PUBLICIDADE

Home  »  Revistas  »  Edição 2130 / 16 de setembro de 2009


Índice    Seções    Panorama    Brasil    Internacional    Geral    Guia    Artes e Espetáculos    ver capa
Televisão

A mentira tem perna curta,...

...mãos bobas, lábios apertados, testa franzida e voz vacilante.
É o que mostra a série americana Lie to Me, cujo herói
é um expert na leitura dos sinais da dissimulação


Marcelo Marthe

Divulgação

CAÇADOR DE LOROTAS
Tim Roth, como o Dr. Lightman: a verdade está na cara


VEJA TAMBÉM

Você lavou as mãos antes de mexer na comida?", pergunta o investigador Cal Lightman (Tim Roth) ao dono de uma carrocinha de sanduíches em Washington. O vendedor garante que sim - mas, enquanto fala, passa uma das mãos atrás do pescoço. Para um estudioso da expressão corporal como Lightman, esse gesto "manipulador" (como se definem, tecnicamente, as variações do tique de se automassagear) é típico de quem busca esconder algo. A cena é uma boa síntese do expediente básico da série americana Lie to Me (literalmente, "minta para mim") – cuja primeira temporada está chegando às lojas brasileiras em DVD, com o título Engana-me Se Puder, e tem estreia prevista para o próximo dia 29 no canal pago Fox. Consultor do FBI e de outros órgãos policiais, Lightman procura na fisionomia e nos movimentos corporais pistas para desmascarar mentirosos. O personagem foi inspirado num cientista que deu uma contribuição decisiva a esse campo: o psicólogo americano Paul Ekman, que desde os anos 60 vem mapeando os gestos e expressões faciais. Lie to Me traz tramas policiais eficientes – mas o ponto original do programa é seu compêndio de truques que ajudam a decifrar o fingimento e a dissimulação. Os sinais da mentira são mostrados não só nos personagens fictícios, mas também nas imagens de pessoas reais, como Marilyn Monroe e George W. Bush.

Pelo menos desde a invenção do precursor dos polígrafos atuais, há cerca de um século, busca-se um método capaz de atestar se uma pessoa está mentindo. Embora até hoje não se tenha inventado uma técnica 100% confiável, a ciência evoluiu muito na compreensão dos mecanismos fisiológicos e psicológicos da mentira. Ao contar uma lorota, a pessoa desencadeia uma espécie de curto-circuito interno. Ela usa a razão para elaborar um discurso fajuto. Só que seu cérebro também produz uma resposta emocional. A contradição entre esses impulsos provoca ansiedade – que, por sua vez, leva a alterações dos sinais vitais. Há aumento da pressão sanguínea, dos batimentos cardíacos, da transpiração e da salivação. O polígrafo baseia seus resultados na medição desses fatores. Nos últimos anos, outras técnicas surgiram, como um aparelho que indica se a pessoa fala a verdade com base nas oscilações da voz. São promissores, ainda, métodos como o escaneamento termal – que flagra as mudanças de temperatura dentro dos globos oculares – e a ressonância magnética funcional. Utilizado por Daniel Langleben, da Universidade da Pensilvânia, esse procedimento permite detectar quando há atividade nas regiões do cérebro relacionadas à mentira.

O resultado do teste do polígrafo já foi aceito como prova nos tribunais americanos. Hoje, não mais (nem no Brasil). Os polígrafos flagram quadros de stress – e esses podem ou não ser decorrência da dissimulação. Em um episódio de Lie to Me, Cal Lightman demonstra a ineficiência do aparelho oferecendo um calmante a um mentiroso – que desse modo passa nos testes. A série professa a tese de que não há máquina mais eficiente para detectar a mentira do que o próprio ser humano. Ainda que o desenvolvimento da fala tenha inibido a leitura de sinais não verbais, a evolução dotou o homem da capacidade de interpretar o estado de ânimo e as intenções dos semelhantes. "A linguagem corporal é uma forma de expressão mais primitiva e autêntica – e também menos suscetível ao nosso controle", explica o neurologista brasileiro Mauro Muszkat.

Ao explorar as possibilidades da linguagem corporal na detecção de mentiras, Samuel Baum, o roteirista e criador de Lie to Me, recorreu à melhor fonte possível. Professor aposentado da Universidade da Califórnia em São Francisco, Paul Ekman, consultor científico da série, rodou o mundo nos anos 60, do Brasil à Nova Guiné, com o objetivo de comprovar uma ideia que então ia contra a visão de seus pares: a de que as expressões faciais não são mero reflexo da cultura de cada povo, e sim um componente da naturezahumana. Ekman identificou mais de 10 000 variações da fisionomia e determinou como cada uma se relaciona aos diferentes estados emocionais. Mais recentemente, ele se devotou ao estudo daquilo que chama de microexpressões. No contato social, as pessoas se autocondicionam desde cedo a mascarar o que sentem – alguém pode exibir um sorriso, embora esteja sentindo raiva. Só que, em razão da atividade involuntária de alguns de seus músculos, a face estampa as emoções reais de forma instantânea. Em questão de décimos de segundo, a pessoa consegue alterá-la. Ekman criou um programa de computador para treinar pessoas na detecção dessas mudanças rápidas – programa, aliás, que os personagens de Lie to Me usam. A série aborda ainda outra fonte de pistas sobre os mentirosos analisada à exaustão por Ekman: o gestual. Há exemplos engraçados da exibição involuntária dos chamados "emblemas" – gestos que têm um significado preciso em cada cultura – por figurões da política. Em momentos de irritação, o presidente americano Barack Obama e o ex-secretário de Defesa Donald Rumsfeld deixaram escapar (ainda que de forma disfarçada) nada menos do que os dedos médios em riste.

Interpretado pelo inglês Tim Roth com algo daquele jeitão rabugento do protagonista de House (vivido por outro inglês, Hugh Laurie), Lightman não hesita em usar seus conhecimentos para manipular os outros, mas cai nas lorotas da filha adolescente. Da mesma forma, sua assistente mais experiente parece cega aos sinais gritantes de traição por parte do marido. Mentir e ser vítima da mentira, afinal, são decorrências da vida – no primeiro episódio da série, informa-se que uma pessoa mente em média três vezes em dez minutos de conversa. Uma grande sacada de Lie to Me é não enveredar pelo moralismo. Não se pode perder de vista, afinal, que a dissimulação tem seu papel, digamos, civilizatório. Pode substituir a violência franca na resolução de um conflito. "A mentira é uma forma de inteligência, transmitida de pais para filhos desde cedo", diz o neurologista Benito Damasceno, da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp. Poucos, contudo, são tão hábeis em percebê-la quanto um Cal Lightman.

Divulgação

CRIADOR E CRIATURA
O psicólogo Paul Ekman (à esq.) e Lightman conduzindo
um interrogatório: a observação acurada supera os testes
com polígrafo

EDIÇÃO DA SEMANA
ACERVO DIGITAL
PUBLICIDADE
OFERTAS



Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados