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Economia
Por que o Brasil não cresce
como a China e a Índia?
Sete ganhadores do Prêmio Nobel
de Economia dizem, em entrevistas
exclusivas a VEJA, quais são as
amarras que impedem o país de
crescer como os gigantes asiáticos

Giuliano Guandalini
Montagem sobre ilustração
Sandro Castelli
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A pergunta do título acima resume o
tema mais instigante do debate econômico brasileiro atual.
Até 1980, o Brasil ponteava entre as nações
que mais cresciam no planeta. O país chegou a exibir taxas
de crescimento anuais superiores a 10% em 1973, bateu em
14%. Hoje os brasileiros amargam um dos piores desempenhos comparativos.
De 1996 a 2005, China e Índia avançaram a um ritmo
anual de 9% e 6%, respectivamente. No mesmo período, a média
brasileira foi pouco superior a 2%, enquanto a renda per capita
nacional, um dos principais indicadores do padrão de vida
de uma sociedade, permanecia estagnada.
Em sua última edição,
VEJA esquadrinhou, em uma reportagem especial, o espetacular momento
atual da China. Em junho passado, outra reportagem de capa mostrou
o despertar da Índia. Nas páginas que se seguem, sete
ganhadores do Prêmio Nobel de Economia refletem, a pedido
de VEJA, sobre as razões que fizeram a economia brasileira
descarrilar tirando o Brasil das primeiras posições
hoje ocupadas por China e Índia. Os economistas ouvidos pela
revista Paul Samuelson, James Heckman, Robert Mundell, Douglass
North, Robert Solow, Gary Becker e Edward Prescott formam
o time de pensadores que colocou de pé os fundamentos da
moderna ciência econômica do pós-guerra. São
observadores agudos, com graus diferentes de interesse na realidade
brasileira mas com a mesma curiosidade e honestidade intelectual.
Com certa razão, opiniões
vindas de fora costumam ser rechaçadas sob o argumento de
que quem as profere vai estar longe, protegido, portanto, dos efeitos
das receitas que prescreve para os países emergentes. Não
é, em absoluto, o caso aqui. Os entrevistados não
oferecem receitas prontas para o Brasil. Em seus depoimentos eles
se limitam a apontar as medidas, atitudes e reformas que ajudaram
outros países em estágio de desenvolvimento semelhante
ao brasileiro a acelerar a modernização de sua economia
e aumentar dramaticamente o padrão de bem-estar de seus habitantes.
Em comum, os depoimentos têm a ênfase em apontar o custo
econômico do populismo assistencialista e os prejuízos
causados pelo que um deles define como "capitalismo de compadrio".
Essa distorção protege grupos econômicos ineficientes
e impede a abertura e o florescimento de forças inovadoras
na economia. Como era de esperar, o tamanho do Estado e o excesso
de burocracia e de regulamentação também foram
apontados como entraves graves ao desenvolvimento. Curiosamente,
nenhum deles apontou os juros elevados ou a infra-estrutura precária
(diagnósticos mais freqüentes no debate nacional) como
causas basais do baixo crescimento do país. Como disse, em
um de seus parcos acertos, o economista alemão Karl Marx
(1818-1883), os países e também as pessoas
não são aquilo que pensam, mas, sim, como eles
são observados. Os depoimentos dos economistas ouvidos para
esta reportagem têm o valor intrínseco de ser fruto
da observação de mentes poderosas e carregam ainda
o valor de terem largo poder de influência sobre os investidores
e agentes de mercado.
GARY
BECKER
Nacionalidade: americana
Idade: 76 anos
Universidade de Chicago
Nobel de 1992
Feito: deu nobreza à análise econômica
dos fenômenos do comportamento humano
Capitalismo de compadrio
"É mais fácil entender por que a China e a Índia
estão crescendo rapidamente do que compreender o que se passa
na América Latina e no Brasil. Dos anos 1940 até meados
dos anos 1980, os chineses e os indianos praticamente não
progrediram. Sob o peso de economias centralizadas e estatais
comunismo na China e um socialismo inespecífico na Índia
, chineses e indianos viram seus países estagnar. Os
dois governos detinham controle total sobre os investimentos. A
China começou a reformar o setor agrícola no fim dos
anos 1970, ao permitir que os camponeses ficassem com parte daquilo
que produziam. Gradualmente, o mesmo começou a ser feito
com a indústria. Hoje o setor privado é predominante.
