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Edição 1969 . 16 de agosto de 2006

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Especial
Anderson Schneider
OS TRÊS CULPADOS
Yasmin e Carol, os poodles, e Isabel, a boxer, se sentem culpados se fazem algo errado, acredita a dona deles, Carla Rosanova Sotto, de Brasília. Certa vez, espalharam pelo chão da cozinha todos os petiscos preparados para uma festa. "Quando descobri, eles disfarçaram fazendo cara de paisagem", diz Carla

Bem, cães não pensam. Mas, segundo
estudos recentes, eles realmente são
bastante inteligentes e adotam muitas
características humanas


Ruth Costas

NESTA REPORTAGEM
Quadro: Os mais inteligentes

O cão é o melhor amigo do homem há 12.000 anos. Nenhuma amizade duraria tanto não fosse construída sobre a sólida base de compreensão mútua e companheirismo. O animal vive em nossa casa, ajuda no trabalho do campo, serve de vigia, brinca com as crianças e nos recebe com festas no fim do dia. Enfim, é praticamente um membro da família. Não é difícil entender por que muita gente, encantada com as habilidades do animal, se deixa convencer de que seu bicho de estimação compartilha sentimentos tipicamente humanos, como ciúme, inveja, vaidade e até algum tipo de pensamento canino. Que outra explicação poderia haver para o comportamento da cadelinha poodle que adora ver novelas, em São Paulo? " 'Tiffany' até tenta mudar de canal quando começam os comerciais, mexendo no controle remoto", diz sua dona, a psicóloga Marineide Pereira. Bem, para início de conversa, é bom dizer logo que cão não pensa. A noção de pensamento está ligada à capacidade de conceituar e abstrair o mundo que nos rodeia e de utilizar a linguagem. "Por esse critério, só o homem é capaz de pensar", observa Renato Sabbatini, neurocientista da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e fundador do primeiro laboratório a estudar as bases neurológicas do comportamento animal no Brasil.

Já inteligência é outra história. Uma definição bem-aceita de inteligência a caracteriza como a capacidade de resolver problemas empregando processos cognitivos como memória, aprendizado, raciocínio e comunicação. Com certeza o comportamento dos cães demonstra fortes indícios de inteligência – mas até onde pode chegar a compreensão desses animais? É curioso, mas só nos últimos dez anos a ciência passou a estudar a fundo a mente do melhor amigo do homem. De 1970 a 1995 foram publicados entre cinco e dez trabalhos científicos sobre cachorros, segundo o antropólogo americano Brian Hare, do Instituto Max Planck, em Leipzig, na Alemanha. De 1995 para cá foi quase uma centena. Hare aponta três grandes descobertas sobre o universo canino nesse período:

• A primeira é que a relação de confiança e companheirismo que une o cachorro ao homem é realmente bastante forte. "Muitas vezes o cão prefere ficar com os seres humanos a interagir com outros cachorros", diz Hare. Pesquisas feitas na Universidade Eotvos Loránd, na Hungria, mostraram que, ao ser colocado diante de dois vasilhames, um vazio e outro com pedaços de salame, um cachorro prefere seguir uma indicação humana que o leve a procurar alimento no recipiente vazio a confiar no próprio olfato e se dirigir para o recipiente cheio.

• A segunda descoberta é que o cão é o animal que melhor interpreta o homem. Ao longo desses milhares de anos de convivência, o cachorro se especializou em observar e reagir ao comportamento humano. Em pesquisas que testam a habilidade de seguir as instruções humanas para encontrar alimentos e a capacidade de perceber o foco da atenção das pessoas, o cachorro se sai melhor até que os grandes primatas, nossos parentes mais próximos na árvore da evolução. Um grupo de cientistas húngaros liderados pela bióloga Zsófia Virányi replicou com cachorros uma experiência que havia sido feita com chimpanzés na Universidade da Louisiana, nos Estados Unidos. Os animais foram colocados na presença de duas pessoas comendo sanduíche, sendo que uma estava olhando para os cachorros e a outra não. Os cachorros só pediram comida a quem podia vê-los, enquanto os chimpanzés não conseguiam perceber a diferença.

