O custo do pessimismo

"Saber separar os interlocutores de qualidade
dos pessimistas de plantão será a principal variável
para o Brasil superar esta nova crise mundial"

Stephen Kanitz

Luiza Ruberti

Nenhum plano foi tão duramente combatido quanto o Real. Tendo previsto corretamente o fracasso dos nove planos anteriores, 85% dos formadores de opinião não tiveram dúvida em prever o fracasso imediato do Plano Real. Em fevereiro de 1994, quando o Real começava a ser anunciado, um dos mais respeitados economistas do Brasil escrevia numa influente revista: "Há o real perigo de que a inflação degenere numa hiperinflação que em nada facilita o plano". Para bom entendedor uma clara recomendação para comprar dólares e não investir em capacidade produtiva. De maio até outubro de 1994, época de eleições, interlocutores da esquerda até a direita prognosticavam que o Real era eleitoreiro e que a inflação voltaria logo após as eleições. Dezenas de milhares de empresários postergaram investimentos. "A crise está aí", "Plano Real caminha para o seu fim", anunciavam os títulos de dois artigos representativos da época.

Em dezembro, veio a famosa previsão de que o Brasil em alguns meses seguiria o caminho do México. O "efeito tequila" foi a grande manchete do dia, influenciando então centenas de milhares de empresários que decidiram esperar mais tempo ainda. De três em três meses tivemos uma postergação de praticamente um ano nos investimentos, o que equivale a três anos de atraso. Entre a decisão de investimento e os primeiros produtos saírem da fábrica são em média dois anos de construção e preparo.

O problema é que a inflação não voltou depois das eleições conforme previsto, o consumo popular explodiu e o Brasil não se preparou a tempo para uma produção que acompanhasse o consumo. Faltando produção interna, o mercado teve de importar produtos do mundo inteiro. Exportadores, vendo a explosão do consumo, reorientaram suas exportações para o mercado interno. Não é de admirar que agora tenhamos um enorme déficit comercial. Não é difícil entender que o desemprego seja decorrente da falta de investimento. Não é difícil compreender que não há crescimento sem investimento anterior. Não é difícil perceber que o governo aumentou os juros para conter o consumo e incentivar a poupança.

Contam-se nos dedos os que orientaram corretamente os empresários a começar a investir já em 1993. Entre esses, VEJA, que publicou um Ponto de vista, "Saímos do fundo do poço". Mas é uma gota d'água, comparado com os 140 artigos de peso publicados dizendo que a crise de 1993 só se iria agravar, ladainha que continuou em 1994 e 1995. Basta consultar a Internet. Os mesmos interlocutores agora culpam o governo FHC pelo desemprego, pelo déficit comercial, pelo reduzido crescimento econômico e pela alta dos juros.

Pessimismo também é uma variável econômica. Nenhum povo que tenha sido martelado com a cantilena de que não dará certo deu certo. Diga ao seu filho que ele será um fracasso e você terá um adulto desmotivado, provavelmente drogado, perdido por aí. Estamos pagando agora o custo do pessimismo. Nós, brasileiros, consideramos boas notícias uma ofensa pessoal. Boas notícias significam que nossos vizinhos e amigos estão dando certo, algo imperdoável. Sempre torcemos contra. Contra o governo, contra o sucesso do Real, parece até que torcemos no fundo contra o sucesso do Brasil. Uma forma talvez de justificar nossos insucessos pessoais. Não é a imprensa que gosta de más notícias, somos nós que as queremos.

Num mundo em que as notícias são cada vez mais globais e as informações, contraditórias, a lição do Plano Real é que precisamos ser cada vez mais cuidadosos com relação a quem emprestamos nossos ouvidos. O livre mercado da informação ainda não está funcionando tão bem quanto o livre mercado de mercadorias. Saber separar os interlocutores de qualidade dos pessimistas de plantão será a principal variável para o Brasil superar esta nova crise mundial.

Stephen Kanitz é professor (www.kanitz.com.br)




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