Stephen
Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)
O pendura
social
"Se
os estudantes de direito que clamam por justiça social,
comportamento ético, igualdade perante a lei são
os que mais defendem o pendura, como podemos esperar um país
melhor?"
Ilustração Ale Setti
 |
Há mais de 100 anos, os restaurantes dos arredores da Faculdade
de Direito da Universidade de São Paulo decidiram brindar
os alunos do centro acadêmico, todo dia 11 de agosto, Dia
dos Estudantes, com uma refeição grátis.
Era o início do primeiro programa de fidelização
do cliente que se conhece no Brasil.
"Com
o passar dos tempos, os convites diminuíram e foram acabando,
obrigando os acadêmicos a se autoconvidarem", relata um
site sobre o assunto na internet. E essa cortesia se tornou uma
imposição, conhecida como o Dia da Pendura.
De uns poucos restaurantes, estendeu-se por toda a cidade. De
São Paulo, propagou-se para o resto do país. De
uma brincadeira, transformou-se numa tradição.
No site www.usp.br,
os estudantes explicam: "O Pindura (sic) caracterizou-se
pela irreverência dos alunos de direito que chegavam a um
restaurante em grupo, comendo e bebendo à vontade, saindo
sem pagar a conta, cantando seria muita avareza cobrar
do XI de Agosto. Ao ouvir a trova cantada o dono sabia que havia
levado o golpe". A frase mais contundente vem a seguir. "O Pindura
é uma marca dos alunos da Faculdade de Direito."
"É
somente uma brincadeira", justificam, uma brincadeira em que se
aprende que pendurar contas é possível. A impunidade
no fundo existe, dívidas nem sempre precisam ser pagas,
privilégios podem e devem ser mantidos. Justamente características
que não queremos que ninguém aprenda.
Se os estudantes de direito que clamam por justiça social,
comportamento ético, igualdade perante a lei são
os que mais defendem com unhas e dentes o pendura, sob o raciocínio
de que tradição é tradição,
como podemos esperar um país melhor?
Por que os estudantes de jornalismo, medicina ou engenharia não
fazem o mesmo? Primeiro, porque eles acham que o pendura é
elitista e excludente, o que não deixa de ser verdade.
Segundo, porque sabem que é o início de outros comportamentos
condenáveis, como aceitar celulares de companhias telefônicas
com descontos favorecidos, viagens e outras práticas que
já mereceram destaque em jornais.
Infelizmente, os donos de restaurantes são tão culpados
por essa prática quanto os alunos de direito. No fundo,
é uma discriminação social contra os demais
universitários do país, que estudam tanto quanto
os colegas de direito. No ano passado, a churrascaria Pampa Grill
do Rio de Janeiro "engoliu 600 penduras no almoço", segundo
o jornal Gazeta do Povo.
Como resolver essa questão? Uma solução seria
alguns centros acadêmicos de direito desistirem do Dia da
Pendura, já que muitos nem aprovam mais essa tradição.
Foi importante no passado, mas fere a visão de igualdade
e fraternidade que a nova geração adota. Talvez
o próprio XI de Agosto lidere o caminho, acabando inclusive
com a alegria dos outros centros acadêmicos que no fundo
só querem imitá-lo. Uma alternativa seria os restaurantes,
por questão de justiça, estenderem essa cortesia
a todos os estudantes do país.
Na minha opinião, a saída honrosa seria criar o
pendura social, em que os donos de restaurantes convidariam outros
grupos que também merecem um dia de festa, os excepcionais,
os deficientes, os meninos de rua, os autistas, os internos em
entidades, para dividirem as mesas com os estudantes de direito,
mantendo assim a centenária tradição. Conhecendo
a nova geração de estudantes de direito, tenho certeza
de que muitos até cederão seu lugar, aumentando
as vagas disponíveis, alguns até pagando a conta.
Eles sabem que a maioria desses convidados nunca entrou num restaurante
e muito menos numa faculdade.