Estilo
"Não é tão cara assim"
Roberto Frankenberg
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CUSTO-BENEFÍCIO
Thomas e a desculpa perfeita: "Perguntaram a uma cliente por
que comprava na Hermès. Ela disse
que não podia se dar ao luxo de
comprar bolsas baratas" |
Inflando o peito de justificado orgulho, os franceses se gabam
de fazer benfeito, seja um croissant, um queijo ou impecáveis artigos
de luxo. Fundada em 1837 no ramo dos produtos para equitação,
a Hermès reúne qualidade e longevidade. Quando os cavalos saíram
de circulação, passou a fabricar malas, aventurou-se em objetos
requintados, criou lenços memoráveis e, antes que desse tempo
de dizer voilà, emplacou dois modelos que entraram para a história
das bolsas: a Kelly, criada em 1927 e rebatizada em homenagem à princesa
Grace, e a Birkin. Discretas, sem logotipos gritantes, elas saíram dos
bracinhos das tias ricas para as fotos das celebridades exibidas que ainda tropeçam
na pronúncia da marca. Na loja que abre nesta semana em São Paulo,
os preços rondam os 20 000 reais, dependendo do couro e da cor.
O presidente da Hermès, Patrick Thomas, falou à editora assistente
Bel Moherdaui sobre o luxo do negócio.
Como foi que um negócio de selas, com um nome que pouca
gente fora da França pronuncia direito, fez a transição
das cavalariças para o alto luxo?
Começamos, na verdade,
como fabricantes de arreio de cavalo. Passamos às selas mais tarde. No
começo do século XX, quando os carros tomaram o lugar dos cavalos,
o proprietário, da terceira geração da família Hermès,
se perguntou: meu Deus, o que eu vou vender agora? Entrou, então, no
ramo de bagagens que naquela época ficavam presas na parte de
fora, na traseira dos carros. Assim nasceu a Kelly, em 1927, uma mala que diminuiu
de tamanho e virou bolsa de mão. Aproveitando os conhecimentos técnicos
da costura dupla em couro, feita com agulhas, a mão, muito forte e sólida,
a empresa criou um produto de altíssima qualidade, que dura a vida inteira.
Aos poucos, a produção se diversificou mais, incluindo acessórios
de moda. Mas preferimos não dizer que entramos no ramo do alto luxo.
Continuamos a ser uma manu-fatura. Hoje, 85% dos produtos vendidos nas lojas
Hermès são feitos por nós, em nossas oficinas, por nossos
artesãos, com nosso know-how.
Por que resistir a uma classificação a que tantos
aspiram?
O luxo passa uma impressão de qualidade, mas carrega
também a noção do supérfluo, de uma coisa de que
não se precisa. Nossos produtos podem ser mais caros, mas duram mais.
Portanto, não é luxo. É claro que estamos nessa categoria, mas os ingredientes principais da
Hermès são a manufatura e a criatividade.
Dá para explicar como é mesmo a pronúncia?
Ér-méz.
Um chaveiro Ér-méz custa 139 euros, um lenço
de seda, 235, e ainda nem chegamos às bolsas. Como se constroem esses
preços?
Numa bolsa, por exemplo, é preciso considerar que o artesão
leva de quinze a vinte horas de trabalho em uma peça. Além disso,
a seleção do couro que usamos é extremamente criteriosa,
não aceitamos nada minimamente defeituoso. No caso de couros exóticos,
nós mesmos os curtimos, para assegurar a qualidade. Pelo tempo que dura,
uma bolsa Hermès nem é tão cara assim. Certa vez perguntaram
a uma cliente nossa de Paris, não muito rica, por que fazia compras na Hermès. Ela respondeu que não podia se dar ao luxo de comprar bolsas mais baratas. A ideia é exatamente essa.
As filas para comprar o modelo mais famoso de bolsa existem mesmo?
Existem, sim. No momento, temos um número significativo de pessoas
na fila de espera. Infelizmente, nossa capacidade de produção,
devido ao número de artesãos e ao estoque de couros finos, é limitada e não supre a demanda. Algumas pessoas têm de
esperar mesmo. Para nós, não é motivo de orgulho. A espera
por uma Birkin pode ir de três a doze meses, até três anos no caso das mais pedidas, como a de crocodilo.
Onde sua empresa busca a matéria-prima?
O couro de boi vem da França, o de novilho, da França e da Alemanha. Os couros exóticos
são provenientes da Austrália, da África do Sul, de Israel, de Singapura, da Flórida e da Malásia. Já
o fio da seda dos nossos lenços vem 100% do Brasil, do Paraná e de Mato Grosso do Sul. A seda brasileira é a melhor do mundo.
Uma conhecida integrante do governo brasileiro apareceu com uma
bolsa igualzinha à Kelly. O senhor acha que imitar é uma forma
de elogiar?
As bolsas falsificadas são um pesadelo na nossa
indústria. Mais do que causar perdas financeiras, elas prejudicam a imagem. Se uma pessoa é do Brasil, não conhece muito bem os produtos Hermès
e, sem saber, compra uma Hermès falsificada, três meses depois sua
bolsa estará quebrada, feia. A pessoa vai achar que os produtos da Hermès
são de má qualidade.
Como uma pessoa que não é do ramo identifica uma
cópia?
Para quem não conhece bem o produto, é
difícil. Quem conhece vai logo observar a costura dupla, o tipo de forro.
Nosso forro tem tanta qualidade quanto a parte externa, ao contrário
das falsificações, em que a parte de dentro é sempre muito
inferior.
A Hermès anunciou crescimento de vendas em 2008 e no primeiro
semestre de 2009. Foi milagre?
Tivemos boas vendas em nossas lojas
no mundo todo. Neste primeiro semestre, chegamos a um crescimento de 19%. Sentimos
mais a crise no setor de perfumes e relógios, vendidos em redes especializadas,
que sofreram com a decisão de reduzir estoques com medo do que viria. No total, tivemos crescimento de 7,6%, o que é muito bom, considerando-se as circunstâncias. Nós não mudamos nada, não cortamos investimentos nem produção.
Fotos Quentin Bertoux
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Quais serão os resultados de 2009?
Imagino que terminaremos o ano com crescimento semelhante ao que tivemos
no primeiro semestre, cerca de 10%. Mas 2010 ainda será um ano difícil.
Quem segurou o alto consumo?
A China sem dúvida
está se expandindo, mas tivemos ótimos resultados também
na Europa, principalmente na França, e até na América Latina.
Não existe nenhuma celebridade mais criticada, pelo jeito
forçado de tentar ser chique, do que Victoria Beckham, que é dona
de uma imensa coleção de bolsas Hermès. Beckham e Birkin
combinam?
Bom, ela é uma ótima compradora. |