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• Televisão: O foco na mentira, em Lie to MeCinemaCinema-mentiraCiceroneado pelo cineasta Oliver Stone, Hugo Chávez fez
sua grande
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Domenico Stinellis/AP![]() |
LOS DOS HERMANOS |
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Os dois seres mais estranhos a pisar no tapete vermelho do Festival de Veneza na segunda-feira da semana passada formavam uma dupla que parecia reunir o clone do Shrek acompanhado por um boneco de cera de Muamar Kadafi. O horror da cena era, no entanto, seu realismo. Ali estavam irmanados dois profissionais do ilusionismo de massas, o venezuelano Hugo Chávez e o cineasta americano Oliver Stone. Chávez foi assistir à estreia de um filme estrelado por ele próprio: South of the Border ("ao sul da fronteira", expressão com que os americanos se referem ao continente do México para baixo). O autor da fita, Stone, é conhecido por seu incurável desejo de enganar a plateia. Isso funciona bem na ficção. Mas a peça sobre Chávez foi apresentada como um documentário. No Casino, onde o filme foi exibido, Stone e Chávez sentaram-se lado a lado. A amizade entre os dois foi registrada pelo próprio filme como um dado biográfico relevante para ambos. Em um encontro com Lula, Chávez afirma que o presidente brasileiro é seu irmão. Em seguida, vira-se para Stone e diz: "E você também é". Falta combinar com Lula que ele faz parte dessa família de profissionais da empulhação coletiva.
Stone não é o primeiro hermano do mundo das, vá
lá, artes a pegar carona na cauda do cometa Chávez. Essa gente
adora um cacique amazônico, seja ele um índio caiapó, um
assassino argentino ou um ditador de boina vermelha venezuelano. A única
condição é ser bizarro e detestar os Estados Unidos. A
experiência caudilhista de Chávez já foi chancelada por
pensadores políticos profundos e originais como Naomi Campbell, Danny
Glover, Kevin Spacey, Benicio Del Toro e, claro, Sean Penn. Na maioria americanos
(Del Toro nasceu em Porto Rico e
Naomi é inglesa), eles não resistem ao charme de uma república
bananeira com um líder exótico. Bastam uns poucos dias em Caracas,
coroados com a recepção presidencial no Palácio de Miraflores,
para saírem de lá pontificando sobre o que é melhor para
a América Latina e para o mundo. Pena que, como os barbeiros e os motoristas
de táxi, os atores e modelos estejam sempre muito ocupados. Do contrário,
poderiam estar dirigindo países "ao sul da fronteira".
Os intelectuais têm uma longa tradição de cegueira e servilismo às tiranias de esquerda. O filósofo francês Jean-Paul Sartre voltou de uma visita à União Soviética de Stalin proclamando que só lá "se respirava a liberdade". Seus sucessores se é que gente analfabeta em diversos idiomas como Del Toro, ator protagonista de Che, filme cuja segunda parte estreia nesta sexta-feira no Brasil, possa ser citada na mesma frase que Sartre não tiveram o império soviético para se encantar. A eles sobrou a Venezuela. Com os jovens rebeldes transformados numa plutocracia decrépita, Cuba nada mais tem a oferecer. A Coreia do Norte tem seu próprio ator e armas nucleares e não precisa de ajuda de coadjuvantes de Hollywood para se manter sob os holofotes. Resta-lhes, então, a Venezuela.
O escritor Tariq Ali, o perfeito idiota paquistanês, é o roteirista de South of the Border. Noam Chomsky, linguista na academia e linguarudo fora dela, visitou Caracas na sua eterna busca de qualquer ilusão que alimente seu antiamericanismo. Chávez recebeu-o com o fervor de um fã declarou que, para onde quer que viaje, sempre carrega "vários livros" de Chomsky na mala. Para o líder bolivariano, o encontro deve ter sido quase sobrenatural: em 2006, em uma entrevista logo depois do famoso discurso nas Nações Unidas em que chamou o então presidente americano George W. Bush de "demônio", Chávez disse que gostaria de ter conhecido o "falecido professor Chomsky".
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UMA SIMPATIA SÓ |
Mas quem são os intelectuais para se equiparar no quesito
"sabujismo a ditadores de esquerda" às celebridades da música,
do cinema e da moda? Que o digam os artistas que por qualquer razão tenham
caído em desgraça junto aos chefes comunistas de Havana. Viram
lepra. Ou alguém sabe de alguma manifestação de apoio e
desagravo organizada por Chico Buarque em favor de seu parceiro cubano Pablo
Milanes, transformado em pária pelos irmãos Castro ("Esto
no puede ser no mas que una canción / Quisiera fuera una declaración
de amor", Yolanda)? Nada. Não se ouviu de Chico ou de seus
fraternos irmãos socialistas que sobem em palcos nenhuma palavra ou ato
de condenação à ditadura cubana pelo que ela fez com Pablo
Milanes. Ele ficou sem canção e sem declaração de
amor. Algum cineasta "hermano" tão pronto a assinar manifestos
anticapitalistas se importou com a má sorte de Enrique Pineda Barnet,
professor de cinema dos filhos de Glauber Rocha e documentarista que registrou
em celuloide a guerrilha em Sierra Maestra? Há alguns anos os chefes
comunistas de Havana confiscaram o acervo de Pineda Barnet e deram sumiço
a um valioso material fílmico. Oliver Stone protestou? Silêncio.
Alguém quis saber de Barnet exatamente que imagens foram suprimidas pela
história oficial da revolução dos irmãos Castro?
Não. Isso não interessa. Se a ditadura cubana optou por sumir
com a obra de Enrique Pineda Barnet é porque isso é importante
para a causa. Portanto, a ordem é silenciar. Ao cineasta, herói
da Sierra Maestra, sobrou de lembrança apenas uma cuia de chimarrão
presenteada a ele por Guevara.
Nesse time de ativistas desmiolados, ninguém supera Sean Penn. O ator insiste na natureza democrática do "socialismo do século XXI" e reclama da imprensa americana que, segundo ele, "demoniza" Chávez. Bem, ninguém superava Penn até Stone apresentar seu cinema-mentira em Veneza. Centrado em Chávez, o documentário também tece loas a outros líderes bolivarianos, como Evo Morales, da Bolívia (que aparece jogando bola com Stone), e Rafael Correa, do Equador (aparentemente, Lula também sai bem na foto). Na coletiva em Veneza, Stone previu dificuldades para distribuir o filme nos Estados Unidos. Deixou a insinuação de que South of the Border será uma vítima da censura. As razões da possível não exibição, porém, podem muito bem ser comerciais: uma peça de propaganda sobre bufões autoritários da América do Sul não guarda potencial para atrair o público americano. Maldita economia de mercado. Bem, esses os artistas de nosso tempo, os Stones e os Buarques de Holanda que nada têm a dizer sobre as injustiças pelo menos até receberem as diretrizes dos seus amados ditadores de esquerda.
Desfile dos desmioladosAs celebridades de Hollywood e das passarelas que excursionaram pela Venezuela para se encantar com o "socialismo do século XXI" de Hugo Chávez
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