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Líderes, precisa-se.
(Ou não se precisa?)
No mundo
de hoje, sobram incertezas
tanto quanto faltam lideranças. Por quê?
O mundo pega fogo,
e ninguém se apresenta para apagá-lo. Onde estão, nos
dias que correm, os Franklin Roosevelt? Os Churchill? Por
que não há líderes como antigamente? Enquanto a
turbulência da economia mundial crescia, na semana
passada, os presidentes Bill Clinton, dos Estados Unidos,
e Boris Ieltsin, da Rússia, duas peças-chave na atual
barafunda, apresentavam-se em estado penoso, ambos
desacreditados em seu próprio país e até ameaçados de
destituição. No Japão, espera-se do novo
primeiro-ministro, Keizo Obuchi, a mesma insignificância
dos antecessores. Na Alemanha, o chanceler Kohl arrisca
perder a eleição do próximo mês. Faltam líderes
tanto quanto sobram incertezas, eis um comentário comum
nestes dias. O assunto foi objeto de um artigo do jornal The
New York Times, assinado por seu correspondente no
Japão, Nicholas D. Kristof, e reproduzido no Brasil pelo
jornal O Estado de S. Paulo. O artigo começava
citando a crença de que "tempos extraordinários
produzem líderes extraordinários" e perguntava:
"Se for assim, onde estão eles agora?" Vai-se
considerar a questão, nesta página, com base em três
balizamentos: 1) precisa-se mesmo de líder?; 2) por que
não há líderes como antes?; e 3) que é um líder?
Precisa-se mesmo de
líder? Nem sempre, e nem em todo lugar. No livro A
Era da Incerteza, o economista John Kenneth Galbraith
cita a Suíça como país que tanto prescinde de líderes
que raras pessoas, mesmo entre os próprios suíços,
sabem o nome do presidente de plantão. Galbraith
reconhece, porém, que o exemplo suíço não serve para
qualquer um e conta um episódio que presenciou nos
Estados Unidos, em 1967, como ilustrativo de um momento e
um lugar em que se necessitou de um líder. Crescia o
envolvimento americano no Vietnã, e com ele o
desconforto da população. Nisso um senador pouco
conhecido, Eugene McCarthy, assumiu a bandeira do fim da
guerra e, numa de suas primeiras iniciativas, promoveu
uma reunião no Estado de Vermont. Esperava-se o
comparecimento de poucas pessoas. "Quando lá
chegamos, toda a área estava cheia", escreve
Galbraith. Foi surpreendente. "O povo realmente
esperava por uma liderança, qualquer tipo de liderança,
na questão do Vietnã." Como nem todos os lugares
são ricos e pacíficos como a Suíça, vá lá que se
precise de líderes, mas com duas ressalvas. Primeira:
nem só para o bem eles existem. Líderes foram também
Hitler e Stalin. Segunda: quanto mais forte o líder,
mais fracos serão o Parlamento, os partidos e,
eventualmente, a democracia.
Por que não há
líderes como antes? Porque não há guerra nem
revolução, em primeiro lugar. Por mais que uma crise
como a atual seja descrita com vocabulário guerreiro
("a batalha do desemprego", "ataque
especulativo") e produza baixas, não é como uma
conflagração armada historicamente, a
oportunidade por excelência dos líderes. Em segundo
lugar, porque o jornalismo, nas últimas décadas, no
Ocidente, perdeu o respeito pelo poder. Os líderes não
eram só protegidos, mas divinizados, pela imprensa.
Roosevelt podia ter seus casos amorosos sob o teto
sagrado da Casa Branca, como de fato teve, que não seria
denunciado. Ao contrário, seria tratado sempre como
pessoa acima dos mortais comuns. Hoje a imprensa elegeu
como missão mostrar os líderes, ou supostos líderes,
tão fracos e vulneráveis ou mais quanto
os liderados. Em terceiro lugar, porque o poder é hoje
mais pulverizado. O Estado divide-o com empresários,
sindicalistas, multinacionais, ONGs, blocos regionais e
outros focos de poder paraestatais. São, todos os
fatores alinhados, em princípio positivos, embora, numa
situação de crise, possam funcionar como emperradores
de decisões.
Que é um líder?
Voltemos a Galbraith, no livro citado. Líder, diz ele,
é o dirigente que, inequivocamente, assume a causa que
julga adequada. Aí estaria "a essência da
liderança". Com toda sua singeleza, a definição
é atraente, para começar, porque esvazia o conceito de
liderança de qualquer conteúdo místico. Não lhe
atribui virtudes sobrenaturais. Mas mais atraente fica
quando Galbraith diz o que um líder não deve ser. Não
deve ser alguém que diz: "Sou pela paz, mas não ao
preço da fraqueza". Ou: "A miséria deve ser
eliminada, mas sem onerar o contribuinte". Ou:
"Luto pela distribuição de renda, mas sem
interferir no lucro das empresas". Aos exemplos do
autor podem ser acrescentados outros: "Sou pela
austeridade, mas sem exigir sacrifícios da
população". O que estraga, está visto, é o
"mas". Percebe-se, agora, o valor do advérbio
"inequivocamente" com que Galbraith une o
líder e sua causa. Líderes, em resumo, não podem ser
tatibitates. Num tempo em que se governa com um olho nos
problemas e outro nas pesquisas de opinião, às vezes
mais nestas do que naqueles, e em que reina, entre os
políticos, a compulsão de agradar a todos, líderes,
nesse sentido de Galbraith, são, sim, necessários.

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