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Brasil O
PCC ataca. Mas também leva Na semana em
que agiu pela terceira vez, a facção tornou-se alvo da mais
contundente denúncia já apresentada à Justiça

Juliana Linhares e Camila Pereira
Fotos Jorge Santos/Oeste Notícias/Pagos
e Tiago Brand/AE  |
| Marcos Camacho, o Marcola, que sempre negou pertencer
ao PCC: liderança confirmada nas gravações |
Cumprindo uma ameaça
e um calendário que já registra quase uma investida por mês,
a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) deflagrou,
na semana passada, a terceira onda de terror no estado de São Paulo. Desta
vez, o pretexto para os atentados foi pressionar o governo a voltar atrás
na decisão de transferir quarenta detentos ligados à organização
para a prisão federal de Catanduvas (PR), distante quase 1.000 quilômetros
de São Paulo e pioneira no regime de isolamento total (veja
o quadro). De segunda a quarta-feira, integrantes da máfia
formada por presos e ex-presos das cadeias do estado desferiram mais de 100 ataques
contra prédios públicos, forças de segurança, agências
bancárias, postos de gasolina e supermercados. Mais de trinta ônibus
foram incendiados ou atingidos por tiros. As ações envolveram o
uso de armas de fogo, bombas, granadas e coquetéis molotov. Numa das mais
violentas, em Cotia, na Grande São Paulo, dois homens foram mortos em tiroteio
com policiais militares depois de arremessar um coquetel molotov e atirar contra
um prédio da prefeitura. Na capital, uma bomba de fabricação
caseira, acionada por controle remoto, explodiu de madrugada na porta do Ministério
Público Estadual, no centro da cidade. O impacto da explosão abriu
um buraco no chão, danificou o teto e destruiu o detector de metais e a
aparelhagem de raio X da recepção do prédio. Não houve
feridos. A desolação diante de
mais uma investida do crime organizado no estado só não foi maior
do que a causada pelo espetáculo de incapacidade e oportunismo encenado
por autoridades estaduais e federais. Os destaques foram para o secretário
de Segurança Pública do estado, Saulo de Castro Abreu Filho, e o
ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos. A pretexto de discutir
a demora no envio de uma verba de 100 milhões de reais que o governo federal
prometera a São Paulo para a construção de novos presídios,
secretário e ministro protagonizaram um constrangedor bate-boca pela imprensa,
em que cada um se esmerou para mostrar o que tem de pior. Thomaz Bastos
usando do mesmo talento retórico que empregou no governo para ajudar o
presidente Lula e seus colaboradores a livrar-se de enrascadas com a Justiça
enrolou, tergiversou e, por fim, declarou que ainda não mandara
os 100 milhões de reais porque não costuma "jogar dinheiro pela
janela". Saulo respondeu à maneira de Saulo: com modos e linguagem iguais
aos que adolescentes malcriados empregam em brigas de rua. Dizendo-se convicto
de que São Paulo não veria a cor do dinheiro do governo federal
tão cedo, desafiou o ministro a apostar seu emprego contra o dele, caso
estivesse errado. "É cargo por cargo", proclamou (na sexta-feira, o dinheiro
foi finalmente depositado na conta de São Paulo, mas, até o fim
do dia, não se tinha notícia de que o secretário houvesse
pedido demissão). Entre os sofismas de Thomaz Bastos e as bravatas de Saulo,
sobrou espaço para mais uma performance do governador Cláudio Lembo,
aparentemente vítima de uma bipolaridade galopante. O mesmo Lembo que,
diante dos primeiros ataques do PCC, havia declarado que o crime organizado era
"perigosíssimo" e que a onda de violência era fruto da "maldade da
elite branca", parecia ter mudado de idéia na semana passada. Segundo o
governador, a nova onda de ataques do PCC não passa de "um modismo ridículo
e estúpido", obra de "adolescentes".
Celso Junior/AE  | Raimundo
Pacco/Folha Imagem  |
| O ministro Márcio Thomaz Bastos e
o secretário Saulo de Castro (à direita): enquanto São
Paulo pega fogo, um sofisma e o outro bravateia | Nesse
espetáculo de equilíbrio e sensatez, a Justiça também
deu sua contribuição. Na semana passada, a juíza Isaura Cristina
Barreira, da Vara de Execuções Criminais, decidiu manter a autorização
para que 707 presos da capital paulista deixassem as cadeias para comemorar o
Dia dos Pais nas ruas. O Ministério Público (MP) havia pedido a
suspensão da medida, alegando que, neste momento, sua manutenção
seria "extremamente temerária à segurança". Em todo o estado,
o número de detentos que serão autorizados a passar o Dia dos Pais
em liberdade temporária deve chegar a 11.000. Segundo a PM, pelo menos
113 desses presos têm ligação com o PCC. O MP tem boas razões
para temer os efeitos do benefício. A última saída temporária
em massa de presos paulistas ocorreu no Dia das Mães e não
deixou boas lembranças. Foi nessa ocasião que o PCC desferiu sua
primeira onda de ataques, que terminou com 54 feridos e 152 mortos. Pelo menos
dezesseis dos criminosos que participaram dos atentados, apurou o MP, eram presos
beneficiados pela autorização de saída temporária.
