Bandidos mirins
Aumenta,
assustadoramente, a participação
dos menores de 18 anos na criminalidade
Paulo Liebert/AE
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| Menores
durante uma blitz, em São Paulo: eles cometem um em cada
dez homicídios ocorridos no Estado |
Na semana passada, a polícia prendeu uma quadrilha que praticava
seqüestros relâmpagos em bairros de classe média
alta de São Paulo. Um dado chamou a atenção
das autoridades: dos nove integrantes detidos, quatro eram menores
de idade. Entre eles, uma menina de apenas 13 anos. A participação
dos menores não era apenas decorativa, mas fundamental na
organização do grupo. Aproveitando-se da aparente
ingenuidade infantil, os garotos abordavam veículos em sinais
de trânsito. Agiam sempre em dupla. Um vinha pelo lado do
motorista, o outro pelo lado do carona. Ao dominarem a vítima,
um deles assumia o volante e o outro passava para o banco de trás
junto com o refém. Quando saíam das ruas mais movimentadas,
obrigavam a vítima a entrar no porta-malas e a transportavam
até o cativeiro, onde o restante da quadrilha esperava a
"encomenda". Iniciavam-se, então, os contatos com a família.
Em geral, os seqüestradores negociavam a liberdade em troca
de 10.000 reais. Cada menor recebia o
pagamento de 200 reais pela ação. Presos, os quatro
menores foram encaminhados à Vara da Infância, onde
serão julgados segundo leis específicas a que têm
direito as pessoas com menos de 18 anos de idade. Como é
sabido, muito em breve estarão de volta às ruas.
Ocorrências
envolvendo menores vêm crescendo de maneira assustadora nos
últimos anos. Em 1998, em cada vinte casos de homicídio
no Estado de São Paulo, um havia sido cometido por alguém
com menos de 18 anos. No ano passado, a participação
dos menores passou para um em cada dez. Ou seja, dobrou. As estatísticas
nacionais também são assustadoras. A cada três
horas um brasileiro morre pelas mãos de um menor de idade.
Só no ano passado foram mais de 3.200
homicídios, duas vezes mais que em 1998. O contingente de
menores envolvidos em outros crimes também está crescendo.
Há três anos, pouco mais de 1.000
menores foram autuados por tráfico de drogas. No ano passado,
o número saltou para mais de 5.000.
As estatísticas mostram que a presença de adolescentes
na criminalidade cresceu em todas as áreas (veja
quadro).
Há
várias explicações para compreender esse crescimento.
Uma delas, observada pelos estudiosos, é a percepção
por parte dos grandes marginais de que os menores são ótima
"mão-de-obra". Em primeiro lugar porque, sem os entraves
que podem conter a violência dos adultos, como a existência
de mulher e filhos em casa, e em plena explosão hormonal,
atacam as vítimas com notável aplicação.
Depois porque, quando são pegos, se beneficiam da legislação.
Quando algum brasileiro com 18 anos ou mais comete um homicídio
pode pegar até trinta anos de detenção. Se
assalta a mão armada, sua pena pode chegar a dez anos. Quem
vende drogas está sujeito a penas de até quinze anos.
Para os menores de idade as regras são outras. Até
atingir 12 anos a criança é considerada inimputável.
Ou seja, se for flagrada cometendo um crime, tudo que a polícia
pode fazer é procurar sua família e devolvê-la
aos pais. Entre 12 e 18 anos, os menores vão a julgamento
em cortes especiais e permanecem detidos por um tempo máximo
de três anos. Depois, retornam às ruas. É um
sistema de punição que funciona como um escudo confortável
para a prática dos delitos. Para as quadrilhas de seqüestros,
roubos e tráfico de drogas, a arregimentação
de menores é também a garantia de que seus integrantes
estarão de volta à ação num prazo mais
curto que o habitual.
Anchoieta/Folha Imagem
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| A
quadrilha presa em São Paulo: dos nove membros, quatro
eram menores. Entre eles, uma menina de 13 |
O envolvimento de menores com o crime é um problema mundial.
Hoje há mais de 1 milhão de crianças e adolescentes
presos ao redor do globo, 110.000 apenas
nos Estados Unidos. Lá, um em cada quatro crimes violentos
tem a participação de meninos ou meninas com menos
de 18 anos. Na França, o número de adolescentes detidos
cresceu 11% em relação a 1997. O problema é
praticamente o mesmo em toda parte. O que muda é o tratamento
dado pelas autoridades. Como regra geral, não partem da premissa
de que menores não podem ser submetidos às leis dos
adultos. Vale o princípio do "caso a caso". Para decidir
se um menor deve ser julgado como maior de idade, os juízes
procuram descobrir se ele sabia o que estava fazendo quando cometeu
o crime. Na Inglaterra, dependendo da gravidade do caso, uma criança
de 10 anos que cometa estupro, assalto a mão armada ou homicídio
já pode ser julgada e condenada como adulto e pode pegar
prisão perpétua. Na França, adolescentes com
mais de 13 anos podem ser responsabilizados criminalmente. Na Itália,
maiores de 14 anos não podem alegar em hipótese alguma
desconhecer as regras sociais e as implicações do
que fizeram.
O
Brasil mergulhou numa situação peculiar. No campo
das leis, dispõe de uma das mais modernas legislações
para menores. Foi o primeiro país a adequar-se à Convenção
Internacional dos Direitos da Criança, assinada por 187 países.
Fosse seguido à risca o que está escrito, o menor
infrator teria boas chances de se reabilitar. Na vida real, o governo
interna os menores em instituições que se transformaram
em escolas do crime em alguns casos até piores do
que a prisão dos adultos. Nesses lugares, as rebeliões
são freqüentes e seguem um mórbido roteiro de
horror. Os internos ateiam fogo na instituição, tomam
o controle do pátio interno e agridem funcionários
e outros menores. Ou seja, as autoridades estão mandando
um sinal trocado para a sociedade. O sistema protege o menor, mas
só de mentirinha. E expõe a vítima, de verdade.
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