Especial
O mundo pós-crise
Como usar

Giuliano Guandalini

Dá
para acreditar? Mas os economistas que agora dizem que já estamos no pós-crise
não são os mesmos que deixaram de perceber os sinais da chegada
do tsunami financeiro que se abateu sobre o planeta Terra há exatamente
um ano? A pergunta acima tem a sabedoria do senso comum e a força lógica
que só o sofrimento na própria carne proporciona ao Homo economicus, o ser humano que construiu a "sociedade comercial" na formulação
clássica do escocês Adam Smith (1723-1790). Smith foi o primeiro
estudioso a receber o epíteto de economista. Foi também o primeiro
economista a ser criticado pela excessiva confiança em modelos de comportamento
humano para explicar o funcionamento dos mecanismos de produção
e distribuição de riqueza. O escocês genial, solteirão
que sempre morou com a mãe, distraído a ponto de andar em trajes
de banho pelas ruas de Glasgow, foi o autor da célebre constatação
de que o Homo economicus age comercialmente por interesse próprio,
egoísmo e cobiça. Em sua Investigação sobre a Natureza
e Causas da Riqueza das Nações, obra publicada em 1776, ele
mostrou que o padeiro e o açougueiro trabalhavam não pelo prazer
de alimentar os clientes, mas para faturar uma grana e tentar ficar ricos. Agora
que se completa o primeiro ano da pior crise econômica desde a Grande Depressão
da década de 30, conhecida por ter ensejado a maior destruição
de riqueza da humanidade em tempos de paz, Adam Smith, sua obra e a atividade
da qual ele é patrono, a economia, estão amargamente na boca do
povo. Dá para acreditar nos economistas? Como se verá nas páginas
seguintes, o mundo que ressurge no pós-crise sugere que eles, mais uma
vez, estão merecendo crédito.
Grandes guinadas podem começar
com enunciados grandiloquentes, como Pedro I no Grito do Ipiranga ("Laços
fora, soldados! As cortes querem mesmo escravizar o Brasil!") ou os fundadores
dos Estados Unidos ao se separarem da Inglaterra ("Quando, no curso dos eventos
humanos, se torna necessário para um povo dissolver os laços...")
e mesmo os comunistas dando início a sua precocemente derrotada caminhada
histórica ("Um espectro ronda a Europa..."). Não é
a regra, porém. Transformações até mais radicais podem
ser anunciadas sem nenhuma ênfase, como ocorreu em 1953, quando da descoberta
da forma do DNA, a maior revolução da medicina e da biologia ("Gostaríamos
de sugerir uma estrutura para o sal do ácido desoxirribonucleico...").
A maior crise eco-nômica desde a Grande Depressão foi revelada com
a impessoalidade e a falsa delicadeza dos anúncios fúnebres
estilo que exasperou Leopold Bloom, personagem central de Ulisses, de James
Joyce. Bloom vai ao enterro de Paddy Dignam, alcoólatra falido, inútil
e temerário pai de família. No cemitério vê uma ratazana
e a imagina furando a terra para devorar as entranhas do morto. No dia seguinte,
Bloom lê o anúncio fúnebre no jornal em que trabalhava: "Um
valioso membro dessa comunidade morreu on-tem deixando viúva e filhos...".
Em quase todos os sites jornalísticos do mundo, a catástrofe foi,
com ligeiras variações, anunciada assim em 15 de setembro de 2008,
uma segunda-feira: "Nesta manhã, a Lehman Brothers, uma das mais prestigiosas
instituições de Wall Street, entrou com um pedido de proteção
por falência depois que as tentativas para salvá-la feitas durante
o fim de semana fracassaram". Nos meses seguintes, os desdobramentos da falência
do Lehman Brothers desencadeariam uma torrente de destruição da
riqueza de pessoas, empresas e países. Alguns meses depois, tinham sido
reduzidos a cinzas em todos os continentes cerca de 50 tri-lhões de dólares,
o equivalente a todo o PIB mundial, ou toda a riqueza produzida por todos os 6,5
bilhões de terráqueos durante um ano. Só nos Estados Unidos,
as famílias perderam 14 trilhões de dólares. Dados do Censo
americano, divulgados na semana passada, evidenciaram os efeitos da recessão
no bem-estar da população: a renda média dos americanos caiu
3,6% em 2008, a maior retração em quatro décadas, e o porcentual
dos que vivem na pobreza subiu para 13,2%, o maior desde 1997. Além disso,
a taxa de desemprego está perto de 10%, mais que o dobro da registrada
nos tempos de bonança.
