Para ver e ler

Dois volumes que combinam informação visual e texto

Se existe um escritor brasileiro a quem se aplica o chavão do "ilustre desconhecido", esse escritor é Valêncio Xavier. Ilustre porque alguns dos críticos mais festejados do país, como Boris Schnaiderman, Flora Sussekind, Wilson Martins e Décio Pignatari, já afirmaram e reafirmaram seu valor e sua capacidade de inovar. Desconhecido porque até o presente momento ele não havia escapado do circuito das editoras independentes. Uma anedota típica de sua trajetória ocorreu em 1985, quando tentava lançar a novela O Minotauro. Xavier fez o périplo das editoras estabelecidas, mas não conseguiu interessar a nenhuma. Finalmente, o dono de uma gráfica concordou em dar-lhe uma mão. "Mas mesmo esse homem quis voltar atrás e tirar seu nome da capa quando viu o livro pronto", contou o autor em entrevistas na época. "Achou que se tratava de uma obra pornográfica." Na verdade, O Minotauro combinava, de maneira sutil, elementos da cultura clássica (o mito grego em que o herói Teseu e a princesa Ariadne procuram escapar do labirinto habitado por um monstro de corpo humano e cabeça de touro) e flashes da mais sórdida realidade urbana (o homem que, sem dinheiro para pagar a prostituta, tenta abandoná-la no meio da noite, mas se perde nos corredores escuros do hotel). Mais que isso, o livro traz a marca registrada de Xavier: a íntima associação entre textos e imagens, em páginas que devem ser tanto vistas quanto lidas.

Aos 65 anos, porém, o paulistano radicado em Curitiba Valêncio Xavier finalmente está ganhando a edição que merece. O Mez da Grippe e Outros Livros (Companhia das Letras; 328 páginas; 27 reais) reúne cinco de seus trabalhos, entre eles o já mencionado O Minotauro. O mais importante é o que dá nome ao livro. Escrito em 1981, O Mez da Grippe é uma colagem engenhosa de gravuras, publicidades, manchetes e reportagens dos jornais curitibanos de 1918, durante a epidemia de gripe espanhola. Três enredos vão sendo entretecidos. Em primeiro plano, é claro, há episódios da cidade doente. Depois, menções à I Guerra Mundial, que chegava ao término. Além disso, existe uma espécie de historieta oculta, com elementos eróticos e macabros. A única coisa que fica de fora mesmo é a prosa convencional. O leitor, no entanto, logo consegue perceber os contornos de uma narrativa, que é preciso ir montando e remontando à medida que se avança.

A literatura visual, na qual Xavier é hábil, não representa uma novidade para os leitores brasileiros. Entre 1994 e 1996, os livros do ilustrador canadense Nick Bantock, que contavam histórias "adultas" por meio de cartões-postais, desenhos e fotos, foram parar na lista de mais vendidos brasileira. O sucesso foi tão grande que uma discípula de Bantock, a também canadense Barbara Hodgson, acaba de ter um livro lançado aqui: O Sensualista (tradução de Felipe Lindoso e outros; Marco Zero; 297 páginas; 39 reais). Encadernado em capa dura, com uma trama que pretende ser de mistério, o livro de Barbara é um luxo só, mas não se pode negar que é tímido, se comparado às ousadias de Valêncio Xavier. Pelo menos neste caso, o similar nacional supera a versão estrangeira.

C.G.




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