A tributação é baixa, há menos burocracia
e regulamentação. Em vez de fugirem para Taiwan ou
Hong Kong, agora os talentos chineses podem ficar no país.
Na Índia a história
é parecida. Houve uma abertura no fim dos anos 80 e início
dos 90. Atividades foram transferidas à iniciativa privada,
a tributação caiu e a burocracia diminuiu. Mas é
lógico que ambos os países asiáticos começaram
a crescer a partir de um nível muito baixo e, ainda hoje,
apesar do salto produtivo, são bastante pobres especialmente
a Índia, cuja renda per capita, de 3 000 dólares por
ano, é metade da chinesa. Caso mantenham as reformas de orientação
capitalista, esses países têm potencial para avançar
rapidamente ao longo das próximas décadas. O Japão
cresceu muito durante quarenta anos. Taiwan fez o mesmo ao longo
de trinta.
Já a América Latina
é um mistério. Há o caso de sucesso do Chile,
cujo modelo é similar (até mais extremo) ao chinês
e ao indiano abertura da economia, redução
do estatismo e da burocracia, mercado de trabalho mais flexível.
Graças a esse modelo, o Chile vem tendo sucesso nos últimos
25 anos. Por que o resto da América Latina não produz
os mesmos resultados? A minha opinião é que o Brasil
ainda resiste a fazer as reformas executadas pelo Chile. O México,
depois dos últimos ajustes, avançou bastante. Sobrou
ainda muita burocracia e regulamentação, em especial
no mercado de trabalho. Há ainda o que eu chamaria de
"capitalismo de compadres" algumas famílias ou setores
privilegiados conseguem favores e empréstimos do governo.
No caso mexicano, no setor televisivo e nas telecomunicações.
Suspeito que isso também seja verdadeiro em outros países
da América Latina, como o Brasil. Eu diria que esse compadrio
é uma das principais causas do atraso econômico da
região."
JAMES
HECKMAN
Nacionalidade: americana
Idade: 62 anos
Universidade de Chicago
Nobel de 2000
Feito: criou métodos precisos de avaliação
do sucesso de programas sociais, de educação e de
leis trabalhistas
O peso da burocracia e da educação ineficiente
"O maior obstáculo ao crescimento brasileiro é o excesso
de burocracia e regulamentações. Qualquer observador
externo percebe isso. Essa característica representa um custo
enorme para quem queira fazer negócios. Faltam incentivos
para que as pessoas possam ser mais competitivas. É o que
a China e a Índia estão fazendo. No Brasil esses
estímulos são muito tímidos, predomina um pensamento
que lembra o mercantilismo, de viver em um mundo de castas e protegê-lo
do jeito que ele é. Não há uma economia competitiva
e flexível, na qual as pessoas abram empresas, fechem empresas,
contratem bons funcionários, demitam maus funcionários,
contratem bons professores, demitam os professores ruins. É
uma influência negativa que o país teve dos europeus,
de todas aquelas velhas instituições de Portugal e
da Espanha. A América Latina tem mais regulamentações
do que a Europa. O custo de contratar um funcionário é
muito elevado no Brasil, e isso desacelera a economia. Se você
tentar evitar que o desemprego aumente nos períodos ruins,
o emprego também não vai melhorar muito quando as
coisas forem bem. Essa inflexibilidade amarra a economia.
A questão política
também afeta o avanço brasileiro. As reformas chilenas
demoraram quase dez anos para dar resultados. A existência
de um governo autoritário tornou relativamente fácil
sustentá-las. Em alguns países, como Nova Zelândia
e Inglaterra, as reformas foram feitas em ambiente democrático.