Nesta terça-feira, 15, a Terra, em
seu movimento de translação na órbita do Sol, vai cruzar
o mesmo ponto em que esteve na segunda-feira negra de 2008. A partir daí
começa uma nova era, a do pós-crise, em que o mundo econômico
volta a produzir riqueza e empregos mas suas engrenagens estão fundamentalmente
modificadas. Porém ainda é o velho e bom planeta das trocas comerciais
algo tão inerente ao homem quanto o pensamento e a fala, pois nenhuma
outra espécie faz negócios. Ele continua habitado pelos mesmos egoístas
e cobiçosos exemplares do Homo economicus que, deixados sem controle
na selva financeira, vendem a própria mãe, não entregam e
se qualificam para receber bônus milionários ao fim de cada ano fiscal.
Mas também pelos padeiros e açougueiros que colocam comida na mesa
do próximo tendo em mente seu próprio bem-estar. O alimento, contudo,
chega e enche a barriga.
VEJA dedica esta reportagem especial a explicar
o Brasil e o mundo que emergem no pós-crise não apenas do ponto
de vista econômico, mas também em seus aspectos populacionais e geopolíticos.
Complementa a reportagem uma entrevista com Henrique Meirelles, presidente do
Banco Central, que se tornou uma figura referencial para seus colegas nos países
avançados. A seção Radar desta edição revela
um encontro casual de Meirelles com Tim Geithner, secretário do Tesouro
dos Estados Unidos, na semana passada. O americano disse a Meirelles que o Brasil
está "liderando o mundo" para fora da crise. É um avanço
histórico para os cidadãos, os empresários e o governo brasileiros,
que haviam se acostumado a estar no epicentro de todas as crises no passado. O
pacote editorial desta reportagem especial se encerra com uma análise histórica
feita por André Petry, correspondente de VEJA em Nova York, do fosso institucional,
social e econômico que separa os Estados Unidos da América Latina
e como ele pode diminuir no mundo pós-crise.
O arrefecimento
da crise e a entrada da maioria dos países em período de recuperação
facilitam o exame de questões inabordáveis durante a fase aguda
da catástrofe financeira. Algumas perplexidades continuam sem resposta
satisfatória. A mais incômoda delas é a que abre esta reportagem:
dá para acreditar no positivo diagnóstico atual, sabendo-se que
ele está sendo feito pelos mesmos doutores que não viram, ou fingiram
não ver, a transformação das bolhas imobiliárias americana
e europeia em uma bolha financeira mundial? Dá para comprar a tese do início
da recuperação quando ela é apontada pelos mesmos sábios
que fizeram de Wall Street um cassino com roletas viciadas em que a pouca poupança
real das famílias era transmutada em fortunas biliardárias virtuais?
VEJA ouviu uma dezena dos mais sóbrios pensadores econômicos da atualidade.
Alguns deles farejaram o perigo da jogatina que levou à crise, outros nem
tanto. Mas, convenhamos, não existe alternativa. O piloto de um avião
que se mete numa tempestade é justamente quem tem condições
de tirar a aeronave da situação de perigo. Não é porque
os olhos e a apalpação do médico e os exames de imagem deixaram
de flagrar o tumor ainda em fase inicial que um doente pode prescindir da medicina.
Os presidentes de bancos centrais, os economistas e os banqueiros deixaram a crise
se instalar, mas são eles que devem tirar as lições históricas
e diminuir a possibilidade de um novo desastre dessa magnitude voltar a ocorrer.
Para muitos analistas, o que permitiu a rápida recuperação
da economia mundial foi a reação imediata para conter os efeitos
em cadeia da quebra do Lehman Brothers na segunda-feira negra de 15 de setembro
de 2008. É forçoso registrar que, apesar do custo inegável
do estouro da bolha, as proporções do desastre não chegaram
perto do que se viu no período da Grande Depressão da década
de 30, quando o PIB despencou cerca de 30% e o desemprego atingiu um em cada quatro
trabalhadores americanos.
