Riqueza escondida

No ranking da qualidade de vida, o interior é melhor

Flávia Varella

Fotos: Liane Neves
Feliz, a cidade com maior índice de desenvolvimento humano do Brasil, fica na serra gaúcha, a 87 quilômetros de Porto Alegre. A maioria da população vive da produção de morango e muitos ainda falam o alemão aprendido com os avós imigrantes. Feliz tem renda per capita de 5343 reais e todas as crianças entre 7 e 14 anos sabem ler e escrever. As escolas da região têm transporte própri[o, mas um terço dos alunos mora tão perto de onde estuda que prefere ir a pé. A violência não existe. "Nem me lembro do último homicídio que aconteceu na cidade", diz o prefeito Clóvis Assmann. Feliz também não tem gente rica. Nem pobre. Apenas seis famílias moram em casas precárias, construídas de madeira numa área da prefeitura. Mas, ao contrário dos barracos das grandes cidades, têm água, luz e antena parabólica.


A melhor do Brasil

Feliz, RS
IDH
: 0,834 (1º)
População: 15.556
Esperança de vida: 72,59 anos
Mortalidade infantil: 5,9 por 1.000
Analfabetismo: 2,4%
Tempo médio de estudo da população: 5 anos
Renda familiar per capita: 1,43 salário mínimo
População com renda insuficiente: 23,92%
População com moradias duráveis: 99,6%
Acesso a abastecimento adequado de água: 73,6%

A melhor cidade do Brasil não tem cinema, teatro, bons restaurantes, faculdade nem mesmo um shopping center. Na praça principal, onde ficam a igreja e o prédio da prefeitura, não circula um único carro importado. Diversão é participar de festas típicas do folclore alemão ou de churrascos familiares. Nem mesmo a paisagem do vale da serra gaúcha, onde está localizada Feliz, é muito especial. Ainda assim, ao ser comparada com os outros quase 5.000 municípios brasileiros, a cidade ganhou o primeiro lugar no ranking de índice de desenvolvimento humano, IDH, feito pela ONU. A vitória significa que o município — cujo nome parece ter sido escolhido especialmente para a ocasião — é, entre todas as cidades do país, o que reúne as condições adequadas para um morador médio viver com dignidade. Ali, onde tudo se cala às 10 horas da noite, fica o canto do Brasil que melhor combinou as variáveis saúde, educação e renda.

Apesar dos números favoráveis, muita gente torceu o nariz para a cidade campeã. Como um lugarejo assim tão acanhado pode ser melhor que a badalada Curitiba, que a bela Natal ou que a próspera Ribeirão Preto? Que brasileiro acostumado à correria e às facilidades de uma cidade moderna gostaria de viver naquele fim de mundo? Como avaliar as condições de vida de um lugar sem levar em conta as ofertas de lazer e consumo, as oportunidades de emprego, o acesso à tecnologia, às novidades culturais? Para a ONU, tudo isso é secundário. "Essas outras coisas estão implícitas no conceito do índice de desenvolvimento humano", explica José Carlos Libânio, um dos responsáveis pelo estudo. "Quem tem saúde, educação e renda tem oportunidade e capacidade para ser bem-sucedido e conseguir todos esses outros itens que genericamente se consideram qualidade de vida." Ou seja, mesmo que Feliz não abrigue uma faculdade de ponta e um shopping center, os felizenses têm nível educacional para concorrer a uma vaga numa faculdade próxima e renda suficiente para ir até Porto Alegre (a 87 quilômetros de distância) ou até Caxias do Sul (no meio do caminho) fazer compras. São Paulo, ao contrário, oferece todas as possibilidades da vida moderna, sem no entanto dar condições de acesso a tudo isso para seus moradores, porque só uma parte deles tem saúde, educação e renda adequadas. Essa é a grande diferença entre a maior e a melhor cidade do país.