A situação era tão difícil que as pessoas
perceberam que as coisas não poderiam permanecer daquele
jeito. As greves fizeram a população se virar contra
os sindicatos. Surgiu um novo sindicalismo, muito mais responsável.
O legado de Margaret Thatcher talvez seja um pouco mais de desigualdade
social, mas um crescimento econômico muito maior. Tony Blair
manteve as mesmas políticas. Não houve reestatização,
não apareceram novas estatais. As pessoas perceberam que
o modelo estatista, sucesso do pós-guerra, já não
funcionava. Isso soa como pregar ao vento na América Latina,
se olharmos para o que está acontecendo na Bolívia
ou na Venezuela. Há uma onda contrária às reformas
na região. As boas lições nunca foram aprendidas
de verdade.
Para piorar, os políticos
costumam ter uma visão de curto prazo. Querem eliminar a
desigualdade, e como fazem isso? Dando dinheiro para os pobres.
Essa política pode até reduzir a desigualdade no curto
prazo, mas investir nas crianças e na qualidade da escola
criaria bases mais sólidas para o aumento na qualidade de
vida. O Brasil incrementou os gastos no ensino básico nos
últimos anos, mas os níveis ainda são muito
baixos. Isso ajuda a perpetuar a diferença de classes, porque
os ricos podem pagar por boas escolas, e solapa o potencial de crescimento.
Alguns atribuem o forte crescimento da Irlanda, nos últimos
vinte anos, à melhora do ensino básico. Uma nova geração,
com uma educação superior à de seus pais, ingressou
na economia e pôde participar do milagre irlandês. Foi
um pré-requisito para o crescimento de hoje."
DOUGLASS
NORTH
Nacionalidade: americana
Idade: 86 anos
Universidade Washington, em Saint Louis
Nobel de 1993
Feito: foi pioneiro no estudo do papel virtuoso das
instituições na diminuição dos custos
de transação que emperram o desenvolvimento
O assalto de grupos de interesses
Walter Bibikow/Getty Images
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VANTAGEM
COMPARATIVA
O inglês fluente
dos indianos atrai investimentos no setor de serviços
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"Assim como na maioria dos países do Terceiro Mundo, há
no Brasil uma aliança muito próxima entre interesses
políticos e econômicos. Um grupo de privilegiados alimenta
o outro, e vice-versa. O resultado é uma barreira para a
competição e para mudanças institucionais inovadoras
e criativas. A meu ver, é isso que impede o Brasil de se
tornar um país de alta renda. Trata-se de uma questão
de teoria política, não econômica. Sempre que
um determinado grupo controla o sistema político, ele o usa
para seu próprio benefício, em detrimento dos interesses
da população como um todo. O Brasil é um
país cheio de promessas e possibilidades, mas que foi tomado
de assalto por grupos de interesse que souberam se aproveitar do
Estado para seus próprios benefícios. E ainda se aproveitam.
Esses grupos se protegem da competição, numa ação
que tende a fechar a economia e barrar a eficiência. Justiça
seja feita, esse fenômeno também existe na China. É
vital notar, no entanto, que, devido ao fato de a abertura ser a
pedra de toque do crescimento chinês, o país não
sofre tanto com essa distorção quanto o Brasil.
Já conhecemos o potencial
das economias chinesa e indiana. Vale a pena apontar as vulnerabilidades,
como fiz com relação ao Brasil. A China e a Índia
abraçaram os princípios da economia de mercado e começaram
a crescer rapidamente. Mas há problemas à vista. No
caso chinês, ainda existem muitas empresas nas mãos
do governo, negócios pouco eficientes que acumulam grandes
prejuízos. Só sobrevivem por causa dos subsídios.
O resultado é que boa parte da poupança privada dos
chineses é canalizada para negócios ineficientes.
