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O Congresso que
aguarda Lula ou Serra
Como
ninguém
tem maioria,
estará aberta a caça aos votos,
seja quem
for o eleito
Maurício
Lima

Veja também |
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Antes
do primeiro turno da eleição presidencial, ouviam-se com
freqüência duas críticas aos atuais adversários
sobre a relação que teriam com o Congresso Nacional. Dizia-se
que o petista Luís Inácio Lula da Silva não conseguiria
governar por falta de apoio parlamentar. Do tucano José Serra,
falava-se que não aglutinaria votos no Congresso por ser um político
desagregador e mau negociador. Pois bem. Com a nova composição
da Câmara e do Senado saída das urnas de 6 de outubro, há
uma conclusão inevitável. Lula ou Serra, seja quem for o
eleito, terá dificuldades adicionais de compor maioria no Congresso
com base no que aconteceu nos dois mandatos do presidente Fernando Henrique
Cardoso, cuja base de apoio abrigava cerca de 320 parlamentares. No cenário
mais otimista, as urnas deram a Lula uma bancada de 180 deputados e trinta
senadores. Para Serra, a situação ficou um pouco melhor:
220 deputados e 45 senadores. Mantida essa perspectiva, numa sessão
com plenário lotado, nem Lula nem Serra ganharam uma base numericamente
suficiente para aprovar o que quer que seja nem projeto de lei,
nem medida provisória, nem manutenção de um veto
presidencial, muito menos uma emenda constitucional.
Antonio Milena
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Ed Ferreira/AE
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O novo quadro político mostra que a partir de janeiro do ano que
vem, com a posse do novo presidente, estará aberta a temporada
de negociações com o Congresso Nacional. Trata-se de um
dado fundamental para a boa condução da administração
federal, já que no Brasil funciona o que os especialistas classificam
de um "presidencialismo de coalizão". Esse sistema resulta da hesitação
dos constituintes que fizeram a Constituição de 1988. Aprovaram
o regime presidencialista, mas com pitadas de parlamentarismo. Em regimes
parlamentaristas, o chefe de governo tem, por definição,
maioria no Congresso. Num regime presidencialista puro, como o modelo
dos Estados Unidos, o presidente tem ampla autonomia para governar, só
precisando recorrer ao Congresso quando entram em pauta temas de caráter
excepcional, como atacar o Iraque atropelando a diplomacia internacional.
No Brasil, há um misto de forças. O presidente, que nem
sempre tem maioria, e o Congresso, que nem sempre é governista,
precisam se entender sobre quase tudo desde uma relevante mudança
na Constituição até um simples reajuste salarial
do funcionalismo público , razão pela qual o regime
presidencialista brasileiro carrega ao lado a palavra "coalizão".
Nesse ambiente, Lula e Serra teriam pela frente uma missão dura,
mas não impossível. A soma aritmética pura e simples
dos aliados não projeta com exatidão como serão as
relações entre o Palácio do Planalto e o Congresso.
Hoje, um pedaço substancial do PMDB, partido oficialmente coligado
com os tucanos, não cerrará fileiras ao lado de um eventual
governo Serra. No caso de uma vitória de Lula, esse naco do PMDB
poderia votar a favor do PT. O PL, coligado com o PT, é um exemplo
contrário. Em suas fileiras, abriga parlamentares que votaram com
o governo Fernando Henrique em todas as questões fundamentais,
e é fácil supor que, se Serra ganhar, parte desses deputados
dará apoio a seu governo. Além disso, nada impede que os
chamados partidos independentes, como a cúpula do PTB se declarou
na semana passada, votem a favor das posições do Palácio
do Planalto, seja quem for o próximo presidente. "Não se
pode desprezar a força de atração que o governo exerce.
Se Serra ganhar, é provável que setores resistentes a sua
candidatura no PMDB, PFL e PPB esqueçam as diferenças. Se
Lula ganhar, é possível que o PL cresça com dissidentes
de outros partidos", especula Fernando Abrucio, cientista político
da Fundação Getúlio Vargas.
Há vários mecanismos para formar maioria no Congresso e,
entre eles, um dos principais está na escolha acertada dos operadores
do governo dentro do Parlamento. O operador do governo tem a tarefa de
colher o voto dos indecisos e independentes e precisa ter bom trânsito
com os grandes caciques do Congresso. Há parlamentares que, sozinhos,
equivalem a um partido de porte médio. O senador Antonio Carlos
Magalhães, que volta a Brasília embalado por 3 milhões
de votos, tem quase trinta deputados sob seu controle mais que
a bancada do PDT. O governador eleito de Minas Gerais, Aécio Neves,
é outro que influencia, pelo menos, quarenta deputados mais
que a bancada do PTB. A outra estratégia, sempre criticada mas
nunca renegada, são a liberação de dinheiro e a concessão
de cargos. Trata-se de uma prática condenável, porém
amplamente usada. Um experiente ex-secretário-geral do Palácio
do Planalto informa que cerca de 200 deputados pedem favores ao governo
na hora de uma votação importante. Destes, 160 fazem pedidos
apenas para aproveitar a ocasião, mas quarenta mudam o voto diante
da receptividade do governo a seus pleitos. "Um deputado chega a Brasília
com seis assuntos sobre os quais ele é muito a favor. Em outros
seis, ele é muito contra. O resto ele usa como margem para negociação",
descreve o ex-auxiliar do Planalto.
