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O povo na TV

No Limite é a ponta mais visível
de um fenômeno recente na televisão
brasileira e mundial: programas em que
as grandes atrações não são celebridades,
e sim pessoas comuns. Gente como a gente

Marcelo Marthe e Ricardo Valladares

 
Divulgação
Participantes de No Limite comemoram vitória na gincana conduzida por Zeca Camargo: público de 28 milhões de pessoas

Vinte e oito milhões de brasileiros estão dormindo mais tarde no domingo, para assistir a No Limite. O programa é um espanto em termos de audiência e repercussão. Exibe um ibope médio de 45 pontos, superior ao da novela das 8 e ao do Jornal Nacional, tradicionalmente os campeões da televisão. O resultado disso é que os desencontros amorosos de Vera Fischer no folhetim Laços de Família não são mais o assunto predileto dos cadernos de variedades dos jornais e das conversas na sala de jantar. Discute-se agora, com ânimo de torcedor, se Amendoim foi ou não vítima de racismo. Se Pipa e Marcus tiveram mesmo um affair. Se o mau humor de Andréa contagiará irremediavelmente a equipe Lua. Ou seja, por uma dessas mágicas da indústria cultural, uma celebridade com duas décadas de exposição na mídia, a belíssima Vera Fischer, viu-se ofuscada por pessoas anônimas até quatro semanas atrás. Desconhecidos que, sem uma lasca de glamour, sobrevivem em condições de náufrago e disputam uma duríssima gincana numa praia deserta do Ceará. No Limite não é, no entanto, um caso isolado. Inspirado em uma atração que mesmeriza os americanos, Survivor, ele é a ponta mais visível de um fenômeno mundial que começa a tomar corpo também no Brasil: o aumento do número de programas em que mortais comuns constituem o chamariz de audiência.

Pipa? Andréa? Marcus? Amendoim? Sim, não é nem preciso colocar o sobrenome, a profissão ou a cidade de cada um deles. O telespectador já sabe de tudo porque esses participantes de No Limite, juntamente com outros como Vanderson ou Elaine, se tornaram celebridades instantâneas desde que o Brasil inteiro começou a vê-los. Mas afinal o que há de tão interessante na cena em que o garotão Marcus, faminto, enfraquecido, mostra um rosto incrédulo ao descobrir que é ele o escolhido pelos companheiros em votação secreta para ser expulso do programa? O que há de tão hipnotizante naquela parte em que o grupo tem de comer até tripas amareladas de uma galinha porque a alternativa é a fome? E os abraços emocionados que uns dão nos outros quando ganham uma disputa com o grupo rival? O que há de fascinante nisso tudo é que as pessoas comuns que estão na sala gostam de ver a intimidade de pessoas comuns que estão na tela. Gostam de ver especialmente a exibição crua dessa intimidade. No Limite é um achado de gênio porque cria todas as condições possíveis para que os participantes do programa sejam espremidos a ponto de expor seus sentimentos mais básicos e íntimos diante de milhões de estranhos.

 
Me Leva Brasil, do Fantástico: o cotidiano popular

Dia de Estrela, com Fábio Jr.: fãs que participam

Netinho, no Domingo Legal: motorista de desconhecidos

As emissoras brasileiras perceberam a oportunidade de colocar o povo na TV em meio à guerra que andam travando em praticamente todos os horários (veja quadro). A batalha mais dura acontece nas tardes de domingo, quando Gugu Liberato, do SBT, disputa cada ponto do ibope com Fausto Silva, da Globo. Até cerca de um ano atrás, os diretores de ambas as atrações achavam que o melhor ímã de telespectadores eram as celebridades, e brigavam com unhas e dentes por elas – a ponto de Fausto Silva boicotar os cantores que se haviam apresentado no concorrente. Em junho de 1999, aconteceu algo que balançou as convicções dos executivos dos dois canais. Num programa, Gugu Liberato se fantasiou de mendigo e foi pedir esmolas no Largo do Paissandu, em São Paulo. Poucos deram dinheiro ao apresentador. O falso pedinte, porém, teve a solidariedade de um mendigo de verdade, Natanael da Silva, que lhe ofereceu refrigerante e umas moedas. Quando o quadro foi ao ar, teve bastante repercussão. Tanto que Gugu resolveu levar Natanael a seu programa duas semanas depois para dar-lhe de presente uma casa mobiliada e um tratamento dentário. Com o desconhecido, conseguiu um dos maiores picos de sua história: 42 pontos. No mesmo horário, seu rival empacou nos 24 pontos, apesar de contar com a presença de pagodeiros. Fausto Silva ficou intrigado e resolveu fazer uma experiência semelhante. No mês seguinte, o aspirante a artista Manoel Pinheiro de Oliveira Júnior, o Mano Júnior, compareceu a seu auditório, levando uma placa com os seguintes dizeres: "Sou cantor, vim de Brasília, me dê uma chance". O apresentador aproveitou a deixa e o chamou ao palco. Foi um sucesso. Ele bateu Gugu com 32 pontos de audiência.

