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Edição 1969 . 16 de agosto de 2006

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Música
Notas suspeitas

A Osesp ainda tem muito que explicar
sobre falcatruas no seu concurso de piano


Sérgio Martins


No próximo domingo, o Concurso Internacional de Piano Villa-Lobos deverá anunciar seus premiados. Seja qual for o resultado, um processo de seleção de competidores que resultou em escândalo já deixou o evento da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) marcado como um vexame. Uma medida do descrédito em que caiu o concurso está na desistência da competidora Inna Faliks, pianista americana de 27 anos, premiada no circuito erudito. Na terça-feira passada ela anunciou que não viria ao Brasil. "Ainda bem que fiquei doente", diz. "Um concurso manchado por fraudes não iria acrescentar nada à minha carreira." As desistências também aconteceram entre os jurados. A última foi do crítico americano James Keller, que cancelou sua participação em 18 de julho. No total, sete dos onze julgadores originalmente escalados deixaram o barco – nem sempre de maneira cordial. "Ouvi xingamentos incríveis ao anunciar minha saída", afirma um deles. O pior é que a Osesp ainda tem muito que esclarecer sobre o concurso.

Renato Chaui
Neschling: mais deserções


Em 17 de julho, a orquestra divulgou uma nota em defesa da "lisura" da competição e atribuiu ao israelense Ilan Rechtman, ex-diretor do concurso, toda a culpa pelas irregularidades na seleção de competidores. Rechtman cometeu um erro imperdoável: alterou, por conta própria, a lista de classificação entregue pelo pianista brasileiro Gilberto Tinetti, que trabalhou como avaliador naquela fase do concurso. Segundo a Osesp, a demissão de Rechtman, em 23 de abril, pôs ordem na casa. Mas não é bem assim. No tiroteio que se seguiu, Rechtman revelou que Tinetti lhe havia confessado conhecer a identidade de alguns competidores brasileiros, supostamente escondida por um código numérico nos discos de seleção. Essa quebra de sigilo teria sido relatada ao diretor artístico da orquestra, o maestro John Neschling. Uma medida prudente teria sido afastar Tinetti – mesmo que se acredite que o julgamento desse músico veterano não foi afetado pelo fato de ele conhecer a identidade dos inscritos. Curiosamente, Tinetti foi promovido a jurado também da segunda fase. O trabalho do outro julgador contratado, o americano Jeffrey Moidel, é que acabou sendo descartado.

A orquestra afirma que agiu assim por dois motivos. Primeiro, porque o americano, enquanto esteve no Brasil, se hospedou no apartamento de Rechtman – dá-se a entender que ele teria feito isso em segredo e seria uma espécie de conspirador. Em segundo lugar, Moidel teria deixado de entregar "tempestivamente qualquer documento oficial contendo as notas" que atribuiu aos competidores. As duas afirmações são capciosas. O endereço de Moidel no Brasil não foi segredo. Se ele não ficou num hotel, foi a pedido da orquestra e para poupar dinheiro, como comprovam e-mails trocados pelos organizadores do concurso. "Pediram que fosse assim e eu concordei", diz Moidel. "Foi um motorista da Osesp que me pegou no aeroporto e me levou à casa de Rechtman." Em segundo lugar, o contrato firmado por Moidel não falava em notas. "Lista de notas é coisa de concurso de calouros", diz o americano. De acordo com as regras originais, a tarefa de cada avaliador seria ouvir cinqüenta CDs e pinçar os 25 melhores. Em seguida, eles trocariam entre si os escolhidos, para chegar a um time final. A Osesp mudou os parâmetros no meio do caminho. Cobrou a tal lista de notas de Moidel, e ele a entregou dias antes do anúncio dos finalistas. Mas a lista não foi usada. Nesse momento, a ex-pianista Rosana Martins já trabalhava numa avaliação alternativa. Depois de concluir essa tarefa, ela se tornou funcionária da Osesp. A orquestra se negou a comentar as afirmações de Moidel e os documentos que ele apresentou a VEJA.

Durante esta semana, é provável que música de boa qualidade seja apresentada pelos pianistas que participam do concurso Villa-Lobos. Infelizmente, isso não cancela o desastre de organização do evento – que teve um diretor demitido, dois avaliadores postos sob suspeita, uma nota de esclarecimento público com passagens duvidosas (se não mentirosas), uma mudança de regras de seleção feita de última hora e sem transparência e uma lista de finalistas que inclui a pianista da própria Osesp (a russa Olga Kopylova). É uma lástima que jurados e uma competidora tenham desistido do concurso nos últimos dias. Mas surpresa não é.

 
 
 
 
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