Para Walter Maierovitch, especialista em crime organizado e presidente do Instituto
Brasileiro Giovanni Falcone, a Justiça deveria ter suspendido o benefício
há mais tempo. "Agora, a temperatura está altíssima. É
preciso pensar na tranqüilidade da maioria dos cidadãos, e não
na dos presos", afirma Maierovitch. Na mesma semana
em que desferiu sua terceira onda de ataques em três meses, o PCC também
recebeu o que pode vir a ser um duro golpe. Na noite de quarta-feira, ainda sob
o fogo cruzado dos atentados, o Ministério Público Estadual ofereceu
à Justiça a mais robusta denúncia já feita contra
membros da facção desde a sua criação, em 1993. O
documento, ao qual VEJA teve acesso, tem 127 páginas e reúne provas
que incriminam 25 membros do PCC incluindo os líderes Marcos Willians
Herbas Camacho, o "Marcola", Julio Cesar Guedes de Moraes, o "Julinho Carambola",
Rogério Jeremias de Simone, o "Gegê do Mangue", e peças-chave
da organização, como a advogada Maria Cristina Rachado. Para formulá-lo,
o MP baseou-se em cinco anos de investigações feitas em conjunto
com o Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) e
em mais de 200 horas de gravações telefônicas. O trabalho
resultou num dos mais completos relatos sobre a organização criminosa
fundada por presos do extinto presídio conhecido como Anexo do Taubaté.
Além de traçarem um quadro minucioso da estrutura e hierarquia da
facção, incluindo os salários de seus membros (300 reais
por semana para os "recolhes", criminosos responsáveis por recolher dinheiro
nas prisões, e 1.250 reais semanais para encarregados da contabilidade,
por exemplo), os investigadores relatam detalhes daquilo que, afirmam, era o principal
negócio do PCC: o comércio de cocaína dentro das prisões
um monopólio da facção. Conforme revela um papelório
apreendido nas investigações (veja
quadro), apenas em vinte presídios do estado o PCC chegava
a vender uma média de 130 quilos de cocaína por mês. Cada
quilo (ou "cesta", no código da organização) era comercializado
por 4.000 reais. A droga vinha do Paraguai e da Bolívia e era levada às
cadeias por mulheres de presos chegava acondicionada em preservativos que
elas introduziam nos órgãos genitais.
Mais importante do que esmiuçar o modus operandi da organização,
no entanto, o maior trunfo do documento apresentado pelo MP à Justiça
talvez tenha sido provar o que todo mundo já sabia: que Marcola é
o líder máximo do PCC. Comprovar esse fato aparentemente banal era
uma tarefa tão difícil quanto fundamental para a investigação.
Cauteloso e inteligente, Marcola nega pertencer à quadrilha. Jamais fala
ao celular e nunca foi flagrado dando ordens diretas a integrantes da facção.
Diante dessa situação, enviá-lo ou mantê-lo sob o rigorosíssimo
Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) sempre foi uma tarefa espinhosa. Isso porque,
para que a Justiça autorize a transferência de um preso para o RDD,
é preciso que se prove, por exemplo, que ele incita a subversão
no sistema carcerário. Com as conversas interceptadas agora, o trabalho
ficou mais fácil. Em um dos diálogos captados, uma integrante do
PCC, identificada como C.P.A., conversa com um membro do Comando Vermelho preso
no Rio. Em dado momento, ele pergunta a ela se Marcola é "o bravo (líder,
na linguagem da bandidagem) do Primeiro Comando da Capital". C.P.A responde
positivamente, acrescentando que o bandido é também "bonzinho".
Os investigadores estão convencidos de que diálogos como esses garantirão
a Marcola pelo menos mais um ano sob o RDD. A
denúncia oferecida pelo Ministério Público foi encaminhada
à 3ª Vara Criminal da Capital. Caso ela seja aceita, os 25 denunciados
a maioria dos quais está presa em caráter provisório
poderão aguardar o julgamento confinados em uma das temidas celas
do RDD. Para os investigadores, essa medida, mais a iminente transferência
de quarenta líderes da quadrilha para o presídio de Catanduvas,
de isolamento total, marcaria o começo do fim do PCC. Já não
seria sem tempo.
| O CONTRA-ATAQUE DO MP
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| Papel obtido pela polícia mostra a venda de "cestas"
(quilos de cocaína) nas cadeias; acima, mensagem em que o PCC ordena
o segundo ataque. Entre as ordens: pichações contra o governo Alckmin
e olho nos "viagras" agentes penitenciários, no código da
facção |  |
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| AS
FITAS DO PCC
Desde o primeiro ataque massivo do PCC
em São Paulo, espalhou-se a notícia da existência de gravações
telefônicas que revelariam uma suposta ligação da máfia
dos presídios com políticos do PT. VEJA teve acesso a uma série
de diálogos entre membros da organização criminosa, interceptados
pela polícia, contendo referências ao PT e ao PSDB. Neles, fica evidente
a simpatia do PCC pelo PT, bem como a aversão da organização
pelo PSDB (foi na gestão tucana, em 2003, que o estado de São Paulo
implantou em alguns presídios o temido RDD Regime Disciplinar Diferenciado,
que prevê isolamento rigoroso e é odiado pelos detentos). Nenhuma
das conversas às quais VEJA teve acesso, no entanto, comprova a existência
de elo entre o PT e o PCC.
