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Edição 1 773 - 16 de outubro de 2002
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Nada de buzinaço

"Vi muita gente comemorar a derrota
de Maluf, Quércia, Collor, Brizola. Todo
mundo está muito feliz, muito otimista.
Mas sempre aparece um filho, um neto
ou um sobrinho para perpetuar os
enganos de seus antepassados"

Aos 23 anos, ACM Neto tornou-se o deputado federal baiano mais votado de todos os tempos. Ele é filho do senador ACM Junior. O qual, por sua vez, é filho do ex-governador e senador eleito ACM. Almocei com o velho ACM, cerca de dez anos atrás. Acho que fui o único jornalista até hoje que saiu de um encontro com ACM sem nenhuma anedota para contar. Eu me aborreci, ele se aborreceu. A modorra só foi interrompida por um breve instante, quando ele me congratulou por uma resenha em que debochei de um romance de seu amigo José Sarney. A campanha eleitoral de ACM Neto foi caracterizada pelo apoio de artistas como Elis, o Terrível, e pela multa que recebeu por uma placa de propaganda irregular na Avenida ACM. Depois de eleito, ACM Neto traçou ambiciosos planos para o futuro: "Como tenho um dom para a oratória, sempre que possível estarei na tribuna".

Outro membro de família ilustre que irrompeu na vida pública nacional foi Ratinho Júnior. Na história do Paraná, nunca houve um deputado estadual com tantos votos quanto ele. Como o apelido indica, Ratinho Júnior é filho do ex-deputado federal e apresentador televisivo Ratinho. Que também foi seu maior cabo eleitoral e financiador. O comício de encerramento da campanha, animado pelo cantor Daniel, incluiu até um alegre tiroteio, com um eleitor baleado nas costas. Aos 21 anos, Ratinho Júnior promete prosseguir na carreira política: "Meu plano é ser governador, em dez ou quinze anos".

Em Mato Grosso do Sul, o recordista de votos para deputado federal foi Vander Loubet. Ele é sobrinho do governador Zeca do PT. Num primeiro momento, sua candidatura foi impugnada por causa de um episódio envolvendo uma carteira de motorista falsificada. Poucos anos atrás, ele foi também acusado de participar de um esquema de desvio de verbas do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e de oferecer 53 cargos no governo estadual a um grupo de empresários de Campo Grande, em troca de apoio financeiro. O acordo chegou a ser assinado por Loubet e registrado em cartório. O governador Zeca do PT creditou o fato à "inexperiência" do sobrinho.

Vi muita gente comemorar a derrota eleitoral de caciques da política como Maluf, Quércia, Collor, Brizola, Newton Cardoso e Gilberto Mestrinho. Na imprensa, os editorialistas mais comedidos celebraram o "amadurecimento do eleitorado", enquanto os mais hiperbólicos afirmaram que o "eleitor é sábio" e que o "Brasil deu motivos para entusiasmo". O próprio presidente Fernando Henrique Cardoso atribuiu-se os méritos pela mudança: "Graças ao meu estilo de governar, as oligarquias foram perdendo centralidade na política". Ou seja, todo mundo está muito feliz, muito otimista. Como eu desconfio de gente muito feliz e otimista, sobretudo no que se refere a políticos e editorialistas, recordo que deputados, senadores, governadores e presidentes sempre conseguem ser mais desastrosos do que as expectativas. E que sempre aparece um filho, um neto ou um sobrinho para perpetuar os enganos de seus antepassados. Se o voto do último domingo renovou sua fé no futuro, e você saiu buzinando estupidamente pelas ruas para festejar a vitória esmagadora de seu candidato, saiba que irá quebrar a cara. Da próxima vez, abstenha-se.

 
 
   
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