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Edição 1 773 - 16 de outubro de 2002
Eleições 2002

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Aécio une Minas
e mira o Planalto

Ao lado de Tasso e Alckmin, o neto
de Tancredo Neves passa a ser uma
das lideranças nacionais dos tucanos


André Brant
Fotos álbum de família
mília
mília
Imitando o que Tancredo Neves fez há vinte anos, Aécio começou e terminou sua campanha rezando na igrejinha da Serra da Piedade, na Caetés. Acima: com a família, no batizado da irmã Ângela, de caubói aos 5 anos e como secretário particular do avô, em 1983


Veja também
Nesta edição
Barrados pelas urnas
O jogo das alianças
O Congresso que aguarda Lula ou Serra
1 570 000 votos
Na internet
Noticiário diário no site Eleições 2002

Das treze vitórias em primeiro turno para governador nas eleições de domingo passado, a de Minas Gerais tem o maior significado. Vinte anos depois que Tancredo Neves se elegeu governador de Estado e iniciou uma arrancada rumo à Presidência da República, seu neto, o tucano Aécio Neves da Cunha, 42 anos, chegou a essa que parece também para ele uma plataforma para vôos de amplitude nacional. Aécio ganhou as eleições no primeiro turno com mais de 5 milhões de votos e com uma vantagem estonteante de 2,4 milhões sobre o segundo colocado, Nilmário Miranda, do PT. Com Aécio no governo, Minas Gerais volta ao centro de gravidade da política nacional, que perdera com Itamar Franco. Popular em seu Estado e visto por alguns como candidato viável à Presidência, Itamar, no final das contas, graças a seu temperamento ácido, diminuiu o peso do Estado na política brasileira. Com Aécio no Palácio da Liberdade, reabre-se a autopista que já levou oito mineiros à Presidência do Brasil. O feito de Aécio em Minas tem a marca da conciliação, a modalidade de engenharia política criada pelos políticos mineiros e elevada à condição de arte por Tancredo Neves. Aécio costurou uma aliança com dezesseis partidos. Sua candidatura foi apoiada por cinco ex-governadores do Estado – Rondon Pacheco, Aureliano Chaves, Francelino Pereira, Hélio Garcia e Eduardo Azeredo –, além da surpreendente adesão do atual, Itamar Franco. Já nos primeiros dias de campanha, mais de 100 prefeitos do PMDB deixaram o dinossauro Newton Cardoso a contar seus milhões e se bandearam para debaixo das asas do tucano Aécio. Arco tão amplo inspirou a piada do colunista José Simão, do jornal Folha de S.Paulo, que batizou a aliança mineira de "sofá da Hebe", pois conseguiu abrigar "Lula, Serra, Itamar, FHC, e todo mundo é uma gracinha!".

Com isso, Aécio Neves torna-se, automaticamente, uma das mais destacadas lideranças do PSDB no país, ao lado de Tasso Jereissati, que conquistou com facilidade uma cadeira no Senado. Fernando Henrique encerra seu mandato em janeiro. José Serra tem o desafio das urnas em 27 de outubro. Em São Paulo, o duelo final ficará entre o atual governador, Geraldo Alckmin, e o petista José Genoíno, que, numa virada de última hora, tirou a vaga de Paulo Maluf – cujo nome, durante boa parte da campanha eleitoral, chegou a aparecer na liderança das pesquisas. Se vencer, o que parece altamente provável, Alckmin formará ao lado de Aécio e Tasso a linha de frente da geração tucana com ambições de chegar ao Planalto em eleições futuras. Aécio foi mochileiro na Europa e surfista no Rio de Janeiro antes de ser convocado por Tancredo para ajudá-lo na campanha ao governo de Minas em 1982. Visitou mais de 300 cidades ao lado do avô e houve entre ambos uma empatia política superior até aos laços de família. "Ao final da campanha, o doutor Tancredo não tinha mais dúvida de que Aécio teria um belo futuro político", diz Antônia Gonçalves Araújo, a poderosa secretária particular de Tancredo Neves. O neto de Tancredo esmagou os adversários também pela biografia impressionante que apresenta aos 42 anos de idade. É presidente da Câmara dos Deputados, em que administra um orçamento de 1,6 bilhão de reais e enquadrou os colegas numa disciplina rigorosa de votações que nunca se viu na casa em tempos de democracia plena. A vitória de Aécio une a política velha dos conchavos com a riqueza logística e a força do marketing das campanhas atuais.

