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Especial
Anderson
Schneider  | OS
TRÊS CULPADOS Yasmin e Carol, os poodles, e Isabel,
a boxer, se sentem culpados se fazem algo errado, acredita a dona deles, Carla
Rosanova Sotto, de Brasília. Certa vez, espalharam pelo chão da cozinha todos
os petiscos preparados para uma festa. "Quando descobri, eles disfarçaram fazendo
cara de paisagem", diz Carla |
Bem, cães não pensam. Mas, segundo estudos recentes, eles realmente
são bastante inteligentes e adotam muitas características
humanas  Ruth
Costas
O cão é
o melhor amigo do homem há 12.000 anos. Nenhuma amizade duraria tanto não
fosse construída sobre a sólida base de compreensão mútua
e companheirismo. O animal vive em nossa casa, ajuda no trabalho do campo, serve
de vigia, brinca com as crianças e nos recebe com festas no fim do dia.
Enfim, é praticamente um membro da família. Não é
difícil entender por que muita gente, encantada com as habilidades do animal,
se deixa convencer de que seu bicho de estimação compartilha sentimentos
tipicamente humanos, como ciúme, inveja, vaidade e até algum tipo
de pensamento canino. Que outra explicação poderia haver para o
comportamento da cadelinha poodle que adora ver novelas, em São Paulo?
" 'Tiffany' até tenta mudar de canal quando começam os comerciais,
mexendo no controle remoto", diz sua dona, a psicóloga Marineide Pereira.
Bem, para início de conversa, é bom dizer logo que cão não
pensa. A noção de pensamento está ligada à capacidade
de conceituar e abstrair o mundo que nos rodeia e de utilizar a linguagem. "Por
esse critério, só o homem é capaz de pensar", observa Renato
Sabbatini, neurocientista da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e fundador
do primeiro laboratório a estudar as bases neurológicas do comportamento
animal no Brasil. Já inteligência
é outra história. Uma definição bem-aceita de inteligência
a caracteriza como a capacidade de resolver problemas empregando processos cognitivos
como memória, aprendizado, raciocínio e comunicação.
Com certeza o comportamento dos cães demonstra fortes indícios de
inteligência mas até onde pode chegar a compreensão
desses animais? É curioso, mas só nos últimos dez anos a
ciência passou a estudar a fundo a mente do melhor amigo do homem. De 1970
a 1995 foram publicados entre cinco e dez trabalhos científicos sobre cachorros,
segundo o antropólogo americano Brian Hare, do Instituto Max Planck, em
Leipzig, na Alemanha. De 1995 para cá foi quase uma centena. Hare aponta
três grandes descobertas sobre o universo canino nesse período:
A primeira é que a relação de
confiança e companheirismo que une o cachorro ao homem é realmente
bastante forte. "Muitas vezes o cão prefere ficar com os seres humanos
a interagir com outros cachorros", diz Hare. Pesquisas feitas na Universidade
Eotvos Loránd, na Hungria, mostraram que, ao ser colocado diante de dois
vasilhames, um vazio e outro com pedaços de salame, um cachorro prefere
seguir uma indicação humana que o leve a procurar alimento no recipiente
vazio a confiar no próprio olfato e se dirigir para o recipiente cheio.
A segunda descoberta é
que o cão é o animal que melhor interpreta o homem. Ao longo desses
milhares de anos de convivência, o cachorro se especializou em observar
e reagir ao comportamento humano. Em pesquisas que testam a habilidade de seguir
as instruções humanas para encontrar alimentos e a capacidade de
perceber o foco da atenção das pessoas, o cachorro se sai melhor
até que os grandes primatas, nossos parentes mais próximos na árvore
da evolução. Um grupo de cientistas húngaros liderados pela
bióloga Zsófia Virányi replicou com cachorros uma experiência
que havia sido feita com chimpanzés na Universidade da Louisiana, nos Estados
Unidos. Os animais foram colocados na presença de duas pessoas comendo
sanduíche, sendo que uma estava olhando para os cachorros e a outra não.
Os cachorros só pediram comida a quem podia vê-los, enquanto os chimpanzés
não conseguiam perceber a diferença.