 

DUAS FACES DA TENDÊNCIA

Luciano Huck equilibrou a audiência, levando ao seu programa familiares de participantes de No Limite. No sábado 12, o marido de Pipa, Maurício Mendes, seria o grande chamariz do Caldeirão do Huck. Motivada pelo sucesso do The Real World americano, a MTV brasileira fez uma versão nacional da atração que mostra o cotidiano de uma república, 20 e Poucos Anos (à dir.)

Celina Germer

"Eu confio nela" – A fim de saber com exatidão o que estava por trás desses números, a Globo realizou um estudo no final do ano passado. Constatou-se, então, que 88% dos espectadores queriam ver prioritariamente "o triunfo do anônimo consagrado através da aparição na tela da TV", para usar a linguagem empolada e redundante desse tipo de pesquisa. A conclusão serviu para balizar a recente reformulação do Domingão do Faustão. Foram incluídos no programa três quadros do gênero "povo na TV". O mais bem-sucedido é o Rala Peito, no qual um microfone aberto é colocado numa praça de alguma cidade do Brasil. Qualquer um pode se aproximar e fazer algo que chame a atenção. Num domingo de julho, a escriturária Fernanda Barbosa, de São Paulo, cantou por alguns minutos. A moça não era, assim, uma Marisa Monte, mas durante sua aparição a audiência subiu inacreditáveis 7 pontos, o que equivale a aproximadamente 4 milhões de pessoas. Gugu, que naquele momento apresentava Mister M, o traidor dos mágicos, comeu poeira.

Como não poderia deixar de ser, as apostas nesse filão vêm se espraiando com a velocidade do vírus da gripe. O Fantástico ganhou o Eu Sou Fantástico, que mostra performances de mortais comuníssimos e veio se juntar ao Me Leva Brasil, apresentado por Maurício Kubrusly, no qual o repórter percorre o interior do país em busca de cidadãos famosos em suas localidades. O quadro é um dos campeões de audiência do programa. Luciano Huck, que vinha perdendo a disputa com Raul Gil nas tardes de sábado, equilibrou o ibope nas últimas três semanas graças ao Caldeirão no Limite, em que familiares dos participantes da competição das noites de domingo batem-se numa gincana. Para o sábado 12, a principal atração prevista era o eletricista Maurício Mendes, marido de Pipa, que, perguntado sobre os rumores de um romance entre o garotão Marcus e sua mulher, respondeu: "Eu confio nela". Nas outras emissoras, o fenômeno também fermenta. O programa de Fábio Jr., na Record, instituiu o Dia de Estrela, em que uma fã é convidada a contracenar com o galã numa cena de beijo. "Ele tenta a todo custo evitar a língua, mas não tem jeito", diverte-se a diretora Miloca Nagle. Já Gugu Liberato incluiu em seu show A Princesa e o Plebeu, apresentado pelo cantor Netinho. Com roupa de motorista, ele dirige uma limusine até um bairro qualquer da periferia de São Paulo. Lá, apanha uma espectadora e a leva para fazer compras e tomar um lanche. Descrito dessa forma, parece chato, mas as pessoas adoram. A MTV brasileira, por sua vez, colocou no ar 20 e Poucos Anos, uma versão do americano The Real World, em que se assiste à conflituosa convivência de jovens numa república.