Ao detectar como cidade campeã um município gaúcho e a pior delas uma alagoana, o estudo da ONU confirma as desigualdades regionais conhecidas no país. Vive-se melhor no Sul do que no Norte, e com mais conforto no Leste do que no Oeste. O município mais bem colocado fora do Sul e do Sudeste é Brasília, que aparece na 51ª posição. Mais do que isso, o estudo mostra que o país melhorou muito nos últimos anos e que a vida dos brasileiros hoje é mais confortável em todas as regiões — mesmo nas mais pobres. A cidade onde os moradores têm suas casas, onde colocam suas crianças para estudar, que lhes fornece a água que consomem, está mais digna. Em 1970, 90% dos municípios brasileiros se classificavam como de baixo desenvolvimento humano, 10% como médio e nenhum se encaixava na categoria mais alta. Vinte anos depois, os no mais baixo nível foram reduzidos a 40%. As melhoras mais representativas se concentram nas regiões Sul e Sudeste, que, junto com o Distrito Federal, abrigam todas as oitenta cidades que alcançaram o patamar mais alto na classificação. O destaque nacional mais positivo é o Rio Grande do Sul, que, além de ser o melhor Estado, é o que abriga a maior proporção de cidades bem posicionadas (10%). Outro fato importante é o desaparecimento de municípios na categoria mais baixa em três Estados, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro e Santa Catarina.

Surpresa — Esse progresso geral dos municípios tem implicações mais amplas na vida das pessoas. "Os outros aspectos da qualidade de vida só se tornam uma preocupação e começam a ser oferecidos quando as necessidades básicas da população são atendidas", afirma Roberto Borges Martins, presidente da Fundação João Pinheiro, de Belo Horizonte, que foi parceira da ONU na elaboração da pesquisa. "Por isso consideramos o IDH um parâmetro abrangente que pode ser entendido também como índice de qualidade de vida." Considere-se o caso de Santos, cidade do litoral paulista, terceira colocada no ranking. Com uma boa renda gerada em grande parte pelo maior porto marítimo da América Latina, Santos atingiu um bom padrão de saúde e educação. Hoje, a cidade já pode investir pesado em outras áreas como transporte público, meio ambiente, esporte, lazer e cultura. O mar que beira a cidade em 7 quilômetros de praia foi despoluído. Hoje, a prefeitura oferece aulas gratuitas de surfe, ginástica e futebol na praia para a garotada e para o pessoal da terceira idade. O roteiro cultural inclui sete cinemas, que apresentam os lançamentos na mesma época de São Paulo, e seis teatros. Em breve serão inauguradas mais dezessete salas de exibição. Gaspar, cidade catarinense com 40.000 habitantes e sexta colocada no ranking, tem um centro urbano que se resume a poucas ruas, entretanto conta com cinco ginásios poliesportivos.

Porto Alegre é a única cidade com mais de 500.000 habitantes a figurar no ranking das dez melhores do país. A capital gaúcha conta com infra-estrutura e serviços básicos satisfatórios para uma população superior a 1 milhão de pessoas. A qualidade de vida é boa conta com 43 cinemas, 1650 bares e restaurantes, 56 casas noturnas, sete parques, 700 praças, além de 1 milhão de árvores nas calçadas e canteiros. É uma metrópole que preserva hábitos interioranos em Porto Alegre, ainda se consegue sair do trabalho para almoçar em casa.


A melhor metrópole

Porto Alegre, RS
IDH
: 0,825 (6º)
População: 1.263.239
Esperança de vida: 66,42 anos
Mortalidade infantil: 21,35 por 1.000
Analfabetismo: 4,9%
Tempo médio de estudo da população: 8,1 anos
Renda familiar per capita: 2,98 salários mínimos
População com renda insuficiente: 15,03%
População com moradias duráveis: 98,4%
Acesso a abastecimento adequado de água: 95,4%

