A vida como
ela era
O
cotidiano dos escravos no Rio de Janeiro,
por uma americana que fez a nossa lição
de casa
Carlos
Graieb
Acervo Cultura Inglesa/RJ
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| Casa
de escravos, na visão do pintor Rugendas: tema pouco
explorado |
Em
1890, pouco depois da Abolição e da Proclamação
da República, Rui Barbosa, que então ocupava o cargo
de Ministro da Fazenda, mandou que ateassem fogo nos registros sobre
escravidão do governo brasileiro. A intenção
era das melhores impedir que os antigos senhores de escravos
usassem de truques legais para perseguir os libertos. A partir desse
fato, disseminou-se a idéia de que faltariam bons documentos
a respeito da vida dos escravos na capital do Império. Essa
versão, que serviu para justificar a preguiça de nossos
historiadores, prosperou por várias décadas e só
nos últimos anos começou a ruir. Para que isso acontecesse,
foi necessária a colaboração de um time de
especialistas em devassar arquivos: os historiadores americanos.
Atacando fontes alternativas, como registros médicos, policiais
e religiosos, eles mostraram que ainda havia muitos lugares onde
fazer pesquisa. A produção dos brasilianistas sobre
escravidão é respeitável. De todos os livros,
há um que se destaca. Ele se chama A Vida dos Escravos
no Rio de Janeiro 1808/1850, foi escrito por Mary
C. Karasch e acaba de chegar às livrarias (tradução
de Pedro Maia Soares; Companhia das Letras; 643 páginas;
48 reais).
Estilo
"pé-no-chão" Produto de vinte anos de estudos
no Brasil e no exterior, A Vida dos Escravos no Rio de Janeiro
foi lançado em 1987 nos Estados Unidos. Desde então,
não sai do criado-mudo de muitos professores universitários
brasileiros. Mas é bom que uma tradução para
o português esteja agora disponível: a obra merece
um espaço na estante dos leigos. O intuito de Mary Karasch
não é propor uma nova teoria sobre o sistema escravista.
Fiel ao estilo "pé-no-chão" dos melhores historiadores
anglo-americanos, ela prefere descrever a realidade a elucubrar.
E a realidade que lhe interessa está no cotidiano dos cerca
de 80.000 escravos que viviam no Rio
de Janeiro na primeira metade do século XIX a maior
população urbana de cativos das Américas. Em
onze capítulos, a autora aborda temas que vão da origem
étnica dos africanos desembarcados no Rio até seu
cotidiano. As doenças que acometiam os escravos, os castigos
a que eram submetidos, suas táticas de resistência
e revolta, suas ocupações, suas roupas, sua dieta
todos esses assuntos são tratados com riqueza de detalhes.
Claudio Rossi
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| A
brasilianista Mary Karasch: mais descrição que
teoria |
Os dados recolhidos pela autora derrubam algumas teses consagradas.
Um bom exemplo é a convicção, propagada por
figurões do pensamento social como Gilberto Freyre, de que
os escravos brasileiros recebiam tratamento mais ameno do que os
cativos de outros países. Por meio de fontes jornalísticas,
taxas de mortalidade e boletins policiais, Mary Karasch prova de
uma vez por todas que a "benevolência" dos senhores locais
não passa de uma fantasia. A autora também apresenta
informações sobre a existência de quilombos
urbanos, o trabalho de escravos em fábricas e o sincretismo
que resultou numa vertente cultural "afro-carioca". Rigoroso, bem
escrito e às vezes polêmico, o livro de Mary Karasch
traz quase tudo o que você queria saber a respeito da escravidão,
mas não tinha idéia de onde procurar.
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