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Música
Notas suspeitas
A Osesp ainda tem muito que explicar
sobre falcatruas no seu concurso de piano

Sérgio Martins
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No próximo domingo, o Concurso
Internacional de Piano Villa-Lobos deverá anunciar seus premiados.
Seja qual for o resultado, um processo de seleção
de competidores que resultou em escândalo já deixou
o evento da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
(Osesp) marcado como um vexame. Uma medida do descrédito
em que caiu o concurso está na desistência da competidora
Inna Faliks, pianista americana de 27 anos, premiada no circuito
erudito. Na terça-feira passada ela anunciou que não
viria ao Brasil. "Ainda bem que fiquei doente", diz. "Um concurso
manchado por fraudes não iria acrescentar nada à minha
carreira." As desistências também aconteceram entre
os jurados. A última foi do crítico americano James
Keller, que cancelou sua participação em 18 de julho.
No total, sete dos onze julgadores originalmente escalados deixaram
o barco nem sempre de maneira cordial. "Ouvi xingamentos
incríveis ao anunciar minha saída", afirma um deles.
O pior é que a Osesp ainda tem muito que esclarecer sobre
o concurso.
Renato Chaui
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| Neschling: mais deserções |
Em 17 de julho, a orquestra divulgou uma nota em defesa da "lisura"
da competição e atribuiu ao israelense Ilan Rechtman,
ex-diretor do concurso, toda a culpa pelas irregularidades na seleção
de competidores. Rechtman cometeu um erro imperdoável: alterou,
por conta própria, a lista de classificação
entregue pelo pianista brasileiro Gilberto Tinetti, que trabalhou
como avaliador naquela fase do concurso. Segundo a Osesp, a demissão
de Rechtman, em 23 de abril, pôs ordem na casa. Mas não
é bem assim. No tiroteio que se seguiu, Rechtman revelou
que Tinetti lhe havia confessado conhecer a identidade de alguns
competidores brasileiros, supostamente escondida por um código
numérico nos discos de seleção. Essa quebra
de sigilo teria sido relatada ao diretor artístico da orquestra,
o maestro John Neschling. Uma medida prudente teria sido afastar
Tinetti mesmo que se acredite que o julgamento desse músico
veterano não foi afetado pelo fato de ele conhecer a identidade
dos inscritos. Curiosamente, Tinetti foi promovido a jurado também
da segunda fase. O trabalho do outro julgador contratado, o americano
Jeffrey Moidel, é que acabou sendo descartado.
A orquestra afirma que agiu assim
por dois motivos. Primeiro, porque o americano, enquanto esteve
no Brasil, se hospedou no apartamento de Rechtman dá-se
a entender que ele teria feito isso em segredo e seria uma espécie
de conspirador. Em segundo lugar, Moidel teria deixado de entregar
"tempestivamente qualquer documento oficial contendo as notas" que
atribuiu aos competidores. As duas afirmações são
capciosas. O endereço de Moidel no Brasil não foi
segredo. Se ele não ficou num hotel, foi a pedido da orquestra
e para poupar dinheiro, como comprovam e-mails trocados pelos organizadores
do concurso. "Pediram que fosse assim e eu concordei", diz Moidel.
"Foi um motorista da Osesp que me pegou no aeroporto e me levou
à casa de Rechtman." Em segundo lugar, o contrato firmado
por Moidel não falava em notas. "Lista de notas é
coisa de concurso de calouros", diz o americano. De acordo com as
regras originais, a tarefa de cada avaliador seria ouvir cinqüenta
CDs e pinçar os 25 melhores. Em seguida, eles trocariam entre
si os escolhidos, para chegar a um time final. A Osesp mudou os
parâmetros no meio do caminho. Cobrou a tal lista de notas
de Moidel, e ele a entregou dias antes do anúncio dos finalistas.
Mas a lista não foi usada. Nesse momento, a ex-pianista Rosana
Martins já trabalhava numa avaliação alternativa.
Depois de concluir essa tarefa, ela se tornou funcionária
da Osesp. A orquestra se negou a comentar as afirmações
de Moidel e os documentos que ele apresentou a VEJA.
Durante esta semana, é
provável que música de boa qualidade seja apresentada
pelos pianistas que participam do concurso Villa-Lobos. Infelizmente,
isso não cancela o desastre de organização
do evento que teve um diretor demitido, dois avaliadores
postos sob suspeita, uma nota de esclarecimento público com
passagens duvidosas (se não mentirosas), uma mudança
de regras de seleção feita de última hora e
sem transparência e uma lista de finalistas que inclui a pianista
da própria Osesp (a russa Olga Kopylova). É uma lástima
que jurados e uma competidora tenham desistido do concurso nos últimos
dias. Mas surpresa não é.
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