É um desequilíbrio que oferece desafios. Há
outros dilemas. Os chineses não avançaram em alguns
aspectos que considero pré-requisitos para o crescimento
de longo prazo, como um direito de propriedade privada claramente
definido, independente das vontades de burocratas. Os negócios
ainda giram muito em torno de autoridades governamentais que estão
sempre tentando interferir no sistema. Por isso acho que, enquanto
não houver o respeito às leis e não existir
um sistema bem definido de relações impessoais entre
empresários e governo, não dá para ter certeza
de que a China continuará crescendo tão rapidamente.
Os chineses começarão a se defrontar com várias
e várias fragilidades daqui para a frente. As pessoas estão
se tornando mais ricas, e começam a ser criados grupos de
interesse que, a exemplo do Brasil, tentam cada vez mais interferir
nas decisões.
A Índia é uma história
diferente, porque sempre foi um país repleto de grupos de
interesse e privilégios. O que o país está
tentando fazer é livrar-se gradualmente dessas limitações
e tirar proveito do imenso potencial que suas enormes dimensões
lhe propiciam. As perspectivas são boas, mas os indianos
sempre se defrontam com seus dilemas históricos. As castas
mais influentes podem tentar restabelecer privilégios e,
a qualquer momento, podem sair vitoriosas."
ROBERT
SOLOW
Nacionalidade: americana
Idade: 82 anos
MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts)
Nobel de 1987
Feito: criou o modelo neoclássico de crescimento
econômico com ênfase no progresso tecnológico
O desafio é a estabilidade
Koichi Kamoshida/Getty Images
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MOEDA
COMPETITIVA
O crescimento liderado
pelas exportações elevou o padrão de vida
dos japoneses |
"Não há nenhuma razão intrínseca para
que o Brasil não tenha o sucesso dos asiáticos. É
uma questão de seguir políticas adequadas, o que é
mais difícil quando o governo não tem uma maioria
estável no Congresso. Nenhum país com tradições
democráticas, como o Brasil, poderia manter, como faz a China,
uma enorme população rural em situação
de extrema pobreza. Ser um país democrático traz certas
limitações. Aqui não vai uma crítica
à democracia só um registro de que, apesar
dos méritos inegáveis desse sistema, é mais
difícil para o Brasil ter a estabilidade política
que lhe permitiria crescer rapidamente. O país tem potencial
de sobra para progredir numa velocidade maior. Não 9% ou
10%, como a China esse é um fenômeno característico
dos estágios iniciais do desenvolvimento. Mas a renda per
capita brasileira poderia experimentar um salto se boas políticas
fossem perseguidas. Por isso a estabilidade é tão
crucial. Se os investidores suspeitarem que haverá mudanças,
eles tenderão a refrear novos projetos.
Por essa razão, o desafio
do Brasil não é imitar a China, mas manter a estabilidade.
Não imagino que outros países possam imitar o modelo
chinês. A China possui uma enorme e disciplinada força
de trabalho, e os salários são muito baixos. Além
disso, dispõe de uma situação política
que aparenta ser estável. Por essa razão, companhias
americanas e européias sentem-se seguras para investir lá,
apesar da falta de respeito a direitos autorais e de propriedade
esses problemas inibem alguns investidores, é verdade,
mas os ganhos advindos do baixo custo de mão-de-obra são
vantajosos e fazem os empresários assumir o risco. Somem-se
a isso o fato de a China ter um grande saldo no balanço de
pagamentos, algo que dissipa quaisquer dúvidas sobre a transferência
dos lucros às matrizes, e o de sua moeda ter permanecido
desvalorizada, o que estimula as exportações. O resultado
é o despertar econômico que se vê agora. A grande
incerteza é por quanto tempo os chineses conseguirão
conviver com salários em níveis tão baixos.
Já começa a haver alguma tendência de aumento.
É um grande paradoxo. Karl Marx pregava que uma das principais
fontes de lucro no capitalismo era a existência de um exército
de proletários desempregados, o que mantinha os salários
sempre baixos. Ironicamente, o maior exemplo jamais visto de um
exército de proletários sem emprego vem da China comunista,
onde centenas de milhões de pessoas estão fora das
grandes cidades, à margem da economia moderna e desesperadas
para sair do campo. Salários baixos significam um nível
reduzido de consumo doméstico. Há novos ricos e uma
classe média se formando na China, é verdade, mas
milhões de trabalhadores produzem para consumidores estrangeiros,
enquanto gastam muito pouco. Não sei até quando isso
pode se manter.
