura de São Paulo. Há dois anos elegeu-se vereadora e há cinco tornou-se vice-presidente do Prona. Sua luta pela reedificação da ordem nacional não inclui o combate ao nepotismo. Sua chefe de gabinete é a filha, Maysa, agraciada com um salário mensal de 7 000 reais.

Ricardo Valladares


 
 
   
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