Agora, a preocupação maior são
os efeitos colaterais do remédio usado para impedir o aprofundamento do
colapso de Wall Street. O remédio foi colocar dinheiro para circular na
economia de modo que o crédito, o sangue da atividade comercial, não
secasse totalmente. Foram montanhas de dinheiro. O medo agora é que os
rios de dinheiro que inundaram as engrenagens da economia produzam a consequência
conhecida nesses casos inflação fora de controle. A vantagem,
se existe alguma nessas situações, é que esse novo problema
que se avizinha está no radar das autoridades antes mesmo que seus efeitos
perversos se manifestem. Além disso, o combate à inflação
requer armas que, a duras penas, diga-se, foram desenvolvidas com sucesso no decorrer
das três últimas décadas. O monstro é feio, mas sabe-se
como derrotá-lo. Diz o secretário do Tesouro americano, Timothy
Geithner: "Nosso desafio central será fazer com que as vulnerabilidades
em nosso sistema que originaram essa recessão não causem uma nova
crise". As "vulnerabilidades" a que Geithner se refere podem ser
resumidas a duas. A primeira abrange o consumo e o endividamento excessivos nos
países ricos, principalmente naqueles que cresceram acima de suas possibilidades
nos últimos anos, sendo os Estados Unidos o caso mais notório. A
segunda falha foi a de regulação do sistema financeiro. Os bancos
se valeram de brechas legais para erigir um sistema financeiro paralelo, baseado
em garantias frágeis e impulsionado pela disseminação de
contratos derivativos, multiplicando a concessão de financiamentos, inflando
bolhas e aprofundando ainda mais o endividamento. Segundo dados de um artigo do
economista André Lara Resende, a dívida total dos Estados Unidos
(setor público, empresas e famílias) alcançou 360% do PIB
do país em 2008, nível superior ao de 1929 (300%), e mais que o
dobro da média entre 130% e 160% do PIB registrada entre as décadas
de 50 e 80.
A conclusão é que, a despeito dos riscos latentes,
o planeta segue seu curso. Um ano depois da eclosão do desastre financeiro,
o mundo econômico e sua arquitetura conceitual seguem de pé. Seus
pilares, ainda que requeiram reparos, permanecem intactos. Ninguém ousa
imaginar que se arranhará o consenso macroeconômico que emergiu ao
longo das duas últimas décadas. O mundo sensato não se ilude
mais com a fantasia de que a tolerância à inflação
traz crescimento duradouro ou de que o estado pode substituir a iniciativa privada
na produção de riquezas. A "sociedade comercial" vislumbrada
por Adam Smith não é perfeita e muitas vezes é injusta, mas,
como sua irmã gêmea, a democracia, continua sendo melhor do que todas
as demais alternativas.
Com reportagem de Benedito Sverberi e Luís
Guilherme Barrucho
O que virá depois da tormenta
Renomados
especialistas internacionais avaliam as perspectivas econômicas e sociais
do mundo que emergirá da pior crise financeira desde 1929
Heribert Proeppe/AP
 |
Edmund
Phelps
Ganhador do Nobel de Economia de 2006
"A demanda por investimentos
nos EUA continuará fraca, o que pode ser uma oportunidade para a América
Latina atrair recursos. O sistema financeiro não escapará de uma
ampla reformulação. Haverá mudanças regulatórias
no mercado de hipotecas, no funcionamento das agências de rating e nos bancos.
Assim, setores que não eram de maneira alguma regulados passarão
a ser. Teremos de nos preocupar ainda com a perda de dinamismo nos ganhos de produtividade
do setor privado." |
Sven Nackstrand/AFP
 |
Edward Prescott
Ganhador do Nobel de Economia
de 2004
"As finanças americanas precisam passar por uma profunda
reforma. O que queremos é um sistema financeiro que não desperdice
recursos e que sirva bem às pessoas. Contudo, as fortes conexões
entre Wall Street e Washington não permitem ter muita esperança
de que serão feitas mudanças significativas. No que diz respeito
ao Brasil, assim como em outros grandes emergentes, um ponto fundamental é
batalhar pelo aumento da competitividade. É importante pôr em prática
políticas de redução de impostos e de estímulo à
produtividade." |
Ruben Gamarra/AFP
 |
Demetrios Papademetriou
Presidente do Instituto
de Política Migratória
"Reduziu-se a intenção
das pessoas de deixar países mais pobres em busca de novas oportunidades.
Se o mercado de trabalho das economias avançadas demorar a se recuperar,
é provável que ocorram mudanças estruturais nos fluxos migratórios.
