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Home  »  Revistas  »  Edição 2130 / 16 de setembro de 2009


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Especial

O mundo pós-crise
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Giuliano Guandalini

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Dá para acreditar? Mas os economistas que agora dizem que já estamos no pós-crise não são os mesmos que deixaram de perceber os sinais da chegada do tsunami financeiro que se abateu sobre o planeta Terra há exatamente um ano? A pergunta acima tem a sabedoria do senso comum e a força lógica que só o sofrimento na própria carne proporciona ao Homo economicus, o ser humano que construiu a "sociedade comercial" na formulação clássica do escocês Adam Smith (1723-1790). Smith foi o primeiro estudioso a receber o epíteto de economista. Foi também o primeiro economista a ser criticado pela excessiva confiança em modelos de comportamento humano para explicar o funcionamento dos mecanismos de produção e distribuição de riqueza. O escocês genial, solteirão que sempre morou com a mãe, distraído a ponto de andar em trajes de banho pelas ruas de Glasgow, foi o autor da célebre constatação de que o Homo economicus age comercialmente por interesse próprio, egoísmo e cobiça. Em sua Investigação sobre a Natureza e Causas da Riqueza das Nações, obra publicada em 1776, ele mostrou que o padeiro e o açougueiro trabalhavam não pelo prazer de alimentar os clientes, mas para faturar uma grana e tentar ficar ricos. Agora que se completa o primeiro ano da pior crise econômica desde a Grande Depressão da década de 30, conhecida por ter ensejado a maior destruição de riqueza da humanidade em tempos de paz, Adam Smith, sua obra e a atividade da qual ele é patrono, a economia, estão amargamente na boca do povo. Dá para acreditar nos economistas? Como se verá nas páginas seguintes, o mundo que ressurge no pós-crise sugere que eles, mais uma vez, estão merecendo crédito.

Grandes guinadas podem começar com enunciados grandiloquentes, como Pedro I no Grito do Ipiranga ("Laços fora, soldados! As cortes querem mesmo escravizar o Brasil!") ou os fundadores dos Estados Unidos ao se separarem da Inglaterra ("Quando, no curso dos eventos humanos, se torna necessário para um povo dissolver os laços...") e mesmo os comunistas dando início a sua precocemente derrotada caminhada histórica ("Um espectro ronda a Europa..."). Não é a regra, porém. Transformações até mais radicais podem ser anunciadas sem nenhuma ênfase, como ocorreu em 1953, quando da descoberta da forma do DNA, a maior revolução da medicina e da biologia ("Gostaríamos de sugerir uma estrutura para o sal do ácido desoxirribonucleico..."). A maior crise eco-nômica desde a Grande Depressão foi revelada com a impessoalidade e a falsa delicadeza dos anúncios fúnebres – estilo que exasperou Leopold Bloom, personagem central de Ulisses, de James Joyce. Bloom vai ao enterro de Paddy Dignam, alcoólatra falido, inútil e temerário pai de família. No cemitério vê uma ratazana e a imagina furando a terra para devorar as entranhas do morto. No dia seguinte, Bloom lê o anúncio fúnebre no jornal em que trabalhava: "Um valioso membro dessa comunidade morreu on-tem deixando viúva e filhos...". Em quase todos os sites jornalísticos do mundo, a catástrofe foi, com ligeiras variações, anunciada assim em 15 de setembro de 2008, uma segunda-feira: "Nesta manhã, a Lehman Brothers, uma das mais prestigiosas instituições de Wall Street, entrou com um pedido de proteção por falência depois que as tentativas para salvá-la feitas durante o fim de semana fracassaram". Nos meses seguintes, os desdobramentos da falência do Lehman Brothers desencadeariam uma torrente de destruição da riqueza de pessoas, empresas e países. Alguns meses depois, tinham sido reduzidos a cinzas em todos os continentes cerca de 50 tri-lhões de dólares, o equivalente a todo o PIB mundial, ou toda a riqueza produzida por todos os 6,5 bilhões de terráqueos durante um ano. Só nos Estados Unidos, as famílias perderam 14 trilhões de dólares. Dados do Censo americano, divulgados na semana passada, evidenciaram os efeitos da recessão no bem-estar da população: a renda média dos americanos caiu 3,6% em 2008, a maior retração em quatro décadas, e o porcentual dos que vivem na pobreza subiu para 13,2%, o maior desde 1997. Além disso, a taxa de desemprego está perto de 10%, mais que o dobro da registrada nos tempos de bonança.