• A terceira constatação é que a capacidade de aprendizagem do cachorro é ainda maior do que se pensava. Há dois anos, cientistas do Instituto Max Planck estudam um cachorrinho da raça border collie que já decorou o nome de 200 objetos. Em uma experiência, foram colocados oito objetos em uma sala, sete dos quais "Rico" conhecia. O dono então pediu ao cachorro que trouxesse o objeto cujo nome ele não sabia. Em sete de dez tentativas, Rico trouxe para o dono o objeto certo, de nome desconhecido, numa evidência de que os cachorros são capazes de aprender fazendo um raciocínio de exclusão. No Brasil, uma equipe do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo treina há quatro anos uma cadela vira-lata chamada "Sofia". "Escolhemos uma vira-lata para evitar que qualquer capacidade fosse atribuída a uma raça superinteligente", diz o psicólogo César Ades, que coordenou a pesquisa. Sofia aprendeu a obedecer dois comandos simultâneos, como "pega a bolinha" e "aponta o sapato".

 

Roberto Setton
OS VINGATIVOS
Os dois basset hounds da foto roeram a fiação e o reboco da casa. O dono deles, Denis Jorge, de São Paulo, acha que foi vingança por ele ter começado a voltar tarde do trabalho e abolido o passeio noturno com os cães. "Diante dos protestos, fui obrigado a contratar um funcionário do prédio para sair com eles", diz Denis

A habilidade de responder prontamente ao menor gesto ou aos sinais de alteração de humor de uma pessoa faz com que se tenha a impressão de que o cachorro é capaz de entender como seus donos pensam. "Na realidade, o cão não consegue interpretar os pensamentos e sentimentos do homem, apenas responde aos sinais externos emitidos por ele", disse a VEJA o psicólogo americano David Premack, especialista em comportamento animal da Universidade da Pensilvânia. Uma pesquisa feita no ano passado pela americana Alexandra Horowitz, da Barnard College, em Nova York, concluiu que os caninos têm uma forma muito rudimentar da chamada "teoria da mente" – que se refere à habilidade de um indivíduo de se colocar no lugar do outro. Eles são capazes de projetar no homem percepções e intenções, desde que isso dependa apenas de uma análise do ambiente que os cerca. Por exemplo: um cão consegue avaliar se determinada comida está fora do alcance de seu dono, para roubá-la sem ser notado, e pode tentar pegar a comida antes, se perceber que a intenção do dono é disputá-la.

A associação com o homem representou uma tremenda vantagem na luta pela sobrevivência. Há hoje 370 milhões de cães em todo o mundo. Só no Brasil são 29 milhões, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Alimentos para Animais de Estimação. A adaptação canina foi tão completa que, afirmam os cientistas, certas características do comportamento humano foram de fato transmitidas para o cão. Mas, também nesse aspecto, é prudente não exagerar. "Meus cachorros sabem muito bem quando fazem algo errado e se sentem culpados", diz Carla Rosanova Sotto, funcionária pública em Brasília e dona de um boxer e dois poodles. Certa vez, quando dava uma festa, ela entrou na cozinha e encontrou os petiscos e canapés espalhados pelo chão. "Não havia nem sinal dos cães, porque nessas ocasiões eles saem de mansinho, se escondem e, quando me encontram, desviam o olhar", diz Carla. Ela define o comportamento dos cães como "envergonhado". Não é nada disso. "Eles sabem que vão levar uma bronca porque percebem que o dono está nervoso ou porque, no passado, aprenderam que, quando ele entra na cozinha e há bagunça no chão, são castigados", explica o zootecnista Alexandre Rossi, especialista em psicologia canina e um dos responsáveis por uma pesquisa que reuniu mais de 1.000 relatos de donos de cachorros sobre as habilidades de seus cães. Em experiências que simularam situações desse tipo, nem sempre o animal que se escondia ou colocava o rabinho entre as pernas tinha sido o responsável pela bagunça.

