Esporte

Desastre no mar

Atropelado por uma lancha, o campeão
de iatismo Lars Grael perde uma perna

Ronaldo França, de Vitória


Grael é levado do Iate Clube de
Vitória para o hospital: escapando
da morte por um fio
  Foto: Antonio Milena

Eram 3 horas da manhã da segunda-feira dia 7 quando o iatista Lars Grael, 34 anos, acordou na UTI da Clínica da Enseada, em Vitória, no Espírito Santo. Terminava o efeito da anestesia de uma cirurgia que durou cinco horas. Quis olhar para baixo, mas os tubos dos equipamentos em sua boca e nariz não permitiram. Grael tentou apalpar a perna direita. Não a encontrou. Sem poder falar, lançou à médica Eliane Caser, que esteve a seu lado nas 48 horas que permaneceu naquele hospital, um olhar que ela descreveu como "assustado". Aflito, balançava a cabeça num sinal de indagação e, com os olhos, indicava o local onde sua perna deveria estar. A médica aproximou-se de sua cabeceira. "É a sua perna?", perguntou Eliane. Ele fez que sim com a cabeça. "Você sabe que sofreu um acidente com uma lancha?", insistiu ela. Lars confirmou. "Pois é, você machucou sua perna direita", avançou. O iatista sinalizou que prosseguisse. "Você perdeu sua perna. O importante é que está vivo. Chegou aqui em estado muito grave. Agora você tem de ser forte."

Campeão mundial, duas vezes ganhador da medalha de bronze olímpica, Lars Grael era o convidado de honra e principal atração da 44ª Regata Taça Cidade de Vitória. No dia 6, quando se preparavam para o início do segundo dia da competição, fazendo o reconhecimento da raia a bordo de seu barco, Lars e seu primo Anders Schmidt foram abalroados pela lancha Laguna-L, do empresário Carlos Guilherme de Abreu e Lima, 29 anos. Segundo Anders, ao ouvir o barulho da lancha vindo em sua direção, Lars chegara a perguntar se o piloto não os estaria vendo. Anders pulou do barco a tempo. Lars foi derrubado na água, sugado pelo movimento da hélice e teve sua perna direita ceifada na parte superior da coxa. A operação de salvamento foi rápida. Lars foi levado para o iate clube e colocado numa ambulância. O médico João Alípio, que pouco antes desistira de participar da regata, seguiu com ele a caminho do hospital, apertando com os dedos a artéria femural que pendia da coxa amputada, por onde jorrava sangue. Quando chegaram, a pressão arterial do iatista já era zero. Lars perdera 4,5 dos 5 litros de sangue que possui um indivíduo de seu porte.

Carlos Guilherme,
o atropelador:
alcoolizado e
sem habilitação
Fotos: Paulo Jares  

Tecido necrosado — Desde o dia do acidente até a sexta-feira foram feitas várias cirurgias e limpezas no local em que a perna foi decepada para retirar tecido necrosado. Se o corte tivesse acontecido alguns centímetros acima na coxa, as conseqüências seriam muito mais graves para Lars. Nesse caso, ele teria de usar uma prótese na anca, o que limitaria ainda mais seus movimentos futuros. Essa foi a boa notícia que a família recebeu na semana passada, no Hospital Albert Einstein, para onde foi transferido: o coto que sobrou do acidente permite que ele venha a usar uma prótese só na perna. Na sexta-feira, segunda boa notícia: Lars pôde-se livrar dos aparelhos de respiração artificial.

Acostumada a conquistas esportivas, a família de Grael teve de superar não só a dor pela mutilação do caçula de três irmãos campeões do iatismo como uma constrangedora troca de acusações com o pai do atropelador. Em vez de desculpar-se pelo filho, o empresário capixaba Carlos Guilherme Lima, empreiteiro e ex-banqueiro, preferiu atacar a vítima. "Se ficar provado que a culpa foi do Lars, vamos tomar as medidas judiciais e exigir indenização pelo trauma que meu filho sofreu", disse, como se o dono da lancha é que tivesse sido abalroado e perdido uma perna, e não o iatista. Em entrevista aos jornais, o empresário sugeriu ainda, num surto de absurdo, que deveria ter sido feito em Grael um exame toxicológico. "Quem pode garantir que Lars estava 100%?", disse. "Já vi muito atleta perder medalha por doping."

A lancha do
acidente: hélice
sugou o iatista

O que a polícia apurou de concreto é que na hora do acidente Carlos Guilherme de Abreu e Lima estava alcoolizado e sem a habilitação. Surgiu a suspeita de que quem dirigia sua lancha era a adolescente de 16 anos que o acompanhava, não identificada. Em depoimento à polícia, Carlos Guilherme disse que dirigia o barco e admitiu não ter visto as bóias de sinalização da regata nem o veleiro de Lars. Com 130 quilos, ele sofre de hipertensão. Trabalha apenas três vezes por semana e se dedica mais à pesca oceânica do que aos negócios do pai. Caso seja responsabilizado pelo acidente, pode ser condenado a uma pena de dois até oito anos de prisão. Sendo réu primário, na prática não ficaria um dia na cadeia. Quanto a Lars, o futuro mudou de forma radical. "O que cortaram do meu filho foi um projeto de vida", diz sua mãe, Ingrid Schmidt Grael.




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