A terceira constatação é que a capacidade de aprendizagem
do cachorro é ainda maior do que se pensava. Há dois anos, cientistas
do Instituto Max Planck estudam um cachorrinho da raça border collie que
já decorou o nome de 200 objetos. Em uma experiência, foram colocados
oito objetos em uma sala, sete dos quais "Rico" conhecia. O dono então
pediu ao cachorro que trouxesse o objeto cujo nome ele não sabia. Em sete
de dez tentativas, Rico trouxe para o dono o objeto certo, de nome desconhecido,
numa evidência de que os cachorros são capazes de aprender fazendo
um raciocínio de exclusão. No Brasil, uma equipe do Instituto de
Psicologia da Universidade de São Paulo treina há quatro anos uma
cadela vira-lata chamada "Sofia". "Escolhemos uma vira-lata para evitar que qualquer
capacidade fosse atribuída a uma raça superinteligente", diz o psicólogo
César Ades, que coordenou a pesquisa. Sofia aprendeu a obedecer dois comandos
simultâneos, como "pega a bolinha" e "aponta o sapato". Roberto
Setton
 | OS
VINGATIVOS Os dois basset hounds da foto roeram
a fiação e o reboco da casa. O dono deles, Denis Jorge, de São Paulo, acha que
foi vingança por ele ter começado a voltar tarde do trabalho e abolido o passeio
noturno com os cães. "Diante dos protestos, fui obrigado a contratar um funcionário
do prédio para sair com eles", diz Denis |
A habilidade de responder prontamente ao menor gesto ou aos sinais de alteração
de humor de uma pessoa faz com que se tenha a impressão de que o cachorro
é capaz de entender como seus donos pensam. "Na realidade, o cão
não consegue interpretar os pensamentos e sentimentos do homem, apenas
responde aos sinais externos emitidos por ele", disse a VEJA o psicólogo
americano David Premack, especialista em comportamento animal da Universidade
da Pensilvânia. Uma pesquisa feita no ano passado pela americana Alexandra
Horowitz, da Barnard College, em Nova York, concluiu que os caninos têm
uma forma muito rudimentar da chamada "teoria da mente" que se refere à
habilidade de um indivíduo de se colocar no lugar do outro. Eles são
capazes de projetar no homem percepções e intenções,
desde que isso dependa apenas de uma análise do ambiente que os cerca.
Por exemplo: um cão consegue avaliar se determinada comida está
fora do alcance de seu dono, para roubá-la sem ser notado, e pode tentar
pegar a comida antes, se perceber que a intenção do dono é
disputá-la. A associação
com o homem representou uma tremenda vantagem na luta pela sobrevivência.
Há hoje 370 milhões de cães em todo o mundo. Só no
Brasil são 29 milhões, segundo a Associação Nacional
dos Fabricantes de Alimentos para Animais de Estimação. A adaptação
canina foi tão completa que, afirmam os cientistas, certas características
do comportamento humano foram de fato transmitidas para o cão. Mas, também
nesse aspecto, é prudente não exagerar. "Meus cachorros sabem muito
bem quando fazem algo errado e se sentem culpados", diz Carla Rosanova Sotto,
funcionária pública em Brasília e dona de um boxer e dois
poodles. Certa vez, quando dava uma festa, ela entrou na cozinha e encontrou os
petiscos e canapés espalhados pelo chão. "Não havia nem sinal
dos cães, porque nessas ocasiões eles saem de mansinho, se escondem
e, quando me encontram, desviam o olhar", diz Carla. Ela define o comportamento
dos cães como "envergonhado". Não é nada disso. "Eles sabem
que vão levar uma bronca porque percebem que o dono está nervoso
ou porque, no passado, aprenderam que, quando ele entra na cozinha e há
bagunça no chão, são castigados", explica o zootecnista Alexandre
Rossi, especialista em psicologia canina e um dos responsáveis por uma
pesquisa que reuniu mais de 1.000 relatos de donos de cachorros sobre as habilidades
de seus cães. Em experiências que simularam situações