 

TRILHA POPULAR
Dos anos 60 até hoje, há uma clara linha evolutiva da presença de gente comum na tela: o pioneiro Silvio Santos, com seu show de calouros e programas como Cidade contra Cidade (ao lado), igualou em audiência a chegada do homem à Lua, em 1969. Jacinto Figueira Júnior, O Homem do Sapato Branco (abaixo, à dir.), instituiu as entrevistas escabrosas na tela, inspirando seguidores como Ratinho. Abaixo, à esq., uma "pegadinha", fruto do aperfeiçoamento tecnológico das câmaras de TV

 

João Heilbrunn

Sérgio Berezovsky

André Lobo

fato de vários programas brasileiros na linha "o povo na TV" serem réplicas de modelos americanos pode levar à impressão de que se trata de mais uma macaquice de colonizado. Seria mais correto afirmar que o aumento das atrações televisivas com participação popular reflete algo de abrangência bem mais ampla, batizado pela revista americana Time de "era da primeira pessoa". De acordo com esse raciocínio, fariam parte de um mesmo caldo a explosão das biografias no mercado editorial, o fascínio pela vida privada nos estudos históricos, o foco sobre a correspondência de escritores nas pesquisas literárias e finalmente a internet, que colocou o "eu" na mídia através das home pages. Em um ensaio, o escritor inglês Martin Amis, um dos mais argutos observadores da cultura contemporânea, escreveu: "Nada, nos dias de hoje, pode competir com o relato da experiência pessoal, nos mais diversos meios. Ele tem dois atrativos irresistíveis: o da autenticidade e o de ser algo democrático, em que a vida de um cidadão comum pode se revelar interessante". É uma visão otimista.

 

Há uma outra novidade no ar: concorrência


Cida Souza
O apresentador Raul Gil, da Record: seu programa é uma das pedreiras que a Globo tem de enfrentar


Com No Limite, a Globo emplacou um tipo de programa totalmente inédito como campeão de audiência. É um feito que não realizava havia algum tempo. Nos últimos anos, a emissora vinha apenas contratando atrações já prontas de outros canais. Foi assim com Ana Maria Braga, Jô Soares e Luciano Huck – isso sem falar em Serginho Groisman, que ainda nem estreou. Essa foi a maneira que a Globo encontrou para lidar com uma coisa nova para ela: a concorrência de verdade. Até cinco anos atrás, a emissora era líder absoluta no Ibope em todos os horários. Hoje, ainda ostenta a maior porcentagem média de audiência (53% de aparelhos ligados, contra 25% do SBT), mas enfrenta oposição pesada em pelo menos três dias da semana: terça-feira, sábado e domingo. Nas noites de terça, Muvuca e o Jornal da Globo não têm conseguido fazer frente aos filmes campeões de bilheteria exibidos pelo SBT. Aos sábados à tarde, Luciano Huck foi contratado para bater Raul Gil. Mas só agora, ao pegar carona em No Limite, conseguiu equilibrar o jogo. Aos domingos, permanece a velha guerra entre Gugu e Faustão, com o dado alarmante para a Globo de que o SBT vem liderando a audiência por onze semanas consecutivas. A Globo também enfrenta dificuldades nas manhãs, quando Angélica, Eliana e Jackeline Petkovic ficam num empate tríplice.

Há várias explicações para o aumento da concorrência. A primeira, óbvia, é que o SBT e a Record estão acertando a mão. "É inegável que as outras emissoras aprenderam a fazer TV", avalia Flávio Ferrari, diretor executivo da área de mídia do Ibope. A segunda é que as rivais também aumentaram seu raio de atuação. Cinco anos atrás, a Globo cobria 99% dos lares, enquanto a Record, por exemplo, só alcançava 49% dos domicílios. Nesse período, a Globo, até por estar perto do topo, cresceu menos, para 99,7%, e a Record atingiu 75%. O SBT, por sua vez, já é visto em 97% do país. Uma terceira razão é que as outras emissoras parecem ter-se adaptado antes à popularização da TV aberta. Há uma tendência mundial de que as classes A e B se concentrem nos canais a cabo. SBT e Record partiram à frente ao se comunicar melhor com o povão. Ao roubar atrações das concorrentes, a Globo tentou recuperar terreno junto às classes C e D. Agora, com No Limite, a emissora parece ter acertado o passo. Conseguiu fazer um programa ao mesmo tempo popular e que só ela poderia colocar no ar, por ser uma superprodução.

Marcelo Camacho

 

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