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Ilustração Pepe Casals


Quem se dá ao trabalho de ler esta coluna, ainda que esporadicamente, sabe que sou o rei da autopromoção. Vira e mexe arrumo um pretexto furado para falar de minhas gloriosas criações artísticas. Agora é o contrário. Vou falar de um filme que contou com a minha participação como roteirista e co-produtor, mas ele é um mero pretexto para tratar de um assunto mais abrangente: o financiamento público do cinema. De novo? Sim, eu sei que já escrevi intermináveis artigos a esse respeito e que você não tem o menor interesse pelo cinema nacional. Compreendo. Cinema nacional é mesmo uma coisa triste. Mas eu me encontro diante de um dilema curioso. Até hoje, minhas denúncias contra as leis que beneficiavam o cinema eram puramente teóricas. A partir desta semana, mexem no meu bolso. O fato é que, graças a uma certa Lei Mendonça, nosso filme ganhou a possibilidade de arrecadar 40.000 reais. O que fazer? Jogar o dinheiro pela janela ou engolir tudo o que eu disse no passado e embolsá-lo?

Antes de mais nada, é necessário explicar que os 40.000 reais viriam através de um esquema de renúncia fiscal. Ou seja, o governo abriria mão do dinheiro de impostos para que ele fosse investido no nosso filme. Em tese, estaríamos tomando 40.000 reais que poderiam ser aplicados, por exemplo, em escolas ou hospitais. Sei que 40.000 reais não significam nada. Sei também que, se desistíssemos do dinheiro, ele não iria para escolas ou hospitais, mas seria usado no financiamento da máquina estatal, sem contar o quinhão que a corrupção acabaria desviando para erguer novos prédios do TRT. Os usineiros recebem bilhões em subsídios, por que não posso pegar meus 40.000 reais? Além disso, garanto que, ao contrário do que se costuma fazer no Brasil, o dinheiro seria investido integralmente na finalização do filme. Não iria parar na conta de um corretor espertalhão ou no caixa dois de alguma empresa.

Há um problema nesse raciocínio, porém. Eu sempre achei que ou um filme se sustentava com as próprias pernas, ou não devia ser feito. Os filmes nacionais costumam custar 2, 3 milhões de reais. Todo mundo sabe que não dá para recuperar esse dinheiro com a venda de ingressos. É investimento a fundo perdido. Para se tornarem viáveis economicamente, os filmes nacionais teriam de custar 100.000, 200.000 reais. Difícil, mas não impossível. Inclusive porque, ainda que custassem 10% desse valor, eles não conseguiriam ficar piores do que atualmente. O resto é caridade pública. E o cinema nacional não fez o suficiente para justificar caridade nenhuma. Existem roubalheiras maiores, claro. Basta ver o que as empresas gastam no financiamento às campanhas políticas para se dar conta de que o cinema é coisa miúda. Aliás, não só o cinema, mas a cultura em geral: teatro, música erudita, exposições de arte, literatura. Eis o dilema. Sou contrário a qualquer forma de incentivo público à cultura, mas os 40.000 reais provocaram uma coceira na minha mão. Se pudesse pegá-los sem que ninguém percebesse, acho que os pegaria. Por outro lado, eu seria suficientemente inescrupuloso para pegar o dinheiro, mas não para viver sem remorsos. No final das contas, meus sócios e eu vamos acabar jogando os 40.000 reais pela janela. O que você faria no nosso lugar?

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