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Sérgio
Abranches
O
povo sabe votar
"O
brasileiro levou para o segundo turno
da eleição presidencial dois candidatos
com vida partidária consistente e
coerente e que têm por trás de si
partidos estruturados"
Brava
gente, a brasileira. Tratou de melhorar a política no voto, que
dizem deseducado e manipulável. Essa gente sabe votar: levou para
o segundo turno, sábia e democrática precaução,
os dois candidatos que lhe pareceram mais apropriados. E são. Os
dois têm por trás partidos estruturados, ambos exibem vida
partidária consistente e coerente: Lula, fundador do PT; Serra,
fundador do PSDB. Agora o eleitor poderá confrontar apenas os dois
e escolher o que julgue mais qualificado para as graves e complexas funções
de presidente.
Essa gente está erradicando as velhas oligarquias políticas.
Aqui e ali, tropeçou e deixou de demitir quem há muito merecia
deixar a política nacional. Mas uma breve lista das ausências
forçadas permite ver que a política brasileira ficou melhor.
Orestes Quércia, Paulo Maluf, Celso Pitta, Newton Cardoso, Gilberto
Mestrinho, Eurico Miranda, Fernando Collor, Iris Resende, Maguito Vilela
e tantos outros foram dispensados pelo voto justo do povo. Que bela espanada
no pó das oligarquias, que queriam perpetuar relações
de clientelismo e mandonismo em pleno século XXI.
No Nordeste, a varrida cívica se fez em grande parte pelo voto
no PT, que segue o sindicalismo, hoje centrado no funcionalismo. A primeira
parada do trem do progresso é o rompimento dos laços de
lealdade entre o funcionalismo e o coronelato. Verdade seja dita: FHC,
principalmente pelo trabalho de Ruth Cardoso, Vilmar Faria, José
Serra e Paulo Renato, reduziu drasticamente o populismo na área
social. Os ministérios da Saúde e da Educação
eram, historicamente, prendas para oligarquias poderosas na formação
das coalizões de governo. Durante o período 1945-1964 foi
assim. No regime militar, esses ministérios eram usados para cooptar
e premiar aliados civis por serviços prestados. Sarney não
fez por menos. Itamar tampouco. Nos anos FHC, as máquinas foram
descentralizadas; a descentralização, controlada por conselhos
comunitários; os recursos, repassados por meios automáticos.
Prefeituras ganharam autonomia para administrar sem entraves políticos
as verbas federais.
A Lei de Responsabilidade Fiscal promoveu uma revolução
moralizadora: acabou com o empreguismo e a manipulação salarial
no serviço público como moeda política. Tirou dos
coronéis boa parte do poder de mandar e desmandar nas listagens
do Diário Oficial. Foi, por exemplo, nas fissuras da oligarquia
cearense dividida que Fortaleza elegeu sua primeira prefeita, petista
ainda por cima, lá se vão os anos. Depois vieram, na cadeia
de evolução, Tasso Jereissati e Ciro Gomes. Mas não
foi só o voto no PT que cercou as oligarquias: deputados eleitos
pelo PSDB e pelo PPS também são parte da renovação
da política brasileira.
Da nova bancada vitaminada do PT, 48% vêm do Norte, do Nordeste
e do Centro-Oeste. A bancada nordestina tem 76% de sangue novo. A do Centro-Oeste,
88%; e a do Norte, 70%. No Sudeste, os neo-eleitos do PT são 30%
dos novos petistas, mas apenas 46% da bancada regional.
Há preconceito na caracterização do voto em Enéas
como um voto "cacareco". Não tenho nenhuma simpatia pela extrema
direita, mas não creio que toda a sua votação tenha
tido essa inspiração. E ainda que tivesse tido, eleito,
ele possui legitimidade para ocupar sua cadeira. Absurdo foi ter elegido
os "sem-voto" do Prona. Mas não é culpa do voto proporcional,
como se andou dizendo por aí, e sim da maneira de calcular a proporcionalidade,
baseada na fórmula do matemático Victor d'Hondt. Ela deixa
um excesso muito grande, e uma votação como a de Enéas,
depois de lhe dar a quantidade necessária para se eleger, "sobra"
para irrigar de votos candidatos de outra forma inférteis. A fórmula
do também matemático André Sainte-Laguë promove
maior proporcionalidade e exige mais votos para eleger o primeiro deputado.
Não deixa sobras tão grandes que permitam esse tipo de distorção.
Correção técnica, simples, democrática e que
dispensa uma grande reforma política.
Também não vejo nos votos para Lula, Garotinho e Ciro atitudes
só de oposição ou repúdio a tudo isso que
aí está. Os avanços e os percalços do Brasil
na segunda metade dos anos 90 do século passado não foram
debatidos. Esses votos expressam uma campanha na qual os candidatos não
mostraram sua cara por inteiro. Principalmente Lula e Serra.
O Brasil não está pior hoje do que dez anos atrás.
Está melhor. Está, sim, pior do que dois anos atrás,
e parte da culpa é da conjuntura mundial. E tudo pode piorar muito.
O segundo turno é o momento democrático de ampliar o debate,
torná-lo mais franco, para que os candidatos se revelem por inteiro
ao Brasil cheio de medos, dúvidas e esperanças, mas um Brasil
que sabe votar.
Sérgio Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)
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