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1 570 000 votos
Enéas,
eleito com votação recorde,
gaba-se da fama de conquistador
e ri de si próprio
Thaís Oyama
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Antonio Milena
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Enéas:
luta contra "plano diabólico" chega agora ao Congresso
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ELE E AS MULHERES
"Houve
um cidadão que disse: 'O Enéas, com aquela barba,
deve ter dificuldades para arranjar moças'. Deu-me
vontade de rir. Como ele é tolo, como ele é
tolo. Pensar que mulheres só olham para músculos,
desculpe, é diminuir muito as mulheres"
A
BARBA
"Sentei-me
para fazer o meu livro. Escrevi e escrevi sem parar. Um dia,
olhei no espelho e a barba estava lá. Gostei, sobretudo,
porque desvia a atenção. Deixaram de apontar-me
como 'aquele careca' e passei a ser 'aquele barbudo'"
VOTO CACARECO
"Aquele
senhor, que até hoje só fez greves, virou líder
popular. A senhora Benedita da Silva, que só sabe cozinhar,
tornou-se governadora. Então, eu pergunto: por que
nos perseguem tanto?"
HOMOSSEXUALISMO
"Não
tenho nada contra os homossexuais. Tenho contra a ovação
em torno do assunto, que tratam como sendo uma vitória
da civilização. É um desvirtuamento"
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Veja também |
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É
um espanto. O acreano Enéas Ferreira Carneiro, de 63 anos, foi
eleito deputado federal por São Paulo com 1,6 milhão de
votos, em números redondos. Com esse recorde, graças ao
critério de representação proporcional imposto pela
legislação, o barbudão conseguiu puxar para a Câmara
outros cinco candidatos de seu Prona, Partido de Reedificação
da Ordem Nacional. Um desses novos deputados está rindo à
toa: mudará para Brasília, como representante do Estado
mais populoso e rico do país, levando na bagagem apenas 275 votos
realmente seus. Em muitos conjuntos residenciais, essa quantidade não
daria para eleger o síndico. Enéas e o Prona são
fruto de uma distorção circunstancial e de uma característica
nacional. A distorção é do sistema político
brasileiro, que transformou a representação proporcional
em alavanca para agremiações parasitárias. A característica
é o deboche cívico o mesmo que, na época da
cédula de papel, "elegeu" um rinoceronte de zoológico, o
"Cacareco", vereador paulistano.
Mas vá alguém sugerir a Enéas que sua eleição
tem algo a ver com a propensão brasileira à zombaria. Ouvirá
em resposta adjetivos como "pacóvio", "pascácio" e "mentecapto"
os preferidos de um vasto arsenal de impropérios que ele
costuma proferir com expressão furibunda. Fúria amainada,
surge um Enéas bem diferente do carrancudo da televisão.
Fora do alcance das câmeras e do embate político, o fundador
do Prona gaba-se de ser um conquistador de corações femininos,
revela que não sai de casa sem passar perfume e não só
tem bom humor como é capaz de gargalhar de si próprio. Ele
aperta os olhos míopes de tanto rir quando conta sua piada preferida,
da qual é protagonista: uma nave extraterrestre aterrissou em Brasília.
Seu comandante, interessado em conhecer os problemas do planeta, exigiu
falar com o líder local. Fernando Henrique Cardoso foi até
sua presença, mas, depois de uma breve conversa, acabou dispensado
pelo ET: "Esse aí acha que está tudo bom", disse. Convocaram,
então, Luís Inácio Lula da Silva, que se viu igualmente
desprezado: "Esse acha que está tudo ruim". Alguém, então,
se lembrou de chamar Enéas. "Só que, quando me aproximei
da nave, saiu dela uma porção de etezinhos gritando: 'Papai,
papai!'."
Enéas é mesmo um ser de outro mundo. Ou alguém mais
neste planeta tem o hábito de dormir de calça e camisa sociais?
O ex-sargento do Exército, defensor ardoroso da ordem e da disciplina,
o faz: "Não gosto de pijama nem de calça curta", explica.
Antes de virar militar, o filho de um barbeiro e de uma dona-de-casa foi
ajudante de açougueiro e auxiliar de almoxarifado. Sustentado pelo
soldo de sargento, estudou na então Escola de Medicina e Cirurgia
do Rio de Janeiro e, na mesma época, cursou as faculdades de matemática
e física. Era um aluno brilhante e, dizem os amigos, já
naqueles dias um dom-juan para lá de competente. "Ele sempre foi
bom de conversa. Vivia embandeirado de mulheres", conta o ex-colega e
engenheiro Osório Alexandrino de Souza. Enéas não
esconde o orgulho: "Sempre gostei do sexo oposto. Sou um estudioso, um
entusiasta, um admirador do gênero e dou-me muito bem com
ele", garante. Tanto assim que até hoje não lhe faltou companhia
feminina nem mesmo na hora de tratar da barbona, cuidadosamente pintada.
"Tenho amigas, uma aqui, outra acolá, que me auxiliam nessa tarefa",
conta, entre risinhos.
Enéas
tornou-se um especialista em eletrocardiografia. Os cursos que dá
sobre o tema, hoje sua única fonte de renda, lotam nos primeiros
dias de matrícula. As aulas são cronometradas. Faz parte
da coleção de excentricidades do professor consultar compulsivamente
o relógio para que elas não comecem um minuto atrasadas
nem terminem um segundo além do previsto. Enéas arregimentou
boa parte do Prona entre seus pupilos. Dos fundadores do partido, quatro
são ex-alunos seus. O Prona nasceu em 1989 de um típico
diálogo que casais costumam ter na hora do jantar. A então
mulher de Enéas, a hoje subprocuradora-geral do Ministério
Público Militar, Adriana Lorandi, cansada de ouvi-lo vociferar
contra as desgraças do país, disse-lhe: "Se você tem
solução para tudo, por que não se candidata a presidente
da República?". Atípico foi o desfecho da conversa: o marido
achou que era uma boa idéia.
