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Brasil Ela
pode decidir a eleição
No Nordeste, onde Lula esmaga Alckmin, o voto de um grupo peculiar de eleitoras
pode ser decisivo para definir quem será o próximo presidente
 Julia
Duailibi, de Irará, Bahia
Com seus 34 milhões de eleitores
espalhados por nove estados, o Nordeste está virando o palco da grande
batalha eleitoral deste ano. Ali, onde se concentra o segundo maior colégio
eleitoral do país, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva cravou
uma vantagem enorme sobre seu principal adversário, o ex-governador Geraldo
Alckmin. Na pesquisa do instituto Datafolha divulgada na semana passada, Lula
aumentou de 63% para 65% sua cotação entre os eleitores nordestinos,
enquanto Alckmin se manteve em modestíssimos 13%. Desdobrando-se os porcentuais,
Lula tem cerca de 22 milhões de votos, contra 4 milhões de Alckmin.
Se Lula mantiver sua formidável dianteira no Nordeste, ou seja, se Alckmin
não conseguir crescer entre os eleitores da região, é quase
certo que o atual presidente será reeleito. Por isso, a conquista dos corações
e mentes dos eleitores nordestinos tem estado no centro das preocupações
dos dois candidatos nos discursos, nas viagens e nos esboços de
programas feitos até agora. Mas que nordestinos são esses que decidirão
a eleição? São homens ou mulheres? Foram à escola?
Quanto ganham por mês? Com o
auxílio de técnicos do Datafolha, VEJA identificou o segmento do
eleitorado nordestino cujo voto, em última instância, poderá
definir o resultado da eleição presidencial. São eleitores
que estudaram até o nível médio e cuja renda familiar não
supera 700 reais. Ao todo, eles comandam 24 milhões de votos. Dentro desse
vasto segmento, o grupo numericamente mais expressivo é composto de mulheres
de até 44 anos. Em números absolutos, elas formam um exército
de 8,5 milhões de eleitoras, que corresponde a 25% do eleitorado nordestino.
Esse contingente tem se comportado de forma tão compacta e homogênea
na eleição neste momento, votam majoritariamente em Lula
que sua força se tornou perceptível e mesmo capaz de alterar,
ao seu próprio gosto, o nome do próximo presidente da República.
Se essas eleitoras ficarem com Lula, como a maioria está hoje, o presidente
tem todas as chances de ser reeleito caso, naturalmente, sua preferência
não desabe nas demais regiões. Se uma parte significativa dessas
eleitoras se inclinar para Alckmin, e esse movimento vier acompanhado de um crescimento
razoável nas outras regiões do país, o tucano volta a ter
chances reais de derrotar o atual favorito nas intenções de voto.
Orlando
Brito
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Ricardo Stuckert/PR
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GUERRA NO SERTÃO Alckmin (à
esq.), que já fez dez visitas ao Nordeste, e Lula, que abriu sua campanha
no Recife: a aposta tucana para reverter a arrasadora vantagem de Lula na região
é o horário eleitoral na TV |
A decisão, portanto, pode estar nas mãos de mulheres como Gilmara
dos Santos Cerqueira, uma baiana de 27 anos, separada e mãe de três
crianças. Ela vive em Irará, cidade a 145 quilômetros de Salvador,
numa casa de taipa, com chão de terra batida e paredes encardidas. Divide
o teto com seus filhos, sua mãe, um irmão e uma cunhada. Formou-se
no ensino médio, pensou em cursar pedagogia, mas hoje quer ser enfermeira.
"É o meu maior sonho. Mas tenho de fazer tudo sozinha. Com filhos para
criar, tudo fica muito difícil. Mas posso conseguir ainda. Sou uma guerreira."
A guerreira dá duro o dia inteiro numa creche que já foi um hospital
e ganha um salário mínimo. É ela quem sustenta a casa. Não
tem dinheiro para comprar um par de óculos de 140 reais para o filho caçula,
mas está satisfeita com a vida e com Lula. "Ele é um homem
bom", diz ela, que, como outros 22 milhões de nordestinos, recebe o Bolsa
Família a mais espetacular alavanca eleitoral de Lula no Nordeste
(veja reportagem).
Ela acredita que a reeleição de Lula lhe fará a vida ainda
melhor. "Ele olha muito para o povo brasileiro." Gilmara não sabe o que
é mensalão. Geraldo Alckmin? "Não conheço."
Em
comparação com o eleitorado de outras regiões, o colégio
eleitoral nordestino é mais feminino, mais católico e menos escolarizado
que os demais. Por que será que Lula ganhou esse eleitor pelo menos
até agora de forma tão arrebatadora? A resposta fácil
é dizer que Lula também é nordestino e, por ter sido pobre,
tem identificação com esse eleitor. Isso não é mentira,
mas não é também toda a verdade. A análise mais correta
indica que o eleitor nordestino, assim como o eleitor brasileiro em geral, não
dá muita importância à origem do candidato, seja social, seja
geográfica. Vota com o bolso, uma característica comum a muitas
democracias. Quem não se lembra do refrão de Bill Clinton, "É
a economia, estúpido", com que arrancou da Casa Branca George Bush, o pai,
negando-lhe em 1992 um segundo mandato? Bush vinha de uma vitória épica
no Iraque, mas o país chafurdava em uma teimosa recessão econômica.
