Receita para feras

Escolas criam programas especiais para
desenvolver as crianças superdotadas

"Além de pintar,
faço contas de
matemática e leio
livros de gramática.
E adoro futebol."
Vinicius,
7 anos

A mineira Cristiane Muniz de Paula, de 9 anos, é criativa, curiosa e inteligente. Gosta de manipular vidros e tubos em laboratórios. Aos 7 anos, aprendeu sozinha a tocar teclado e compôs sua primeira música. Hoje, já coleciona dezesseis composições. Uma criança esperta como outra qualquer, certo? Não. Cristiane é uma menina especial. Não tem apenas professores, mas também "facilitadores". Não se limita a cumprir horário em um colégio comum. Todos os dias, freqüenta o Centro para Desenvolvimento do Potencial e Talento, Cedet, um projeto da rede pública de ensino de Lavras, no sul de Minas Gerais. Quando apoquenta os pais perguntando quantos metros quadrados terá a nova casa da família, raramente recebe o tradicional passa-fora reservado às crianças bisbilhoteiras. Ao contrário. Provoca orgulho nos parentes. Cristiane tem tratamento diferenciado porque é superdotada, dona de uma inteligência invulgar. No Brasil, 2.300 crianças incluídas na categoria participam de programas especiais para desenvolver suas habilidades. Onze Estados têm algum tipo de atendimento reservado a esses pequenos iluminados, nove deles com o apoio do Ministério da Educação. A tendência é expandir essa malha. Até o final do próximo ano, o governo federal pretende capacitar professores e preparar novos cursos para essas crianças.

Estima-se que o Brasil tenha pelo menos 1,5 milhão de superdotados. A versão corrente entre os especialistas é que todas as pessoas seriam potencialmente talentosas, capazes de se destacar em áreas específicas. Alguns teriam facilidade para coisas como a culinária ou a música. Outros teriam aptidão pronunciada para línguas. O que distinguiria um superdotado é que ele teria uma inteligência global, com habilidades acima da média em vários campos de interesse. "Os superdotados reúnem, ao mesmo tempo, três características básicas: habilidade intelectual ou artística muito desenvolvida, criatividade e envolvimento intenso com o que fazem", explica a professora Marsyl Bulkool Mettrau, doutora em educação e psicologia escolar pela Universidade do Minho, em Portugal, e presidente da Associação Brasileira para Superdotados, que há catorze anos trabalha com crianças incluídas nessa categoria. É um conceito impreciso, como a própria definição de inteligência. No início do século, o francê s Alfred Binet inventou o teste de quociente de inteligência, o QI. O método nunca foi unanimidade, mas adotou-se a convenção de que o felizardo capaz de estourar os 120 pontos é um sujeito inteligentíssimo. Viu-se que não é bem assim. Pessoas médias podem simplesmente ser adestradas para o teste. Há três anos, apareceu a definição de inteligência emocional, defendida pelo psicólogo americano Daniel Goleman. Para ele, ganha quem consegue canalizar melhor suas emoções. Nessa seara complicada, os educadores encontraram um sistema prático de identificar os superdotados. Em uma sala de aula, são pinçados os meninos e meninas que se destacam mais num número maior de atividades.

"Pergunto bastante
mesmo. Gosto de
entender tudo direitinho.
Sou muito curiosa."
Cristiane,
9 anos

Os primeiros projetos dedicados a cevar a inteligência de crianças superdotadas apareceram nos últimos dez anos. Os métodos variam de uma escola para outra. Na maioria das vezes, os estudantes são incentivados a participar de atividades que estão fora do currículo escolar. Com isso, evita-se a criação de salas exclusivas para os mais hábeis, uma segregação por intelecto. Em Lavras, alunos como a pequena Cristiane são estimulados a malhar os neurônios há cinco anos. O Cedet faz uma pesquisa nas escolas públicas e privadas da região e cada uma indica seus melhores alunos. Hoje, 682 estudantes, ricos e pobres, participam do programa. A cada semestre, os selecionados recebem planos de ensino individuais, monitorados por professores voluntários. A criançada é enviada para cursos de seu interesse. Bruno Menezes, de 11 anos, gosta de ciências e por isso foi parar nos grupos de avanço tecnológico e modelagem da Universidade Federal de Lavras. Há quatro anos, vive às voltas com tubos, fios e pilhas. Meses atrás, inventou um minifreezer a partir de uma caixa de isopor e de um ventilador. "O Cedet me deu suporte e segurança para ousar", diz. Desde 1988, o Colégio Princesa Isabel, no Rio de Janeiro, oferece um curso para alunos definidos como de "alta habilidade", chamado Projeto Destaque. Eles são selecionados na 6ª série do 1º grau e têm aulas especiais uma vez por semana. Houve até casos em que as crianças mudaram de comportamento. Bárbara Luiza Coutinho do Nascimento, 14 anos, estudante da 8ª série, não tinha muita facilidade para se relacionar com as meninas da sua idade. Hoje é respeitada por suas múltiplas habilidades. Todos a admiram por ter entrado em arquivos protegidos dos computadores da Telebrás e da Receita Federal, e por se dar bem nas provas de matemática — sem nenhum esforço. "Na minha turma normal do colégio, as pessoas me acham metida", diz Bárbara. "Mas não posso fazer nada se não preciso prestar atenção para tirar boas notas."

"Na minha turma
normal do colégio,
as pessoas me acham
metida. Não preciso
prestar atenção
para tirar boas notas."
Bárbara,
14 anos

O país tem bons programas do gênero. Mas os educadores acham pouco. Eles temem o desperdício de inteligências. "O superdotado precisa de desafios, caso contrário pode desinteressar-se dos estudos e mediocrizar-se deliberadamente, com o propósito de se entrosar com a turma", diz a professora Marsyl. Aos 2 anos, idade em que as crianças nem sabem diferenciar uma letra de outra, o fluminense Vinicius Mendes de Mello já sabia ler. Um ano depois, pedia aos pais uma tela de pintura e dava as primeiras pinceladas com guache e, em seguida, com tinta a óleo. Hoje, aos 7 anos, o menino está fazendo sua 11ª exposição na Faculdade de Filosofia de Campos, no interior do Rio de Janeiro. Vinicius também realiza operações matemáticas com rapidez impressionante e rouba livros dos pais para estudar gramática. Deve continuar assim, porque vem sendo estimulado. Sorte dele.

As crianças nunca estiveram tão expostas a informações como hoje. É, por isso, até natural que saibam um pouco de tudo e, principalmente, mais do que seus pais quando eles tinham a sua idade. Mas uma coisa é assimilar uma informação, outra é ter habilidades de raciocínio acima da média. Como lembra o psiquiatra Francisco Assumpção Jr., do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, "costuma-se misturar com facilidade os conceitos de criança superdotada e estudiosa". O que não se pode perder de vista é que uma criança de inteligência normal, com bastante disciplina e gosto pelos estudos pode ser tão promissora quanto uma superdotada. Ou até mais, porque vence pelo esforço e não por uma capacidade natural.

Com reportagem de Daniella Camargos, de Belo
Horizonte, e
Virginie Leite, do Rio de Janeiro

Fotos: Giovani Pereira, Seumy Yassuda, Renan Cepeda




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