Nos EUA já existem pessoas adiando sua aposentadoria e aposentados que
voltaram ao batente. Esse é um elemento que pode restringir as oportunidades
para os imigrantes." |
Gurinder Osan/AP
 |
John Taylor
Professor da Universidade Stanford
"O
Brasil e outros grandes países emergentes alinharam-se, nos últimos
anos, a boas práticas de política monetária e fiscal. Assim,
conseguiram sair-se relativamente bem durante a crise, se comparados às
economias desenvolvidas. No atual momento, meu temor é que os estrategistas
econômicos ao redor do mundo passem a confiar demais em políticas
de intervenção do estado na economia. Não gostaria de ver
uma regressão nesse aspecto." |
George Magnus
Autor
do livro The Age of Aging
"No Ocidente, as sociedades ficarão
ainda mais velhas, com população estável ou em declínio.
Já em muitos países em desenvolvimento, as populações
continuarão a se expandir e serão, por muito tempo ainda, bem mais
jovens. Toda essa juventude terá aspirações de prosperidade
e poder. O mundo necessitará de instituições preparadas,
um arranjo institucional adequado e vontade política para enfrentar os
desafios que surgirão." |
Lai Seng/AP
 |
Raghuram Rajan
Professor de finanças
da Universidade de Chicago
"Um dos grandes desafios é descobrir
que tipos de inovação queremos. A dificuldade é tecer uma
nova estrutura que nos traga mais soluções que problemas. Ninguém
sabe, por enquanto, exatamente como fazer isso. Uma saída que parece inevitável
é alterar as regras de funcionamento e fiscalização dos mercados
financeiros. Mas é errado pensar em mais regulação. Precisamos,
sim, de um marco que seja mais eficiente e não desestimule a criatividade." |
Gene J.Puskar/AP
 |
Allan
Meltzer
Professor da Universidade Carnegie Mellon
"A economia americana
verá agora uma recuperação no setor privado, graças,
sobretudo, a uma combinação de redução de estoques
e estímulo monetário. O problema é que eventuais aumentos
de produtividade serão bem pequenos. Podemos esperar, então, que
a expansão econômica seja instável e lenta. Além disso,
o governo Obama vai ter de administrar um grave problema nos próximos dois
anos: a inflação em alta." |
Peter Klaunzer/AP
 |
Duncan
Niederauer
Presidente da Bolsa de Nova York
"A grande lição
que os Estados Unidos tomaram com a crise é que a falta de regulação
e de transparência constituiu uma fórmula extremamente perigosa.
Aprendemos principalmente que a existência de muita alavancagem financeira,
boa parte dela não fiscalizada, impede o desenvolvimento dos negócios
a longo prazo. Reverter essa falha nada tem a ver com regulação
excessiva. Trata-se apenas de tornar mais eficiente um mercado que se tornou imenso
em nosso país." |
Guenter Schiffmann
 |
Barry Einchengreen
Professor da Universidade
da Califórnia em Berkeley
"A economia mundial perderá
boa parte de seu fôlego. Isso acontecerá principalmente porque os
Estados Unidos e a Europa crescerão mais vagarosamente, pois terão
de administrar o enorme peso de seu endividamento. E essa expansão econômica
mais lenta será liderada não mais pelo setor de construção
residencial. Haverá outros segmentos que se destacarão." |
Michele Asselin/Corbis/Latinstock
 |
Moisés
Naím
Ex-diretor do Banco Mundial
"A grande surpresa negativa
que tivemos foi a debilidade da Europa, onde uma dezena de governos caiu desde
o início da crise. Já a China e o Brasil se saíram melhor
do que se esperava. De modo geral, vimos um crescimento da ação
do estado na economia em todo o mundo. Foi a saída possível para
que se evitasse um mal maior. Passada essa fase, os governos, sem dúvida,
terão um peso maior nas economias relativamente ao que se viu nas últimas
duas décadas." |
Sarah Boumphrey
Diretora de pesquisas
da Euromonitor "A derrocada da economia mundial e o medo do desemprego
contribuíram para que muitos consumidores quitassem suas dívidas
e incrementassem as poupanças. Algumas necessidades do passado tornaram-se
luxo, e o deleite criado pelo consumismo parece mais vergonhoso do que meritório.
A recessão trouxe, portanto, uma nova mentalidade. Por isso, durante os
próximos dois anos, é provável que as pessoas continuem a
frear seus gastos, adiar grandes compras e buscar descontos." |
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Fotos divulgação e Istockphotos
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