A Índia demorou para começar
a crescer, mas vejo grande potencial para o país. Lá
as empresas ocidentais se sentem mais seguras do que na China na
questão dos direitos de propriedade. E, assim como na China,
tiram benefício do baixo custo de mão-de-obra. Além
disso, os indianos falam inglês, o que lhes possibilita a
inserção no mercado mundial de serviços e de
produtos para a informática. Mas no caso da Índia
será mais difícil, por questões políticas,
evitar que os salários subam conforme o nível de emprego
aumente. Ao contrário da China, é um país democrático.
As dimensões obviamente não são as mesmas,
mas diria que o exemplo de crescimento da Índia guarda semelhanças
com o da Irlanda."
ROBERT
MUNDELL
Nacionalidade: canadense
Idade: 74 anos
Universidade Colúmbia
Nobel de 1999
Feito: estudos revolucionários sobre as políticas
fiscais e de câmbio em economias abertas que levaram, entre
outras coisas, à criação do euro
Protecionismo sufocante
"O Brasil abraçou uma política de desenvolvimento
protecionista num momento em que o restante do mundo estava se abrindo
internacionalmente. Com as inovações avançando
num ritmo vertiginoso, é crucial aceitar essa interdependência
mundial e desenvolver as vantagens comparativas naturais de um país.
O Brasil é um dos países mais fechados do mundo,
ficou em 81º lugar em um ranking de abertura econômica
elaborado pela Heritage Foundation, com informações
de 157 países (o mais aberto é Hong Kong). A característica
comum a todos os países fechados, como o Brasil, é
que eles têm baixa renda per capita. Não há
como ter crescimento sem empresários, sem pessoas que iniciem
novos negócios. Vários países latino-americanos
colocam barreiras ao surgimento de novas empresas. Enquanto nos
Estados Unidos uma companhia pode ser constituída em poucas
horas, na América Latina isso pode levar meses. Países
menos burocráticos, como os Estados Unidos e a China, conseguem
atrair o investimento estrangeiro direto, fundamental para o crescimento
porque traz consigo capital, tecnologia e mercados. O sistema tributário
brasileiro também desestimula os investimentos. Outro requisito
é a estabilidade macroeconômica. Sem ela, não
há crescimento duradouro. Acredito que, no caso de muitos
países, a melhor maneira de obter estabilidade macroeconômica
é tornar-se parte de uma grande área de moeda comum.
A Europa fez isso ao criar o euro, e a moeda tornou-se tão
efetiva quanto o dólar. Várias outras zonas econômicas
planejam a união cambial. A América Latina precisa
seguir essa iniciativa. Por que lidar com quase 100 moedas na região?
O Brasil deveria liderar o Mercosul na direção de
uma maior, e não menor, abertura comercial. Além disso,
deveria defender a existência de uma moeda única da
América Latina. Fiz essa proposição pela primeira
vez há quarenta anos, em 1966. Poderiam dizer que cachorro
velho não aprende truques novos mas, nesse caso, eles
não precisariam. O Brasil deveria ser o centro de uma moeda
sul-americana atrelada ao dólar. Logicamente seria melhor
um único sistema monetário internacional, mas não
dispomos dele hoje. Tivemos um depois da II Guerra Mundial, quando
demos ao Fundo Monetário Internacional o papel de guardião
do sistema de paridade cambial. Hoje temos de escolher sistemas
monetários internacionais que se adaptem à necessidade
da configuração de poder entre as nações.
O sistema funciona com base nas duas principais moedas, o dólar
e o euro. Talvez seja muito complicado e instável.