Antonio Milena
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Gilberto Alves
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Outro dado que pode facilitar um pouco a vida do futuro presidente é
o fato de que as críticas que se ouvem a respeito de Lula e Serra
são fruto de desinformação ou eivadas de partidarismo.
Serra até pode não despertar simpatia pessoal nos políticos,
mas ele sabe negociar e aglutinar votos. Na Constituinte, empenhado em
defender suas idéias, tornou-se o deputado mais produtivo, aprovando
130 emendas de sua autoria. No Ministério da Saúde, travou
batalhas vitoriosas contra laboratórios e fabricantes de cigarro,
coisas que não faria se não tivesse o devido jogo de cintura.
Também é um equívoco julgar que o PT de Lula não
sabe governar sem maioria. Além de ter feito a maior bancada na
Câmara dos Deputados, o PT tem mostrado talento para atrair a oposição
na maior parte das prefeituras e dos governos que administra. No governo
gaúcho, em que a disputa entre petistas e oposicionistas é
dramática, o PT conseguiu aprovar até bandeiras de campanha,
como o seguro agrícola e a criação de uma universidade
estadual. O governo de Zeca do PT, em Mato Grosso do Sul, também
aprovou leis com o apoio da oposição. "O PT vem aprendendo
muito com essas experiências e certamente repetirá esse comportamento
de negociação se ganhar a eleição presidencial",
diz Benedito Tadeu César, cientista político da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul. Afinal, não existe outro caminho
qualquer que seja o futuro presidente.
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O
CACIQUE DA ESQUERDA
Desde sua fundação, o Partido dos Trabalhadores tem
percorrido uma trajetória ascendente no espaço político
nacional, mas na eleição de domingo passado a legenda
se consolidou numa posição única: é
absolutamente hegemônica no campo da esquerda brasileira.
Na sucessão presidencial, cinco partidos de esquerda e centro-esquerda
lançaram candidato ao Palácio do Planalto e
o PT, com Luís Inácio Lula da Silva, teve mais votos
que todos os outros juntos. Foram 39,4 milhões contra 25,8
milhões. Diante desses números, pode-se suspeitar
que a aliança com o PL trouxe votos que, sozinho, talvez
o PT não obtivesse. Mas, examinando-se o resultado das eleições
proporcionais, constata-se que o PT exibe uma musculatura vitaminada
nas urnas. Os petistas conseguiram aumentar sua representação
na Câmara dos Deputados, passando de 58 para 91 cadeiras.
Com esse desempenho, o partido terá, pela primeira vez, a
maior bancada da Câmara, desbancando PMDB e PFL e habilitando-se,
assim, a reivindicar o direito de colocar um petista na presidência
da Casa.
A
hegemonia petista na esquerda brasileira começou a ficar
visível nas eleições presidenciais de 1989,
quando Lula venceu o pedetista Leonel Brizola e ganhou o direito
de disputar o segundo turno. Naquela época, porém,
o PT elegera 35 deputados, enquanto as demais legendas de esquerda
tinham quase o dobro de parlamentares. De lá para cá,
essa relação foi lentamente se invertendo em favor
dos petistas. Boa parte desse sucesso se deve a uma estratégia
simples, mas eficiente. Desde sua fundação, o PT sempre
fez questão de disputar eleições municipais
e estaduais com candidatos do próprio partido. A tática,
no início, levou o PT a ser freqüentemente acusado por
seus aliados naturais de ter pretensões hegemônicas
e era exatamente isso. Com um petista na cabeça de
chapa, o partido garantia visibilidade a seus quadros e reforçava
seu desempenho nas eleições seguintes, pois o candidato
a prefeito derrotado de hoje sempre pode ser o deputado estadual
eleito de amanhã.
Além das táticas eleitorais, a gênese singular
do PT também ajuda a entender como o partido virou o cacique
da esquerda. Dos sete partidos de esquerda existentes hoje no Brasil,
o PT é o único que não nasceu como caudatário
ideológico de outras correntes. "Há 22 anos, quando
foi fundado, o PT conseguiu reunir num único partido a esquerda
de origem cristã, intelectuais de influência marxista
e operários de base", descreve a cientista política
Maria Victoria Benevides, da Universidade de São Paulo. "Essa
mistura ajudou muito o partido." Com essa amplitude, a legenda mais
tarde deu origem à CUT, hoje a maior central sindical do
país, cravando uma estaca de supremacia em seu próprio
berço, o movimento sindical. E, por meio das comunidades
eclesiais de base, criadas durante a ditadura pela ala progressista
da Igreja Católica, estendeu seus tentáculos para
as regiões mais remotas do país, evitando tornar-se
um partido exclusivamente urbano. Com isso, conseguiu implantar
o projeto original de criar algo como um "partido de massas"
e hoje, mais pragmático que nunca, virou potência parlamentar.
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