Agliberto Lima/AE  |
| José Genoíno, durante campanha para o governo de São
Paulo: o PCC o preferia | "É
PRA ELEGER O GENOÍNO" Maria de Carvalho
Felício, a "Petronília", então mulher de José Márcio
Felício, ex-líder do PCC, transmite ao preso José Sérgio
dos Santos, a quem chama de "Shel", orientação repassada por um
líder da organização sobre as eleições de 2002
Maria de Carvalho Felício: Ele mandou
uma missão pro Zildo (piloto-geral de Ribeirão Preto). Vamos
ver se o Zildo é capaz de cumprir. José
Sérgio dos Santos: Tá bom. Você quer passar pra mim ou
dou particularmente pra ele? Maria: Não,
não. Ele quer festa (ataques) até a eleição.
E é pra eleger o Genoíno. E, ser for o caso, ele vai pedir pro pessoal
mandar as famílias não irem nas visitas pra votar, entendeu? Ele
falou que um dia sem visita não mata ninguém. Ele falou: "Fica todo
mundo sem visita no dia da eleição pra todo mundo votar pro Genoíno".
Santos: Não, mas isso... Acho que
todo mundo... A maioria das mulher de preso... Vai votar no Al? Nunca.
Maria: Então, é pra pedir isso. Se,
por exemplo, a mulher vai, daí a mãe, a irmã tudo vota pro
Genoíno. Se só a mulher que vota, então essa mulher não
vai na visita e vota no Genoíno. É pra todo mundo ficar nessa sintonia:
Genoíno. Santos: E é dali
que vem, né? Maria: Isso. É
o (incompreensível) Santos:
Tá bom. Maria: Tá bom, então?
Santos: Tô deixando assim um boa-tarde
aí. Se cuida agora. Vai descansar. | | "É
XEQUE-MATE, SEM MASSAGEM"
Conversa entre dois
integrantes não identificados do PCC interceptada às vésperas
de um dos ataques em São Paulo A:
A chapa esquentou pra nóis, hein, irmão. B:
Por quê? A: Olha o salve do dia aqui.
Geral aqui, que eu acabei de pegar com o Cara Branca: "Todos aqueles que são
civil, funcionário e diretores e do partido PSDB: xeque-mate, sem massagem.
E todos os irmãos que se (incompreensível) será cobrado
com a vida. Salve geral, dia 12/6". Peguei ele meio-dia. B:
Fé em Deus. Você tá aí na quebrada, irmão?
A: Tô aqui na quebrada. Vem pra cá
que nós vamos puxar esse bando. Eu vou arrumar um menino bom pra nóis
derrubar esse baguio aí, tio. B:
Então, é o seguinte, irmão: vou ver se dá pra mim
ir hoje praí. A: Então, se
não der, arruma umas ferramentas (armas) aí. Nem que seja
uns oitão. Pra gente juntar o baguio aí e sair no bonde aí.
B: Tá. Firmeza | | |
| POR QUE
ELA ASSOMBRA
Jonathan Campos/Gazeta do Povo  |
| Corredor do presídio de Catanduvas, (PR): banho
de sol na cela | A simples idéia de ser
removido para o Presídio Federal de Catanduvas, no Paraná, faz os
criminosos do PCC suar frio. Primeiro, por causa do isolamento que a prisão
impõe: Catanduvas fica a quase 1 000 quilômetros de São Paulo,
base da facção. Segundo, porque lá, no caso dos presos submetidos
ao Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), a solidão é quase absoluta.
Se, no presídio de segurança máxima de Presidente Bernardes
(SP), os presos podem ter contato com outros ao menos na hora do banho de sol,
em Catanduvas, nem isso. Lá, o prisioneiro do RDD ocupa sozinho uma cela,
faz sozinho as refeições e também sozinho toma seu banho
de sol. Além disso, cada agente penitenciário possui um microfone
na lapela permanentemente ligado a uma central. A medida para evitar tentativas
de suborno acaba desestimulando conversas inocentes com os vigiados. Com
isso, os presos do RDD se vêem privados de qualquer contato humano. As celas
são revistadas diariamente e os presos não podem manter nelas nenhum
objeto pessoal, nem mesmo livros. Para seus futuros hóspedes, no entanto,
Catanduvas reserva uma notícia alentadora. Diferentemente do que ocorre
em Bernardes, lá as visitas íntimas poderão ser permitidas,
a critério do diretor e dependendo do preso o caso de Fernando Beira-Mar,
único detento de Catanduvas hoje, ainda está sendo analisado.
Rafael Corrêa | |
Com reportagem de Renato
Piccinin e Renata Pena |