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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Lendo
os números ao contrário
Se há 300 picaretas
no Congresso, isso quer dizer que
há 294 honestos. Um assombro!
Oitenta por cento dos israelenses apóiam
a guerra no Líbano. É uma lástima que parcela tão
grande da população endosse uma ação que, no mínimo,
iguala Israel, em termos morais, aos fanáticos islâmicos que o querem
destruir. Mas se 80% apóiam é porque 20% desaprovam, ou fazem restrições,
ou estão em dúvida e eis então uma razoável
parcela de gente que se recusa a achar graça no espetáculo de morticínio
e destruição encenado pelo Exército de seu país. Saudemos
os 20% de pessoas conscientes de que o pior mal que Israel está fazendo
é a si próprio, jogando seu prestígio no mundo ao nível
mais baixo, ao mesmo tempo em que se lança numa aventura bélica
tão sem saída quanto a dos patronos americanos no Iraque.
Ler os números ao contrário é um bom
exercício para acreditar que nem tudo está perdido. Setenta e dois
parlamentares foram denunciados na semana passada pelo relator da CPI dos Sanguessugas
como implicados no escândalo. É um espanto: o número equivale
a 12% dos 594 parlamentares (513 deputados e 81 senadores) que constituem o Congresso
Nacional. Mas, se 12% estão implicados, isso significa que 88% não
estão um espanto ainda maior para os padrões de comportamento
com que o Congresso Nacional nos acostumou. A ficar por aqui, temos um Congresso
em que as pessoas honradas superam em muito as desonradas. O.k.,
não é certo ficar por aqui. Aos 72 sanguessugas devem se acrescentar
os treze deputados denunciados pelo procurador-geral da República no escândalo
do mensalão. Temos então 85 parlamentares envolvidos nos dois mais
vistosos escândalos recentes. Para sermos precisos, desse total devemos
subtrair um, pois um deputado, Pedro Henry, é ao mesmo tempo mensaleiro
e sanguessuga. Temos então um total de 84 14% do Congresso. O espanto
cresce. Mas, se os congressistas são 594, temos que 510 não estão
envolvidos nesses escândalos. Quinhentos e dez parlamentares honestos?!
No Brasil?! Nem dá para acreditar. Não
é mesmo para acreditar. Os implicados listados, tanto no caso dos sanguessugas
quanto no dos mensaleiros, são aqueles contra os quais as evidências
são incontestáveis. A própria CPI dos Sanguessugas trabalhou
até a véspera do relatório com um total de noventa envolvidos.
Acresce que por enquanto só foi investigado o caso das ambulâncias.
Há ainda o dos ônibus com que se dariam aulas itinerantes de computação
e que também teriam sido vendidos a preços superfaturados, para
financiar a propina de parlamentares. Digamos que os sanguessugas sejam o dobro
dos 72 apontados pelo relator 144. No caso do mensalão, tantas foram
as pressões sofridas pela CPI correspondente que dá para afirmar
com segurança que o total de treze denunciados ficou barato. Foram investigados
chefes partidários que pegavam o grosso do dinheiro, mas não os
membros das bancadas entre os quais o dinheiro era distribuído. Digamos,
numa estimativa conservadora, que os mensaleiros sejam três vezes mais do
que os treze denunciados 39. Somados esses 39 aos 144 presumíveis
sanguessugas, temos 183 congressistas implicados nos dois escândalos. O
espanto continua a crescer 30% do Congresso! Mas, se esse porcentual for
lido ao contrário, resulta que 70% do Congresso é inocente nos dois
escândalos espanto no mínimo igual. Ainda
não dá para acreditar? Não dá mesmo. Os escândalos
do mensalão e dos sanguessugas não são tudo, na rica atividade
que se desenvolve nos subterrâneos do Poder Legislativo nacional. Há
notórios trambiqueiros, inclusive em altas posições nas duas
Casas, não envolvidos em nenhum dos dois escândalos. Há até
gente acusada de utilização de trabalho escravo. Pulemos dos 183
para 300, num chute alto, mas verossímil, para abranger a massa dos que,
mesmo sem ser mensaleiros nem sanguessugas, ainda assim têm alguma culpa
no cartório. Com isso chegamos ao total em que um dia o homem que hoje
ocupa a Presidência estimou o número de picaretas no Congresso Nacional.
Ainda assim, sobram 294 que não são picaretas. Quase a metade! E
isso no Brasil! Nem tudo está perdido. Dá até para esperar
que essa metade, hoje paralisada pelo desânimo, pela omissão ou pela
pusilanimidade, um dia venha a se impor à outra. Caso
extremo de contaminação de uma casa legislativa é o de Rondônia.
Vinte e três dos 24 deputados da Assembléia local estão implicados
nas falcatruas descobertas pela Operação Dominó da Polícia
Federal, além de autoridades do Executivo, do Judiciário e do Ministério
Público. É um espanto. Mas espanto maior é ter sobrado um,
entre os 24 um solitário baluarte da honestidade. Dá para
imaginar os colegas aos cochichos, nas costas dele, para que não ouvisse
suas negociações. Ou interrompendo as conversas quando ele irrompia
no recinto. E ele firme, uma ilha no mar de lama. Provavelmente o chamavam de
babaquara. E comentavam, com desdém: "Ele pensa que é Jesus Cristo".
Neri Firigolo é o seu nome. Um deputado que não roubou, numa Assembléia
em que todos os outros roubavam. E isso no Brasil! Um assombro. |