Nesta terça-feira, 15, a Terra, em seu movimento de translação na órbita do Sol, vai cruzar o mesmo ponto em que esteve na segunda-feira negra de 2008. A partir daí começa uma nova era, a do pós-crise, em que o mundo econômico volta a produzir riqueza e empregos mas suas engrenagens estão fundamentalmente modificadas. Porém ainda é o velho e bom planeta das trocas comerciais – algo tão inerente ao homem quanto o pensamento e a fala, pois nenhuma outra espécie faz negócios. Ele continua habitado pelos mesmos egoístas e cobiçosos exemplares do Homo economicus que, deixados sem controle na selva financeira, vendem a própria mãe, não entregam e se qualificam para receber bônus milionários ao fim de cada ano fiscal. Mas também pelos padeiros e açougueiros que colocam comida na mesa do próximo tendo em mente seu próprio bem-estar. O alimento, contudo, chega e enche a barriga.

VEJA dedica esta reportagem especial a explicar o Brasil e o mundo que emergem no pós-crise não apenas do ponto de vista econômico, mas também em seus aspectos populacionais e geopolíticos. Complementa a reportagem uma entrevista com Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, que se tornou uma figura referencial para seus colegas nos países avançados. A seção Radar desta edição revela um encontro casual de Meirelles com Tim Geithner, secretário do Tesouro dos Estados Unidos, na semana passada. O americano disse a Meirelles que o Brasil está "liderando o mundo" para fora da crise. É um avanço histórico para os cidadãos, os empresários e o governo brasileiros, que haviam se acostumado a estar no epicentro de todas as crises no passado. O pacote editorial desta reportagem especial se encerra com uma análise histórica feita por André Petry, correspondente de VEJA em Nova York, do fosso institucional, social e econômico que separa os Estados Unidos da América Latina – e como ele pode diminuir no mundo pós-crise.

O arrefecimento da crise e a entrada da maioria dos países em período de recuperação facilitam o exame de questões inabordáveis durante a fase aguda da catástrofe financeira. Algumas perplexidades continuam sem resposta satisfatória. A mais incômoda delas é a que abre esta reportagem: dá para acreditar no positivo diagnóstico atual, sabendo-se que ele está sendo feito pelos mesmos doutores que não viram, ou fingiram não ver, a transformação das bolhas imobiliárias americana e europeia em uma bolha financeira mundial? Dá para comprar a tese do início da recuperação quando ela é apontada pelos mesmos sábios que fizeram de Wall Street um cassino com roletas viciadas em que a pouca poupança real das famílias era transmutada em fortunas biliardárias virtuais? VEJA ouviu uma dezena dos mais sóbrios pensadores econômicos da atualidade. Alguns deles farejaram o perigo da jogatina que levou à crise, outros nem tanto. Mas, convenhamos, não existe alternativa. O piloto de um avião que se mete numa tempestade é justamente quem tem condições de tirar a aeronave da situação de perigo. Não é porque os olhos e a apalpação do médico e os exames de imagem deixaram de flagrar o tumor ainda em fase inicial que um doente pode prescindir da medicina. Os presidentes de bancos centrais, os economistas e os banqueiros deixaram a crise se instalar, mas são eles que devem tirar as lições históricas e diminuir a possibilidade de um novo desastre dessa magnitude voltar a ocorrer. Para muitos analistas, o que permitiu a rápida recuperação da economia mundial foi a reação imediata para conter os efeitos em cadeia da quebra do Lehman Brothers na segunda-feira negra de 15 de setembro de 2008. É forçoso registrar que, apesar do custo inegável do estouro da bolha, as proporções do desastre não chegaram perto do que se viu no período da Grande Depressão da década de 30, quando o PIB despencou cerca de 30% e o desemprego atingiu um em cada quatro trabalhadores americanos.