desse tipo, nem sempre o animal que se escondia ou colocava o rabinho entre as
pernas tinha sido o responsável pela bagunça. Fotos
Lailson Santos
 | A
DONA DA CAMA Julia Roberts, a lhasa apso da paulista
Adriana Kishimoto, "morre de ciúme" da nova cadelinha, a Tookie, de 3 meses. "Julia
é desaforada: sempre dormiu comigo e agora obriga a Tookie a dormir no chão",
diz Adriana |
Os cães
têm apenas emoções simples, como alegria e tristeza. Para
sentir vergonha ou culpa seriam necessários raciocínios complexos
e julgamento de valor, que eles não são capazes de fazer. Por isso,
também não adianta esfregar o focinho do cachorro na bagunça
e gritar com ele, para que aprenda a não fazer mais isso, como muita gente
acredita. O animal simplesmente não é capaz de compreender que ao
apontar a bagunça você está querendo mostrar sua irritação
com algo que ele fez no passado. A punição só tem efeito
se ele for pego no flagra. "A memória de longo prazo do cachorro é
limitada e não lhe permite associar a bronca com algo que fez uma ou duas
horas atrás", disse a VEJA o psicólogo americano Clive Wynne, da
Universidade da Flórida, autor do livro Animais Pensam?.
O mesmo raciocínio vale para a crença de que alguns cães
tomam atitudes vingativas. "Lola" e "Napoleão", a dupla de basset hounds
do administrador de empresas Denis Jorge, roeram a fiação e o reboco
das paredes quando, por uma mudança em sua rotina profissional, ele reduziu
as caminhadas diárias que fazia com os animais. "Foi uma forma de protestar
para eu retomar os passeios", entendeu Denis. Mais uma vez é uma interpretação
humana para um comportamento canino. "Ficar sozinho provoca ansiedade no cão
e, como não há ninguém para impedir, ele extravasa fazendo
coisas que lhe dá prazer", disse a VEJA o psicólogo americano Stanley
Coren, da Universidade de British Columbia, no Canadá, autor do livro Como
Pensam os Cães. Roer libera dopamina no cérebro do animal e
o faz se sentir bem. Se a vítima é aquele sapato que custou os olhos
da cara é porque o calçado provavelmente tem um cheiro familiar.
Na ausência do dono, os cachorros buscam interagir com objetos que evocam
a sua presença.  | FÃ
DE NOVELAS " A Tiffany não gosta muito dos comerciais
e quando eles começam vai dar uma volta ou tenta mudar o canal", diz a psicóloga
Marineide Pereira, de São Paulo. Muitas vezes, quando sai, ela deixa a TV ligada
para dar distração à cadelinha, que prefere novela |
Os cães têm uma percepção do mundo a sua volta bem
diferente da humana. Enquanto 70% das informações recebidas pelo
homem são visuais, os caninos se guiam principalmente pelo olfato e pela
audição. A quantidade de células receptoras do olfato em
um cachorro é quarenta vezes maior e seu ouvido consegue captar sons que
estão a uma distância quatro vezes maior que a percebida pelo homem.
Isso significa diferenças tão profundas que muitas vezes escapam
à compreensão do dono do animal. "A 'Kika' é muito vaidosa,
adora coisas de menina como roupas cor-de-rosa", diz a curitibana Sonia Mocelin
Schiller, sobre sua cadelinha lhasa apso. Bem, o olho canino só percebe
tons de cinza, azul e amarelo. Para eles, o cor-de-rosa simplesmente não
existe. Cães não se sentem bonitos ou feios. Na verdade, sua autoconsciência
é limitada. Eles nem sequer reconhecem a própria imagem no espelho.
A satisfação da cadelinha Kika nada tem a ver com a roupinha feminina.
O cão fica alegre porque seus donos reagiram da mesma maneira. Engana-se
quem acha que o seu cachorrinho tem ciúme do bebê porque pensa que
o dono gosta mais do recém-chegado. Tudo o que ele consegue identificar
é que alguém está recebendo uma atenção que
ele gostaria de ver dirigida para ele. Cachorro, apesar das aparências,
não é gente. |