Especial Pós-crise
O Brasil saiu fortalecido
Germano Luders
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EM ALTA
Meirelles,
em seu escritório no Banco Central: "O Brasil é visto lá
fora numa situação privilegiada" |
A despeito
do pânico no fim do ano e do temor de que o drama do desemprego crescente
voltasse a atingir a economia, o Brasil agora já está em plena recuperação.
Aqui a crise chegou tarde e foi embora cedo. Isso só pôde acontecer
por causa dos avanços obtidos nos últimos quinze anos e também
por causa da ação eficaz do governo, especialmente do Banco Central,
em meio à turbulência. "Chegamos a receber críticas por
supostamente termos agido tardiamente", afirma o presidente do BC, Henrique
Meirelles. "Agora, no entanto, fica evidente que fizemos o diagnóstico
correto e soubemos agir para eliminar os focos de contágio da crise no
país, com o menor custo para a economia." Meirelles falou ao editor
Giuliano Guandalini na tarde da quarta-feira, em seu gabinete na sede do BC, em
Brasília.
CREDIBILIDADE
O Brasil conquistou o reconhecimento
externo pela seriedade com que a economia do país tem sido administrada,
particularmente no caso da atuação do Banco Central. Participamos
ativamente dos principais fóruns de discussão sobre a economia mundial.
Trata-se de um grupo bastante restrito, do qual hoje o Brasil faz parte. O mundo
quer ouvir as lições que temos a oferecer. Infelizmente, o que o
Brasil fez certo durante a crise é muito mais bem entendido no exterior.
O BC brasileiro tem sido elogiado lá fora por ter seguido a estratégia
correta, ao contrário de outros bancos centrais que agora reconhecem seus
erros. Aqui, entretanto, há quem diga que o país foi pouco atingido
apesar de o BC ter sido lento, como se não houvesse causa e efeito. Penso
que essas críticas derivam do mal entendimento do que ocorreu e de um equívoco
de avaliação. Isso me deixa um pouco entristecido. É como
se o país tivesse entrado e saído da crise por obra de uma magia,
sem que nada tivesse sido feito para atenuar os efeitos do choque externo.
A
CRISE NO BRASIL
Embora a crise tenha se iniciado nos Estados Unidos e
na Europa no fim de 2007, até setembro de 2008 o Brasil não havia
sido atingido em nada. No terceiro trimestre do ano passado, o PIB brasileiro
cresceu 6,8%, acima de seu potencial. Mas aí veio um dado novo: a quebra
do banco Lehman Brothers, que provocou uma paralisação gradativa
do sistema financeiro mundial. Houve um efeito drástico da concessão
de financiamentos pelos bancos estrangeiros. No Brasil, 19% da oferta de crédito
tinha origem externa. O colapso dessas linhas irradiou efeitos em cadeia, restringindo
o crédito para as empresas. Ao mesmo tempo, os bancos nacionais deixaram
de ter acesso a dinheiro lá fora. Isso trouxe uma crise de liquidez, por
exemplo no financiamento de automóveis. Iniciou-se aqui um processo de
recessão diferente do ocorrido em outros países, porque no Brasil
a retração foi puxada pelo setor industrial.
DIAGNÓSTICO
E AÇÃO
Percebemos que o contágio no Brasil havia
ocorrido pelos canais do crédito e decidimos agir sobre esse ponto. Outros
bancos centrais, ao contrário, optaram por abaixar rapidamente os juros
e vender dólares. Hoje, eles reconhecem que erraram, mas no Brasil há
muita gente que acha que o BC deveria ter feito o mesmo. Isso só traria
mais instabilidade e não teria nenhum efeito prático para resolver
o real problema, que era a falta de crédito, como diagnosticamos. Sem que
o mercado de crédito estivesse funcionando, a redução da
taxa básica (a Selic) teria efeito nulo, não haveria tração
na economia. O BC agiu sobre as causas: liberou os compulsórios retidos
pelos bancos e ofereceu linhas de crédito em dólares para compensar
a falta momentânea de dinheiro externo. A estratégia deu certo, e
o crédito voltou a fluir já a partir de novembro. Aí, sim,
surtiram efeito as políticas de redução dos juros e da diminuição
dos impostos. Contribui também a atuação dos bancos públicos,
ampliando os empréstimos. A estratégia funcionou. A crise permaneceu
muito restrita e, portanto, não causou um aumento substancial do desemprego.
O país perdeu inicialmente 600 000 vagas, mas já em fevereiro as
contratações foram retomadas. A produção industrial
ainda não recuperou o nível pré-crise, mas tem crescido desde
janeiro. Banco nenhum teve problemas mais sérios no país.
AS
PROTEÇÕES DO PAÍS
O Brasil entrou na crise com recursos.
Sem isso, nossas ações não teriam o mesmo efeito. Dispúnhamos
de 205 bilhões de dólares em reservas internacionais. Além
disso, a demanda doméstica estava aumentando ao ritmo de 9% ao ano. As
taxas de investimento eram crescentes. Entramos na crise com a inflação
estabilizada. Outro dado de maior importância: bancos sólidos. A
recomendação dos acordos de Basileia é que as instituições
financeiras tenham 8% de capital próprio em seus ativos. Aqui, a exigência
é maior, de 11%, mas, na prática, esse porcentual estava em níveis
ainda maiores, de 16%. O Brasil não precisou gastar um centavo para socorrer
bancos, como ocorreu em outros países. Esses fatores fizeram com que o
país enfrentasse o tsunami externo com um conjunto inédito de proteções.
Graças a isso, o desemprego já está em declínio, e
os salários reais, em alta.
BRASIL PÓS-CRISE
No
exterior, o Brasil é visto como dono de uma posição privilegiada.
Depois de décadas de declínio, as commodities produzidas pelo país
deverão continuar em ascensão por um período relativamente
longo, como consequência da incorporação da massa de consumidores
asiáticos. Os exportadores de produtos básicos, como o Canadá,
a Austrália e o Brasil, deverão se enriquecer. A descoberta do pré-sal
é mais um elemento a contribuir com as boas perspectivas do país.
O desafio será tirar proveito dessas riquezas, investindo em educação,
tecnologia e infraestrutura. Mas não dependemos apenas de commodities.
Temos uma indústria diversificada e em crescimento, apesar de queixas eventuais
de alguns setores.
FUTURO POLÍTICO
Existem muitas especulações
sobre uma possível candidatura minha, mas francamente ainda não
tenho nenhuma decisão tomada, nem sequer a respeito da minha filiação
a algum partido. Caso decida me filiar, não necessariamente irei concorrer
a algum cargo no próximo ano. De qualquer maneira, não faria nada
que maculasse o trabalho do BC e o meu próprio legado.


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