Agora, a preocupação maior são os efeitos colaterais do remédio usado para impedir o aprofundamento do colapso de Wall Street. O remédio foi colocar dinheiro para circular na economia de modo que o crédito, o sangue da atividade comercial, não secasse totalmente. Foram montanhas de dinheiro. O medo agora é que os rios de dinheiro que inundaram as engrenagens da economia produzam a consequência conhecida nesses casos – inflação fora de controle. A vantagem, se existe alguma nessas situações, é que esse novo problema que se avizinha está no radar das autoridades antes mesmo que seus efeitos perversos se manifestem. Além disso, o combate à inflação requer armas que, a duras penas, diga-se, foram desenvolvidas com sucesso no decorrer das três últimas décadas. O monstro é feio, mas sabe-se como derrotá-lo. Diz o secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner: "Nosso desafio central será fazer com que as vulnerabilidades em nosso sistema que originaram essa recessão não causem uma nova crise". As "vulnerabilidades" a que Geithner se refere podem ser resumidas a duas. A primeira abrange o consumo e o endividamento excessivos nos países ricos, principalmente naqueles que cresceram acima de suas possibilidades nos últimos anos, sendo os Estados Unidos o caso mais notório. A segunda falha foi a de regulação do sistema financeiro. Os bancos se valeram de brechas legais para erigir um sistema financeiro paralelo, baseado em garantias frágeis e impulsionado pela disseminação de contratos derivativos, multiplicando a concessão de financiamentos, inflando bolhas e aprofundando ainda mais o endividamento. Segundo dados de um artigo do economista André Lara Resende, a dívida total dos Estados Unidos (setor público, empresas e famílias) alcançou 360% do PIB do país em 2008, nível superior ao de 1929 (300%), e mais que o dobro da média entre 130% e 160% do PIB registrada entre as décadas de 50 e 80.

A conclusão é que, a despeito dos riscos latentes, o planeta segue seu curso. Um ano depois da eclosão do desastre financeiro, o mundo econômico e sua arquitetura conceitual seguem de pé. Seus pilares, ainda que requeiram reparos, permanecem intactos. Ninguém ousa imaginar que se arranhará o consenso macroeconômico que emergiu ao longo das duas últimas décadas. O mundo sensato não se ilude mais com a fantasia de que a tolerância à inflação traz crescimento duradouro ou de que o estado pode substituir a iniciativa privada na produção de riquezas. A "sociedade comercial" vislumbrada por Adam Smith não é perfeita e muitas vezes é injusta, mas, como sua irmã gêmea, a democracia, continua sendo melhor do que todas as demais alternativas.

Com reportagem de Benedito Sverberi e Luís Guilherme Barrucho

 

O que virá depois da tormenta

Renomados especialistas internacionais avaliam as perspectivas econômicas e sociais do mundo que emergirá da pior crise financeira desde 1929

Heribert Proeppe/AP

Edmund Phelps
Ganhador do Nobel de Economia de 2006

"A demanda por investimentos nos EUA continuará fraca, o que pode ser uma oportunidade para a América Latina atrair recursos. O sistema financeiro não escapará de uma ampla reformulação. Haverá mudanças regulatórias no mercado de hipotecas, no funcionamento das agências de rating e nos bancos. Assim, setores que não eram de maneira alguma regulados passarão a ser. Teremos de nos preocupar ainda com a perda de dinamismo nos ganhos de produtividade do setor privado."

Sven Nackstrand/AFP

Edward Prescott
Ganhador do Nobel de Economia de 2004

"As finanças americanas precisam passar por uma profunda reforma. O que queremos é um sistema financeiro que não desperdice recursos e que sirva bem às pessoas. Contudo, as fortes conexões entre Wall Street e Washington não permitem ter muita esperança de que serão feitas mudanças significativas. No que diz respeito ao Brasil, assim como em outros grandes emergentes, um ponto fundamental é batalhar pelo aumento da competitividade. É importante pôr em prática políticas de redução de impostos e de estímulo à produtividade."

Ruben Gamarra/AFP

Demetrios Papademetriou
Presidente do Instituto de Política Migratória

"Reduziu-se a intenção das pessoas de deixar países mais pobres em busca de novas oportunidades. Se o mercado de trabalho das economias avançadas demorar a se recuperar, é provável que ocorram mudanças estruturais nos fluxos migratórios. Nos EUA já existem pessoas adiando sua aposentadoria e aposentados que voltaram ao batente. Esse é um elemento que pode restringir as oportunidades para os imigrantes."