Concorreu pela primeira vez em 1989, quando os exíguos quinze segundos
a que tinha direito no horário eleitoral ajudaram-no a criar o
bordão mais bem-sucedido da propaganda política brasileira:
o Brasil inteiro ficou sabendo que o nome dele era Enéas. Em 1994,
terminou a corrida presidencial em terceiro lugar, com 4,6 milhões
de votos, à frente de Leonel Brizola e Orestes Quércia.
Caiu para a quarta posição na campanha de 1998, da qual
saiu praticamente reduzido à bancarrota. Já havia fechado
sua clínica de cardiologia e, em 1994, perdera o emprego de médico
da rede pública descobriu-se que contratava uma colega para
exercer a função que era sua.
Para agravar a situação, Enéas caiu em diversos contos-do-vigário.
"Ligavam de Rondônia, por exemplo, dizendo que queriam fundar um
diretório do Prona. O doutor Enéas mandava dinheiro, passagem
e o sujeito nunca mais aparecia. Ele confia demais nas pessoas", afirma
um de seus assessores. Resultado: dois carros, algumas jóias e
um apartamento em Ipanema viraram santinhos de campanha ou sumiram no
bolso de espertalhões. "Em treze anos de vida pública, perdi
tudo o que construí", diz ele. Hoje, seu patrimônio se resume
ao Monza 85 que dirige. O apartamento em que fica quando está no
Rio de Janeiro, no bairro de Laranjeiras, está no nome da ex-mulher.
Quando fala dela, Enéas chega a verter lágrimas. "Adriana
não suportou o processo infernal que é uma campanha. Foi
minha maior perda. Era uma esposa extraordinária." Foi sua última
mulher e a terceira de uma série. Com cada uma teve uma filha:
Janete, de 35 anos, funcionária do Itamaraty, Gabriela, de 30,
estudante de história, e Lígia, de 17, estudante de medicina.
A última campanha eleitoral custou-lhe 60.000 reais, tomados emprestados
em um banco. Somadas todas as aparições na TV, Enéas
teve nove minutos para apresentar suas idéias, baseadas na luta
contra um certo "plano diabólico" que, segundo ele, prevê
a destruição do Estado por meio de uma estratégia
que inclui a desmoralização das Forças Armadas e
o uso da imprensa para divulgar "só o que não presta". Dessa
forma, acredita, o povo ficaria convencido de que "o Estado não
serve para nada" e estaria aberto o caminho para a grande desgraça
que se avizinha: a entrega do patrimônio nacional aos articuladores
do tal plano diabólico, quem quer que sejam eles. Parece confuso?
Bem, Enéas Carneiro, o deputado federal mais votado da história
nacional, talvez tenha vindo para confundir, e não para explicar.
Com reportagem de Ronaldo França
| UMA
MULHER COM H MAIÚSCULO: HAVANIR |
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Fotos Antonio Milena
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Silicone,
Botox e plástica
no nariz: agora, ela vai trocar também a casa
(à dir.)
e o estado civil
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Havanir Tavares de Almeida Nimtz, a doutora Havanir do Prona,
é uma espécie de Enéas Carneiro de tailleur.
Assim como o médico, fala grosso, faz cara de brava
para as câmeras e exibe currículo político
inversamente proporcional à votação obtida
nessas eleições: no seu caso, foram estrondosos
680 000 votos resultado que lhe rendeu o título
de deputada estadual mais votada de São Paulo. Filha
de um caminhoneiro e de uma dona-de-casa que tiveram outros
sete filhos, essa sergipana de 49 anos chegou de caminhão
a São Paulo, aos 10 anos. Aos 17, quando tocava piano
numa igreja batista, conheceu o cantor de ópera Adaulton
Nimtz, pai de seus dois filhos, Ricardo, de 24 anos, e Maysa,
de 21. Sim, porque, ao contrário do que reza a lenda,
a doutora Havanir não é mulher de Enéas.
"Todo mundo pergunta se ele é meu pai", diverte-se
Ricardo, um publicitário descolado, que já chegou
a dirigir um curta-metragem com Enéas. Depois que se
elegeu vereadora, Havanir aderiu ao pacote completo das celebridades
instantâneas: silicone nos seios, Botox na testa, lifting
no rosto e plástica no nariz. "Cuido da minha sensualidade",
justifica. No momento, mora com o marido num sobrado geminado,
quase na periferia paulistana. Mas, em breve, a deputada eleita
vai inaugurar novo estado civil (separada) e mudar-se com
a filha para um apartamento no bairro de Pinheiros.
Havanir conheceu Enéas durante o curso de eletrocardiograma
que fez em São Paulo, pouco antes de se formar em medicina
em uma faculdade em Bragança Paulista (agora ela estuda
para ser também advogada). Convidada pelo professor,
candidatou-se, sem sucesso, em três eleições,
incluindo uma para a prefeitura de São Paulo. Há
dois anos elegeu-se vereadora e há cinco tornou-se
vice-presidente do Prona. Sua luta pela reedificação
da ordem nacional não inclui o combate ao nepotismo.
Sua chefe de gabinete é a filha, Maysa, agraciada com
um salário mensal de 7 000 reais.
Ricardo
Valladares
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