 

Fotos Lailson Santos
A DONA DA CAMA
Julia Roberts, a lhasa apso da paulista Adriana Kishimoto, "morre de ciúme" da nova cadelinha, a Tookie, de 3 meses. "Julia é desaforada: sempre dormiu comigo e agora obriga a Tookie a dormir no chão", diz Adriana

Os cães têm apenas emoções simples, como alegria e tristeza. Para sentir vergonha ou culpa seriam necessários raciocínios complexos e julgamento de valor, que eles não são capazes de fazer. Por isso, também não adianta esfregar o focinho do cachorro na bagunça e gritar com ele, para que aprenda a não fazer mais isso, como muita gente acredita. O animal simplesmente não é capaz de compreender que ao apontar a bagunça você está querendo mostrar sua irritação com algo que ele fez no passado. A punição só tem efeito se ele for pego no flagra. "A memória de longo prazo do cachorro é limitada e não lhe permite associar a bronca com algo que fez uma ou duas horas atrás", disse a VEJA o psicólogo americano Clive Wynne, da Universidade da Flórida, autor do livro Animais Pensam?.

O mesmo raciocínio vale para a crença de que alguns cães tomam atitudes vingativas. "Lola" e "Napoleão", a dupla de basset hounds do administrador de empresas Denis Jorge, roeram a fiação e o reboco das paredes quando, por uma mudança em sua rotina profissional, ele reduziu as caminhadas diárias que fazia com os animais. "Foi uma forma de protestar para eu retomar os passeios", entendeu Denis. Mais uma vez é uma interpretação humana para um comportamento canino. "Ficar sozinho provoca ansiedade no cão e, como não há ninguém para impedir, ele extravasa fazendo coisas que lhe dá prazer", disse a VEJA o psicólogo americano Stanley Coren, da Universidade de British Columbia, no Canadá, autor do livro Como Pensam os Cães. Roer libera dopamina no cérebro do animal e o faz se sentir bem. Se a vítima é aquele sapato que custou os olhos da cara é porque o calçado provavelmente tem um cheiro familiar. Na ausência do dono, os cachorros buscam interagir com objetos que evocam a sua presença.

 

FÃ DE NOVELAS "
A Tiffany não gosta muito dos comerciais e quando eles começam vai dar uma volta ou tenta mudar o canal", diz a psicóloga Marineide Pereira, de São Paulo. Muitas vezes, quando sai, ela deixa a TV ligada para dar distração à cadelinha, que prefere novela

Os cães têm uma percepção do mundo a sua volta bem diferente da humana. Enquanto 70% das informações recebidas pelo homem são visuais, os caninos se guiam principalmente pelo olfato e pela audição. A quantidade de células receptoras do olfato em um cachorro é quarenta vezes maior e seu ouvido consegue captar sons que estão a uma distância quatro vezes maior que a percebida pelo homem. Isso significa diferenças tão profundas que muitas vezes escapam à compreensão do dono do animal. "A 'Kika' é muito vaidosa, adora coisas de menina como roupas cor-de-rosa", diz a curitibana Sonia Mocelin Schiller, sobre sua cadelinha lhasa apso. Bem, o olho canino só percebe tons de cinza, azul e amarelo. Para eles, o cor-de-rosa simplesmente não existe. Cães não se sentem bonitos ou feios. Na verdade, sua autoconsciência é limitada. Eles nem sequer reconhecem a própria imagem no espelho. A satisfação da cadelinha Kika nada tem a ver com a roupinha feminina. O cão fica alegre porque seus donos reagiram da mesma maneira. Engana-se quem acha que o seu cachorrinho tem ciúme do bebê porque pensa que o dono gosta mais do recém-chegado. Tudo o que ele consegue identificar é que alguém está recebendo uma atenção que ele gostaria de ver dirigida para ele. Cachorro, apesar das aparências, não é gente.

 

 

 
 
 
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