Roberto
Pompeu de Toledo
Guia de sobrevivência
para a
eleição municipal
Alguns
sinais de alerta e modestas
sugestões para evitar as armadilhas
no meio do
caminho
Câmaras
de Vereadores Poderiam ser um símbolo de distinção
do Brasil. Constituem as mais antigas instituições
representativas do país, surgidas com as primeiras vilas
e, com boa vontade, mereceriam ser tomadas como sinais de uma continuada
vocação democrática. Em vez disso, transformaram-se
em símbolos de corrupção e descalabro. São
as "gaiolas de ouro", segundo o apelido que, do Rio de Janeiro,
espalhou-se para outras cidades. O problema começa com o
eleitor, que nem se lembra do vereador em quem votou na última
eleição. Sugere-se escrever esse nome no espelho do
lavabo, bordá-lo no travesseiro, grudá-lo à
geladeira...
Desemprego
Há pouco que um prefeito possa fazer para diminuí-lo.
Quem faz desemprego, ou emprego, é política econômica,
atribuição do governo federal. Muitos candidatos a
prefeito, Brasil afora, farão promessas de criação
de empregos. Desconfie-se. Onde mais um prefeito pode empregar é
na própria prefeitura, mas isso não é criação
de empregos é empreguismo.
Eleição
municipal Sua natureza é diversa da das eleições
nacional e estadual. Na Europa, costuma-se opor a eleição
municipal, ou local, à "eleição política".
Vale dizer que os grandes temas, como desemprego, inflação,
crescimento econômico, relações internacionais
e congêneres, próprios da "eleição política",
ou nacional, saem de cena em favor de itens como buracos nas ruas,
praças, parques, áreas de lazer, transporte coletivo...
Costuma-se dizer no Brasil, especialmente nos meios de esquerda,
que esquecer o primeiro grupo de temas, em favor do segundo, é
"despolitizar" a eleição. Realmente despolitizá-la,
e torná-la inútil, de tão alienada, é
transformá-la numa discussão sobre temas que não
são da alçada das autoridades municipais.
Estética
Muitos candidatos evitam discutir o embelezamento das cidades.
Seria frivolidade, num país de tão monstruosas carências.
E se, só para variar, expusessem suas propostas a respeito,
se é que as têm? Pode-se apostar que mesmo os mais
carentes ganham, com uma cidade mais bonita.
Obras
públicas À menção de obras
públicas, leia-se, na maioria dos casos: obras para carros.
São avenidas, viadutos e túneis destinados à
circulação de veículos e pior: muito
mais aos veículos particulares do que aos destinados ao transporte
coletivo. O resultado final não é apenas que, quanto
mais obras dessa natureza, mais se incentiva o uso do carro particular.
Nem apenas que, em geral, uma obra dessas só serve para transferir
o congestionamento para uns poucos quilômetros mais adiante.
O resultado mais perverso é que cada centavo em favor do
automóvel particular é centavo tirado do transporte
coletivo (vide verbete).
Prefeito
Há pessoas vocacionadas para a nobre função
de prefeito. Pessoas que caem bem no papel designado por palavras
tão em desuso quanto respeitáveis, como burgomestre
ou alcaide. Outras só estão de olho no cargo como
trampolim para lançar-se, ou relançar-se, a outras
funções. Não seria lícito exigir de
um candidato o compromisso de que não vai tentar outros vôos.
Mas recomenda-se avaliar se o candidato realmente tem disposição
e gosto para as questões municipais.
Segurança
pública É assunto que, pela Constituição,
cabe aos Estados e, nos casos do contrabando e tráfico de
entorpecentes, à União. Um prefeito pode indiretamente
contribuir para a segurança por exemplo, cuidando
da iluminação pública. Ou então, como
recomenda a teoria da "janela quebrada", de Nova York (segundo a
qual qualquer sinal de desleixo é convite à transgressão
e ao crime), zelando pelo bom estado das ruas, praças e edifícios
públicos. Mas de um candidato que apregoe ser capaz de assumir
combate direto à criminalidade, desconfie-se. Será,
muito possivelmente, um demagogo. Quando acrescenta que vai mobilizar
a guarda municipal, nas cidades que possuem tal instituição,
para a repressão ao crime, à demagogia soma a confusão.
Se duas polícias, a civil e a militar, tal como se apresentam
por dispositivo constitucional, já ocasionam conflitos suficientes,
em razão da rivalidade e da imprecisão na divisão
de competências, imagine-se o que pode acontecer com a entrada
em cena de uma terceira.
Transporte
coletivo Muito se ganharia se a eleição,
nas grandes cidades, girasse em torno de uma abordagem do problema
que evitasse as invenções mirabolantes e revelasse
real vontade de resolvê-lo. Pensa-se em geral que o maior
símbolo de opressão aos pobres, no Brasil, é
a favela. Não é. É o ônibus. Quando menos,
porque muito mais gente toma ônibus do que vive em favelas.
Gastar três ou quatro horas para se deslocar de casa para
o trabalho e do trabalho para casa, em veículos inseguros
e desconfortáveis, e chegar cansado, amassado e irritado:
eis o calvário diário e inescapável do trabalhador
brasileiro. Enfrentar as organizações, freqüentemente
mafiosas, que controlam o transporte coletivo nas cidades grandes
e médias: eis uma tarefa digna de um bom prefeito.
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