Essas são apenas sugestões,
talvez não as melhores. O ideal é observar que, nos
últimos sessenta anos, ocorreram três casos de milagre
econômico: o Japão e a Alemanha no pós-II Guerra
e a China, a partir de 1978 e especialmente depois de 1997. Nesses
três casos, o crescimento foi liderado pelas exportações
num regime de câmbio fixo. Recentemente, sob pressão
do FMI, a China flexibilizou um pouco o câmbio. Mas o país
não pode arruinar seu modelo permitindo grandes oscilações
na cotação de sua moeda, o yuan. O sucesso chinês
se deve à sua elevada taxa de poupança, ao enorme
influxo de investimento estrangeiro direto, ao superávit
na balança de pagamentos e à taxa de câmbio
fixa e competitiva. A Índia foi na mesma direção
e tira proveito da abertura comercial que fez na década passada,
além de se valer do fato de seus habitantes falarem inglês,
o que lhes dá vantagem na indústria tecnológica
e de software."
EDWARD
PRESCOTT
Nacionalidade: americana
Idade: 66 anos
Universidade do Arizona
Nobel de 2004
Feito: comprovou a eficácia de políticas
econômicas coerentes a longo prazo
A chave é criar poupança
"O Brasil conseguirá se aproximar do padrão de vida
dos países desenvolvidos somente se os brasileiros estiverem
convencidos de que boas políticas serão perseguidas
ao longo de vários e vários anos. Não basta
implementar as medidas corretas por um curto período. A
única esperança que vislumbro é que o Brasil
se descentralize. Tenho algumas sugestões. Livrem-se da centralização
de poder em Brasília e reduzam drasticamente os impostos
federais. Deixem que os estados da federação ganhem
autonomia e compitam entre si por investimentos. Se algum deles
quebrar, coloquem-no num programa de intervenção,
como foi feito com a cidade de Nova York nos anos 70. Ainda
que sensibilidades possam se ouriçar, é preciso reconhecer
que regimes democráticos, como o brasileiro, não são
precondições para o sucesso econômico. Pelo
contrário: muitos países saíram da pobreza
sob regimes autoritários. Vejam os casos de Pinochet, no
Chile, Franco, na Espanha, Park, na Coréia do Sul, ou Chiang
Kai-shek, em Taiwan. O Brasil teve sua ditadura, mas ela parece
ter piorado as coisas e não alterou a natureza da sociedade
o país não desenvolveu um sistema democrático
baseado na propriedade privada e no consumo, integrado aos países
avançados. O caso mexicano é similar: a economia evoluiu
muito durante o regime autoritário, mas não criou
uma ampla e enraizada sociedade privada.
É fundamental que o Brasil
estimule a criação de uma sociedade privada. Esse
é o motor de qualquer ciclo de expansão sustentável.
Já o combustível é a poupança. Nenhum
país cresce sem um sistema que induza a formação
de poupança. Em Cingapura, o crescimento veio após
a introdução de poupanças compulsórias.
É condição vital, no entanto, que os recursos
sejam bem geridos. Eles não podem ser desperdiçados
nas mãos de governos incompetentes. Instituam um sistema
de poupança crível e, em 25 anos, o Brasil crescerá
rapidamente. Há sempre o risco de o governo expropriar esses
recursos, por isso é crucial dar às pessoas a chance
de escolher onde pôr o seu dinheiro.
A China claramente não
pode continuar crescendo no atual ritmo. Muito de seu rápido
avanço se deve simplesmente à transição
de um setor agrário tradicional para um setor urbano moderno.
Mas a nova economia do país não é tão
eficiente assim. A renda per capita da China deverá se estabilizar
num nível equivalente a 40% da renda dos países ricos.
É minha melhor estimativa. A Índia está crescendo
rapidamente porque o sistema econômico se tornou menos ruim,
mas o desenvolvimento do país não continuará
a não ser que o sistema fique ainda menos ruim. Os indianos
provavelmente alcançarão o nível de renda da
América Latina se se tornarem mais abertos."
