O doping está
no auge
O
campeão Joaquim Cruz entra na luta contra
o uso das substâncias químicas proibidas
Sérgio
Ruiz Luz
Claudio Rossi
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| "A
situação é
confusa e
fica difícil acreditar
na honestidade
das
pessoas" |
O campeão olímpico Joaquim Cruz sentiu o mundo desabar
sobre sua cabeça quando fez uma denúncia de doping
durante os Jogos de Seul, em 1988. Numa entrevista, o brasileiro
levantou suspeitas sobre os músculos impressionantes exibidos
pela espalhafatosa corredora Florence Griffith Joyner, um dos maiores
mitos do esporte americano. "No começo da carreira ela era
muito feminina, mas algum tempo depois já parecia um homem",
disse Joaquim. Era uma insinuação de que as formas
exuberantes haviam sido adquiridas à custa de substâncias
proibidas. "Muitos atletas me procuraram dizendo que eu deveria
prosseguir na campanha", recorda o corredor. Hoje, aos 37 anos,
embora fora das pistas, ele continua preocupado com a questão.
É um dos doze membros de uma comissão da Federação
Internacional de Atletismo que estuda soluções para
os principais problemas do esporte. Nos mais recentes encontros
do grupo, o tema predominante tem sido a inglória batalha
contra as drogas nas competições. "O doping chegou
ao ponto crítico, está no auge", alerta Joaquim. "Se
não limparmos as competições, a coisa vai ficar
completamente desmoralizada."
A
americana Florence Griffith morreu em 1998 e levou para o túmulo
as suspeitas sobre sua preparação. Os últimos
sinais de que o uso das drogas possa ser contido não têm
sido nada animadores. Em suas mais recentes e polêmicas decisões,
a Federação Internacional de Atletismo absolveu uma
série de esportistas pegos na malha fina do controle antidoping.
A velocista jamaicana Merlene Ottey, ex-campeã mundial dos
200 metros livres, livrou-se da acusação de uso de
nandrolona, um esteróide anabolizante utilizado para turbinar
os músculos. Nas últimas semanas, o perdão
chegou à arremessadora de peso brasileira Elisângela
Adriano e ao saltador cubano Javier Sotomayor. Os dois também
eram acusados de usar drogas para melhorar a performance nas competições.
A jurisprudência abriu espaço para que outros aproveitem
a mesma brecha. Igualmente denunciado porque teria utilizado anabolizantes,
o corredor brasileiro Sanderlei Parrela entrou nessa fila, pleiteando
a absolvição para participar dos Jogos Olímpicos
de Sydney, em setembro. No último final de semana, durante
a disputa do Troféu Brasil de Atletismo, no Rio de Janeiro,
o velocista Claudinei Quirino e outros esportistas posaram com uma
camiseta em solidariedade à situação de Sanderlei.
"Confiamos em você", dizia a inscrição. A atitude
dos companheiros do atleta é a regra no meio esportivo: todo
mundo é contra o doping dos outros, mas defende os amigos
que foram pegos em flagrante.
O
caso do cubano Sotomayor é o mais emblemático de todos.
Ao lado de Joaquim Cruz, ele participava da comissão de atletas
encarregada de combater o doping. "Chegou-se a um ponto confuso,
em que fica difícil confiar na honestidade das pessoas",
afirma o campeão brasileiro. Acusado de consumir cocaína,
Sotomayor foi liberado sob o argumento de que, em toda a sua carreira,
havia sido submetido a mais de 300 exames de doping, todos com resultados
negativos. Se os exames do passado garantem sua inocência,
então Sotomayor deveria ser dispensado de fazer novos testes.
Na semana passada, o vice-presidente e chefe da comissão
médica da Federação Internacional de Atletismo,
Arne Ljungqvist, ameaçou renunciar ao cargo por não
concordar com esse perdão. Seu ponto de vista, porém,
não foi endossado por Juan Antonio Samaranch, presidente
do Comitê Olímpico Internacional. Não contente
em aplaudir a decisão, ele declarou-se satisfeito com a confirmação
da presença do cubano nos Jogos de Sydney. Para o espetáculo,
é sempre bom contar com estrelas do porte de Sotomayor, um
recordista mundial, ainda que sob suspeita.
Os
reflexos do clima de "liberou geral" são nítidos.
Uma pesquisa conduzida pela Emory University, dos Estados Unidos,
demonstrou que o suprimento de esteróides anabolizantes quadruplicou
na cidade de Atlanta durante os Jogos Olímpicos de 1996.
Nas últimas semanas, mais de 2.000
doses de drogas foram roubadas dos estoques de um hospital e de
um galpão da Austrália. "A verdade é que a
maioria dos competidores tem disposição de experimentar
qualquer coisa que lhes proporcione alguma melhoria na performance",
afirma Joaquim Cruz. Medalha de ouro nos Jogos de Los Angeles, em
1984, e prata em Seul, em 1988, sempre nos 800 metros livres, o
ex-corredor lembra que, durante uma fase de sua carreira, costumava
tomar pílulas de ginseng. "Virou moda entre os atletas e
eu também entrei nessa", conta o campeão. O ginseng,
depois se comprovou, não tinha utilidade alguma para os atletas.
Já a geração de drogas pesadas que passaram
a ser consumidas em larga escala opera milagres. Um exemplo clássico
é o do canadense Ben Johnson, que pulou rapidamente da condição
de corredor desconhecido para a de recordista mundial. A medalha
de ouro que ganhou nos Jogos de Seul, em 1988, foi cassada quando
o teste de doping indicou o uso de anabolizantes. "Não existem
milagres", diz Joaquim Cruz. "Alguém que nunca fez nada e
começa de uma hora para outra a bater recordes deve ser investigado."
O
mais recente exemplo desse tipo de ascensão misteriosa é
o da nadadora holandesa Inge de Bruijn. Aos 26 anos, ela desatou
a bater recordes. Já acumula seis deles, registrados em quatro
provas diferentes. "A Inge deveria ser uma das primeiras a ser testadas
para esclarecer isso", afirma o campeão brasileiro. Em muitos
casos, porém, o controle rigoroso afugenta os esportistas.
Isso ocorreu há duas semanas, quando os médicos do
Comitê Olímpico Internacional anunciaram que vão
realizar testes de sangue para detectar o uso de EPO, substância
que aumenta a taxa de glóbulos vermelhos do sangue e a resistência
aeróbica. Um dia depois da divulgação dessa
notícia, a maratonista norte-coreana Jong Song-Ok, campeã
mundial da modalidade em 1999, resolveu retirar-se das pistas, sob
a justificativa de que iria seguir a carreira de técnica.
Detalhe: Jong tem apenas 25 anos. "Cada um que tire disso suas próprias
conclusões", ironizou o ex-maratonista americano Frank Shorter,
outro campeão do passado que resolveu engrossar a luta contra
as substâncias químicas no esporte.
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