Gurinder Osan/AP

John Taylor
Professor da Universidade Stanford

"O Brasil e outros grandes países emergentes alinharam-se, nos últimos anos, a boas práticas de política monetária e fiscal. Assim, conseguiram sair-se relativamente bem durante a crise, se comparados às economias desenvolvidas. No atual momento, meu temor é que os estrategistas econômicos ao redor do mundo passem a confiar demais em políticas de intervenção do estado na economia. Não gostaria de ver uma regressão nesse aspecto."


George Magnus
Autor do livro The Age of Aging

"No Ocidente, as sociedades ficarão ainda mais velhas, com população estável ou em declínio. Já em muitos países em desenvolvimento, as populações continuarão a se expandir e serão, por muito tempo ainda, bem mais jovens. Toda essa juventude terá aspirações de prosperidade e poder. O mundo necessitará de instituições preparadas, um arranjo institucional adequado e vontade política para enfrentar os desafios que surgirão."

Lai Seng/AP

Raghuram Rajan
Professor de finanças da Universidade de Chicago

"Um dos grandes desafios é descobrir que tipos de inovação queremos. A dificuldade é tecer uma nova estrutura que nos traga mais soluções que problemas. Ninguém sabe, por enquanto, exatamente como fazer isso. Uma saída que parece inevitável é alterar as regras de funcionamento e fiscalização dos mercados financeiros. Mas é errado pensar em mais regulação. Precisamos, sim, de um marco que seja mais eficiente e não desestimule a criatividade."

Gene J.Puskar/AP

Allan Meltzer
Professor da Universidade Carnegie Mellon

"A economia americana verá agora uma recuperação no setor privado, graças, sobretudo, a uma combinação de redução de estoques e estímulo monetário. O problema é que eventuais aumentos de produtividade serão bem pequenos. Podemos esperar, então, que a expansão econômica seja instável e lenta. Além disso, o governo Obama vai ter de administrar um grave problema nos próximos dois anos: a inflação em alta."

Peter Klaunzer/AP

Duncan Niederauer
Presidente da Bolsa de Nova York

"A grande lição que os Estados Unidos tomaram com a crise é que a falta de regulação e de transparência constituiu uma fórmula extremamente perigosa. Aprendemos principalmente que a existência de muita alavancagem financeira, boa parte dela não fiscalizada, impede o desenvolvimento dos negócios a longo prazo. Reverter essa falha nada tem a ver com regulação excessiva. Trata-se apenas de tornar mais eficiente um mercado que se tornou imenso em nosso país."

Guenter Schiffmann

Barry Einchengreen
Professor da Universidade da Califórnia em Berkeley

"A economia mundial perderá boa parte de seu fôlego. Isso acontecerá principalmente porque os Estados Unidos e a Europa crescerão mais vagarosamente, pois terão de administrar o enorme peso de seu endividamento. E essa expansão econômica mais lenta será liderada não mais pelo setor de construção residencial. Haverá outros segmentos que se destacarão."

Michele Asselin/Corbis/Latinstock

Moisés Naím
Ex-diretor do Banco Mundial

"A grande surpresa negativa que tivemos foi a debilidade da Europa, onde uma dezena de governos caiu desde o início da crise. Já a China e o Brasil se saíram melhor do que se esperava. De modo geral, vimos um crescimento da ação do estado na economia em todo o mundo. Foi a saída possível para que se evitasse um mal maior. Passada essa fase, os governos, sem dúvida, terão um peso maior nas economias relativamente ao que se viu nas últimas duas décadas."


Sarah Boumphrey
Diretora de pesquisas da Euromonitor

"A derrocada da economia mundial e o medo do desemprego contribuíram para que muitos consumidores quitassem suas dívidas e incrementassem as poupanças. Algumas necessidades do passado tornaram-se luxo, e o deleite criado pelo consumismo parece mais vergonhoso do que meritório. A recessão trouxe, portanto, uma nova mentalidade. Por isso, durante os próximos dois anos, é provável que as pessoas continuem a frear seus gastos, adiar grandes compras e buscar descontos."

 

Fotos divulgação e Istockphotos

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