O estudo da ONU é uma das mais completas radiografias feitas até hoje das cidades brasileiras. Ele só tem um problema: foi feito com base em dados do censo de 1991, o último disponível no Brasil. É um atraso de sete anos, justamente um período em que o país passou por muitas transformações, entre elas a estabilização e a abertura da economia, que mudaram drasticamente os níveis de renda da população. Em municípios pequenos e agrícolas como Feliz, o melhor, e São José da Tapera, o pior, as alterações talvez tenham sido pequenas, mas em regiões como o ABC paulista o retrato de 1991 é bem diferente do atual. No início da década, a região do ABC ainda era essencialmente industrial, sede das montadoras de veículos e de centenas de outras fábricas. Nos últimos anos, muitas dessas indústrias se mudaram para o interior paulista ou para Estados vizinhos. Além de bastante afetadas pelo desemprego, as cidades do ABC mudaram de vocação nesse período, passando a abrigar um setor de serviço mais próspero do que o industrial. Hoje, no lugar das antigas fábricas há shopping centers, hipermercados, lojas de franquias, postos de serviços e muitas outras atividades ligadas ao comércio e à prestação de serviços. Há sete anos, metade dos empregos de São Caetano do Sul estava na indústria. Hoje, apenas uma de cada quatro pessoas empregadas continua no setor. As outras três estão concentradas em serviços e comércio. A renda per capita continua alta: 7.300 dólares.

O relatório da ONU comprova que hoje as melhores condições de vida no Brasil estão nas cidades pequenas e médias. Das treze mais bem posicionadas, nove têm menos de 50.000 habitantes. Apenas uma, Porto Alegre, mais de 1 milhão. Das 27 capitais de Estado, apenas duas se encontram entre as dez melhores. "Houve uma migração da qualidade de vida para as pequenas cidades", diz Martins, da Fundação João Pinheiro. "Foram elas que, tendo bons índices de renda, conseguiram resolver de maneira mais adequada os problemas de saúde e educação." Águas de São Pedro, uma estância turística do interior paulista que, segundo o levantamento, tem o melhor índice de renda do Brasil, reúne mais condições de cuidar do saneamento básico, do atendimento médico, da moradia e do ensino básico do que Tarrafas, no sertão cearense, onde a renda familiar per capita é de pouco mais de um décimo de salário mínimo, a mais baixa do país. Além de ter dinheiro, Águas de São Pedro é pequena — tem apenas 3,7 quilômetros quadrados, o que lhe confere também o título de menor município brasileiro. Com essa conjunção favorável, consegue dar bom atendimento médico à população e tem bairros totalmente urbanizados, com água tratada e saneamento básico. "Não temos favela nem barracos aqui", resume Sérgio Fanelli, procurador-geral do município.

Iniciativa privada — Ribeirão Preto, no interior paulista, é um caso bem diferente da pequena Águas de São Pedro. Sexta colocada no ranking da ONU, a cidade ainda mantém um certo ar interiorano, mas a força de sua economia faz dela quase uma metrópole. Ribeirão Preto é a capital informal de uma região de oitenta municípios no norte paulista que engloba 3 milhões de pessoas e forma a sexta praça financeira do país. A cidade experimentou o crescimento durante o auge do café, em seguida beneficiou-se da cultura da laranja e hoje é basicamente comercial. Tem um próspero setor de serviços em meio a municípios fortemente agrícolas. O investimento em infra-estrutura lhe garantiu o bom resultado no ranking. Em 1991, quando foram coletados os dados utilizados para calcular o IDH, menos de 2% das residências não tinham água encanada. Um curioso problema ali é que a fama de boa qualidade de vida acaba atraindo migrantes de cidades mais pobres, o que exige cada vez mais investimento para que o município mantenha o padrão. Ribeirão Preto tem hoje vinte favelas, embora apenas 6.000 pessoas vivam nelas.

Foto: Antonio Milena
Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, tem catorze hospitais de primeira linha, cinco universidades e renda per capita de 5500 dólares. Agora está se tornando também uma meca de consumo. Até o ano passado, a cidade tinha sete salas de cinema. Em novembro de 1997, o maior shopping center da região, o Ribeirão Shopping (foto), foi ampliado. Hoje, ele recebe 1,8 milhão de consumidores por mês. De olho nesse mercado, mais dois shoppings estão sendo erguidos na cidade. Na virada do milênio, Ribeirão Preto terá quarenta salas de cinema, e o número de lojas dobrará.