PAUL
SAMUELSON
Nacionalidade: americana
Idade: 91 anos
MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts
Nobel de 1970
Feito: lançou as bases da moderna análise
econômica nas teorias de crescimento, consumo, comércio
internacional e equilíbrio de preços e salários
O preço do populismo político
Paulo Vitale
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CUSTO
BAIXO
Na China, mão-de-obra
abundante e barata atrai volumes maciços de investimentos
internacionais |
"O milagre econômico da China e da Índia reproduz um
ciclo historicamente conhecido, por meio do qual tecnologia, conhecimento
e técnicas de engenharia e administração são
disseminados de países mais ricos para os de menor renda.
Isso ocorreu na Europa após a II Guerra Mundial, sobretudo
na Alemanha, na Itália e na França. Esses três
países se valeram da tecnologia dos Estados Unidos e sua
economia começou a crescer mais rápido do que a americana,
usando, para isso, a alavanca das exportações. Enquanto
os Estados Unidos cresciam entre 3% e 4%, esses países avançaram
entre 7% e 8%. Nesse sentido, o principal tema econômico do
pós-II Guerra foi a busca desenfreada de outras nações
por alcançar o nível de renda americano. Num segundo
momento, esse processo também ocorreu na Ásia
inicialmente no Japão e, depois, em Taiwan, Cingapura, Hong
Kong e Coréia do Sul. Surpreende que a Índia só
tenha se juntado ao ciclo mais tarde. É preciso lembrar,
no entanto, que o esforço dos povos mais pobres para atingir
o nível de riqueza dos mais ricos antecede a II Guerra Mundial.
Como dou aulas há quase setenta anos na Nova Inglaterra,
no nordeste dos Estados Unidos, sou testemunha de ciclos econômicos
como esse dentro do próprio território americano.
Primeiro, os estados do norte da costa leste perderam a indústria
de calçados, que migrou para o sul, atraída pelos
salários mais baixos. Depois foi a vez da indústria
têxtil. Mais tarde, as indústrias que haviam migrado
para o sul começaram a se transferir para Porto Rico, México
e Ásia. Quando a China se livrou do maoísmo também
pôde beneficiar-se desse mecanismo, que, em sua essência,
é de mercado. Esse processo só está começando
na China. Saindo do triângulo XangaiPequimHong
Kong, ainda há vastas áreas pouco desenvolvidas, com
uma grande população. Se o sistema político
permanecer estável, o país continuará crescendo.
Já a Índia teve um lento início porque importou
políticas econômicas erradas, antimercado. A história
de nosso tempo é que você pode até não
gostar do mercado, mas não apareceu nenhum modelo alternativo
capaz de organizar grandes populações. Por isso o
processo de equalização de renda entre países
ainda continuará por mais tempo. O que me surpreende é
que os Estados Unidos, que lideraram esse processo, ajudando a abrir
caminho para os que vieram logo em seguida, ainda não foram
superados por nenhuma região, em termos de produtividade
e renda per capita. Não viverei o suficiente para ver se
a China será exceção. Mas acredito que os chineses
poderão atingir um nível de renda equivalente ao dos
países desenvolvidos.
Quanto à América
Latina e ao Brasil, é surpreendente que nunca tenham se beneficiado
desse processo de forma integral, apesar de surtos episódicos
de crescimento. O padrão político de democracias populistas
parece ter sido um fator que inibiu o desenvolvimento. Por que
a Argentina e talvez até mesmo o Brasil, onde não
restavam muitos nativos indígenas e havia muitos imigrantes
europeus, não avançaram como os países asiáticos?
Eu buscaria explicações na política. No caso
brasileiro, há também questões sociológicas.
Vocês herdaram do catolicismo português uma sociedade
sem tradições igualitárias. Minha única
viagem à América Latina foi ao Peru, em 1980. O país
havia acabado de se livrar de uma ditadura, emigrantes estavam retornando
e parecia que haveria progresso. Mas logo depois houve disputas
internas, tensões, e as esperanças nunca se materializaram.
Ciclos de esperança e decepção, como esses,
tornaram-se rotina na região. O Chile talvez seja uma exceção."
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