Lula não tem triunfos épicos a apresentar, mas o Brasil vive um
de seus melhores momentos econômicos tanto no mundo real como no
decisivo universo das percepções subjetivas (veja
reportagem). É
a primeira vez, desde a redemocratização em 1985, que o Nordeste
pode assumir um peso tão decisivo no resultado final de uma eleição.
Isso acontece porque nunca antes um candidato obteve sobre o segundo colocado
uma dianteira tão expressiva como a que Lula tem sobre Alckmin. O que as
próximas semanas de campanha vão mostrar é se essa vantagem
de Lula é inamovível. Os estudiosos de pesquisas são unânimes
em dizer que o tucano deve crescer no eleitorado nordestino já a partir
desta semana, quando estréia o horário eleitoral gratuito. Afinal,
cerca de 50% dos eleitores da região mal ouviram falar no tucano. Com os
programas na TV, esse índice tende a cair, e é razoável supor
que parte dos que venham a conhecer o candidato escolha votar nele. "Ninguém
com bom senso imagina que essa diferença no Nordeste vai ser mantida",
diz Sérgio Guerra, tucano de Pernambuco que coordena a campanha de Alckmin.
Os petistas desprezam essas previsões. "Os tucanos acham que a TV só
favorecerá a campanha deles. O favoritismo de Lula vai se consolidar ainda
mais", diz o petista Marcelo Déda, um dos articuladores da campanha de
Lula no Nordeste. Até agora,
pelas razões numéricas descritas acima, os tucanos têm se
empenhado mais que os petistas na abordagem ao eleitor nordestino. Desde o início
de junho, quando começou a andar pelo país, Alckmin já visitou
a região dez vezes. Um recorde nacional. Há duas semanas, em viagem
ao Recife, lançou um programa concebido especialmente para a região
e batizado com o originalíssimo nome de Novo Nordeste. O programa
contém catorze propostas, na maior parte apenas generalidades, como a defesa
da "preservação do meio ambiente" e a aplicação de
"políticas sociais diferenciadas". Ou seja, seu poder eleitoral é
nulo. Neste fim de semana, o tucano planejava abrir sua agenda com visitas à
Bahia e a Alagoas. No fim de semana seguinte, a idéia é começar
pelo Piauí. Os tucanos estão ocupados em abrir comitês eleitorais
próprios em todas as capitais nordestinas. Até agora, estão
instalados em duas Recife e Fortaleza. Lula, por seu turno, visitou o Nordeste
apenas quatro vezes desde o começo de junho, mas fez questão de
inaugurar sua campanha com um comício numa favela do Recife.
Ganhar o voto nordestino sendo representante da oposição não
é fácil historicamente. Depois de viver o apogeu do coronelismo
durante a República Velha (1889-1930), a política nordestina começou
a se transformar, ceifando gradualmente a influência de seus velhos coronéis,
sobretudo depois da diáspora rumo aos centros urbanos. Mas boa parte dessa
realidade ainda subsiste. A região mantém vivas suas oligarquias,
em especial na Bahia de Antonio Carlos Magalhães e no Maranhão de
José Sarney. "Essas mudanças são lentas e não representam
o fim da oligarquia. Isso não acabou. Olhe o exemplo de Severino Cavalcanti,
que tem chances de ser reeleito deputado federal. Há práticas usadas
hoje muito semelhantes às que eram empregadas antes da Revolução
de 30", diz o cientista político Túlio Velho Barreto, da Fundação
Joaquim Nabuco. Além disso, como que para comprovar que permanece forte
um dos traços mais característicos do coronelismo, ainda é
irresistível a força de atração exercida pelo poder
central sobre a elite política local e, por extensão,
sobre parte do eleitorado. Pela teoria
das alianças partidárias, Alckmin tem o apoio da maioria dos governadores
nordestinos. São cinco os governadores, entre eles os três que comandam
os principais estados (Bahia, Pernambuco e Ceará). Isso, na teoria. Na
prática, num sinal de que se afastar do poder central ainda é um
exercício dificultoso, o baiano Paulo Souto, do PFL, e o cearense Lúcio
Alcântara, do PSDB, ignoram Alckmin em suas peças publicitárias.
O mesmo fenômeno se repete entre os líderes das disputas aos governos
estaduais do Nordeste. Dos nove candidatos que ocupam a dianteira nas pesquisas,
cinco estão com Lula e o fazem abertamente. Os outros quatro estão
com Alckmin, mas lhe dão um apoio discreto, quase envergonhado. Dos 1.800
municípios do Nordeste, 60% são administrados por prefeitos que
pertencem a partidos que apóiam Alckmin. Só 25% são de partidos
pró-Lula. No entanto, os prefeitos arrastam asa para Lula por duas razões:
os orçamentos das prefeituras dependem fortemente de verbas federais e
o eleitor está majoritariamente com Lula. Como a baiana Gilmara dos Santos
Cerqueira. Com reportagem
de Otávio Cabral |