Dos treze governadores vitoriosos em primeiro turno, quatro foram reeleitos – Jarbas Vasconcelos, de Pernambuco, Ronaldo Lessa, de Alagoas, o goiano Marconi Perillo e o petista Jorge Viana, do Acre. Outros quatro foram apoiados pelos atuais governadores – Paulo Souto, da Bahia, José Reinaldo, do Maranhão, Marcelo Miranda, do Tocantins e Eduardo Braga, do Amazonas. Apenas três venceram contra a vontade do esquema de governo atual. São eles Blairo Maggi, de Mato Grosso, Paulo Hartung, do Espírito Santo, e Wellington Dias, petista que surpreendeu no Piauí. Aécio e Rosinha Garotinho são casos híbridos. O mineiro foi apoiado por Itamar, mas concorreu contra o vice Newton Cardoso, que efetivamente controlava a máquina governamental. No Rio de Janeiro, Rosinha fez campanha de oposição à governadora Benedita da Silva, mas herdou o peso das realizações executivas do marido, Anthony Garotinho, o governador eleito que se licenciou no começo do ano para concorrer à Presidência. A presença majoritária entre os vitoriosos de governadores reeleitos ou apoiados pelo esquema de poder mostra que a influência da máquina estatal no resultado das eleições não é desprezível. Mas o controle dos cargos em um Estado não explica tudo. Paulo Souto elegeu-se na Bahia em primeiro turno, tornando-se o quinto governador consecutivo ligado ao cacique Antonio Carlos Magalhães. A conclusão é clara: se a máquina ajuda os aliados de ACM, o que pesa mesmo é sua popularidade na Bahia. O velho político é considerado eficiente em sua terra natal porque ele e seus seguidores fizeram grandes administrações.

A influência da máquina tornou-se mais central depois que o Brasil adotou a reeleição, em 1998. A questão é que qualquer ocupante de cargo no Poder Executivo é obrigado a se afastar seis meses antes – a menos que esteja concorrendo à reeleição. Com isso, criou-se uma realidade esquizofrênica. Anthony Garotinho, por exemplo, teve de deixar o governo do Rio de Janeiro para disputar a Presidência. Teria de fazer o mesmo caso quisesse concorrer a deputado ou a senador. Mas, se fosse candidato à reeleição no Rio, Garotinho não precisaria afastar-se. Por isso, os governadores que estão no poder concorrem no exercício do cargo – e todos, na campanha, exploraram ao máximo a visibilidade que o posto lhes proporciona. De 6 de julho para cá, a lei eleitoral proibiu que os governadores inaugurassem obras públicas, como forma de evitar um desequilíbrio na campanha. Até essa data, portanto, muitos candidatos à reeleição entraram numa atividade frenética, aproveitando quanto puderam para cortar fitas e descerrar placas. O governador Jarbas Vasconcelos chegou a inaugurar três estradas num único mês. O governador de Mato Grosso do Sul, José Orcirio Miranda, conhecido como Zeca do PT, apareceu o máximo que pôde e até posou para fotos ao lado de tribos indígenas.

As urnas de domingo passado confirmaram também o predomínio regional de alguns políticos. Um cacique regional que mostrou músculos foi o governador Siqueira Campos, do PFL do Tocantins. Saiu fortalecido com a eleição de seu candidato, Marcelo Miranda, com larga margem de vantagem. O Tocantins, Estado criado catorze anos atrás, está há dez sob o comando de Siqueirão. Ficará mais quatro anos sob sua influência. No Maranhão, onde a família Sarney comanda o espetáculo político há décadas, a situação se manterá como há décadas. O candidato do clã, o pefelista José Reinaldo Tavares, acabou se elegendo no primeiro turno na eleição mais tumultuada do país. Nas urnas, o pefelista não atingiu metade mais 1 dos votos válidos. Mas a Justiça Eleitoral aceitou a impugnação da candidatura de outro postulante ao governo – e, assim, José Reinaldo chegou ao patamar necessário para eleger-se já no primeiro turno. Um dia antes da eleição, a exemplo do que ocorreu com Roseana Sarney, flagrada com 1,3 milhão de reais em dinheiro vivo no cofre de uma empresa da família, José Reinaldo viu-se no meio de acusação parecida. A polícia apreendeu 371 000 reais que estavam sendo embarcados num avião fretado por assessores do então candidato. A suspeita é que o dinheiro seria usado na compra de votos, mas assessores do governador eleito garantem que era destinado a bancar gastos com a fiscalização da apuração. Os eleitores maranhenses ignoraram as evidências. José Reinaldo está no governo.

 
 
   
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