A força do interior

Ribeirão Preto, SP
IDH
: 0,825 (6º)
População: 436.122
Esperança de vida: 69,04 anos
Mortalidade infantil: 17,95 por 1.000
Analfabetismo: 6,5%
Tempo médio de estudo da população: 6,7 anos
Renda familiar per capita: 2,62 salários mínimos
População com renda insuficiente: 8,93%
População com moradias duráveis: 99%
Acesso a abastecimento adequado de água: 98,4%

Um milhão de árvores — Renda pode ser o primeiro passo para atingir um bom índice de desenvolvimento humano, mas não é tudo. O fraco desempenho de algumas grandes cidades, das quais se esperava mais, é significativo. São Paulo, por exemplo, tem uma renda maior do que a do Rio de Janeiro e, no entanto, está catorze posições abaixo da capital fluminense na lista da ONU. O motivo é um só: educação. A renda familiar per capita dos paulistanos é um pouco superior à dos cariocas; em compensação, há menos cariocas analfabetos do que paulistas. Uma outra comparação entre as capitais nacionais que provocou estranhamento foi a feita com Curitiba e Florianópolis. Propagandeada como a capital brasileira da qualidade de vida, Curitiba ficou bem atrás de Florianópolis, que ostenta um honroso segundo lugar entre todos os municípios. Também nesse caso, o item decisivo foi a educação. Mais conhecida por suas belas praias e lagoas, a capital de Santa Catarina é a segunda cidade brasileira com maior proporção de habitantes com 2º grau completo, perdendo apenas para Niterói. Curitiba vem em oitavo lugar. Em Curitiba, quase 9% das crianças entre 7 e 14 anos ainda estão fora da escola. Florianópolis ganha da capital paranaense por 2 pontos porcentuais.

São José da Tapera, no sertão alagoano, tenta esconder sua pobreza. O centro da cidade tem agência bancária, quatro farmácias, dois postos de gasolina, parque infantil, quadra comunitária de esportes e uma pequena feira livre. Boa parte dos 28.000 habitantes do município, no entanto, vive longe desse cenário. Mais de 70% deles estão espalhados por sessenta povoados miseráveis sem nenhuma infra-estrutura. Na área rural não há energia elétrica, muito menos água encanada. Apenas 20% dos povoados têm poços. Quase metade das crianças apresenta sinais de subnutrição. Há dias, os treze filhos e o casal da família Melo só comem canjica. "A salvação das crianças é o leite da prefeitura", diz Matilde de Melo. Sua família é uma das 3.000 que têm direito ao benefício.


A mais pobre

São José da Tapera, AL
IDH
: 0,265 (4491º)
População: 27.396
Esperança de vida: 53,38 anos
Mortalidade infantil: 147,94 por 1.000
Analfabetismo: 70,5%
Tempo médio de estudo da população: 0,9 ano
Renda familiar per capita: 0,19 salário mínimo
População com renda insuficiente: 92,11%
População com moradias duráveis: 63%
Acesso a abastecimento adequado de água: 39,7%

Entre as metrópoles nacionais, a única que mereceu destaque no estudo foi Porto Alegre, sexta colocada. O resultado foi obtido porque a capital gaúcha tem renda familiar per capita bem acima da média nacional, o analfabetismo é insignificante e a expectativa de vida supera os 66 anos (enquanto em Belo Horizonte, por exemplo, é de 63 anos). Porto Alegre, além das condições básicas para a vida de seus habitantes, também oferece 1650 bares e restaurantes, 43 cinemas, 56 casas noturnas, 1 milhão de árvores nas calçadas e canteiros, sete parques e centenas de praças arborizadas. Porto Alegre tem o que todo cidadão procura: qualidade de vida. Isso já havia sido apontado há dois anos numa pesquisa encomendada pela revista Exame em 150 municípios com mais de 20.000 habitantes para descobrir qual a cidade com melhor qualidade de vida para executivos. Ao contrário da ONU, que utilizou apenas os três critérios básicos para seu ranking, a revista investigou dezesseis itens. Além de qualidade de ensino e atendimento de saúde, foram levadas em conta questões como infra-estrutura urbana, segurança, opções de lazer, perspectivas de carreira, poluição e área verde. A campeã foi Porto Alegre.

Com reportagem de Alexandre
Mansur, Ricardo Villela,
Cristine Prestes e Juliana de Mari




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