Está
na hora de reagir
O
sociólogo diz que o Brasil se tornou
um dos países mais violentos do mundo
e que a situação é vergonhosa
Silvio
Ferraz
Selmy Yassuda
 |
"Nos
últimos anos,
os pobres brasileiros
ficaram
menos pobres,
mas a criminalidade
aumentou
cada
vez mais" |
O
crime e a violência fazem parte do cotidiano do sociólogo
Glaucio Ary Dillon Soares. Aos 65 anos, ele é um especialista
no assunto. Professor titular da Universidade da Flórida,
há 25 anos dá aulas sobre violência na América
Latina. Atualmente, uma de suas preocupações é
a criminalidade no Brasil. A cada sábado 100 brasileiros
são assassinados. É o dobro desse tipo de ocorrência
registrado na Austrália durante um ano inteiro. A taxa
de homicídios, entre 25 e trinta para cada 100.000
habitantes, é quatro vezes mais alta do que a dos Estados
Unidos. "É uma vergonha", afirma o professor. "O Brasil
tornou-se um dos países mais violentos do mundo." Soares
acredita que só a pobreza não explica um quadro
tão ruim. "Se fosse assim, Teresina, a capital mais pobre
do Brasil, seria também a mais violenta", diz. Segundo
ele, investir em educação, saúde e criação
de empregos ajuda muito a resolver o problema, mas para entendê-lo
por inteiro é preciso observar outros fatores, como a disseminação
das drogas, o tráfico de armas e a desagregação
familiar.
Veja O Brasil é um país violento por
natureza?
Soares O
Brasil apresenta elevadas taxas de criminalidade em comparação
com os países industrializados, mas isso não significa
que o povo brasileiro seja, por índole, mais violento que
os outros. Se o Brasil fosse quase uniformemente violento, seria
difícil explicar por que algumas cidades têm mais
crimes que outras. Ou por que, na mesma cidade, alguns bairros
são mais violentos que outros. O mais correto seria dizer
que o Brasil é um país com bolsões de violência.
Mas há fortes razões para desconfiar que a tão
celebrada cordialidade brasileira desapareceu e que estamos, sim,
nos transformando num povo mais violento.
Veja O brasileiro cordato, agradável, comunicativo
não existe?
Soares
De forma geral, não existe. O brasileiro é violento
porque vive e aprende numa cultura violenta. A taxa de homicídios
em alguns bairros de São Paulo é de 120 por 100.000
habitantes, mais que o triplo da média nacional. Por quê?
Porque nesses bairros impera uma cultura violenta. São
lugares onde as relações sociais se degradaram de
tal forma que o crime triunfou. Somando as mortes em assaltos
e homicídios com as que resultam de atropelamentos, colisões
de trânsito, suicídios, afogamentos e outros acidentes,
o Brasil perde 120.000 vidas por ano.
Isso é duas vezes o número de mortos na explosão
atômica de Hiroshima. Se você alinhar ao comprido
os 120.000 mortos, o cortejo fúnebre
terá cerca de 200 quilômetros. É um quadro
muito triste.
Veja
O alto índice de criminalidade é resultado
da pobreza?
Soares
A
relação entre pobreza e crime não é
automática. Se assim fosse, Teresina, a capital mais pobre
do país, seria infinitamente mais violenta que São
Paulo, a mais rica. Na prática, ocorre o contrário.
Também haveria milhões de brasileiros criminosos,
porque há milhões de pobres no país. E, como
se sabe, a imensa maioria dos pobres brasileiros é composta
de gente honesta e trabalhadora, que nunca se envolveu com o crime.
É fácil explicar por que alguns trabalhadores optam
pelo crime. O difícil é explicar por que todos não
o fazem, se é tão rendoso. Além disso, nos
últimos cinqüenta anos a vida dos pobres melhorou.
O analfabetismo despencou, assim como a mortalidade infantil e
a pobreza absoluta. O consumo de geladeiras, televisores e mesmo
automóveis chegou às classes menos favorecidas.
Mesmo assim, a criminalidade aumentou. A pobreza contribui para
a violência, mas é apenas uma das condições
que levam ao crime.
Veja
O que mais contribui para o crime?
Soares
É uma soma de fatores, em que se inclui a desigualdade
social, mas também a disseminação das drogas,
o tráfico de armas e a desagregação familiar.
Um problema sério é que, embora o nível de
renda tenha crescido, o nível educacional brasileiro continua
baixíssimo. A educação pública é
péssima, quando comparada à de países como
a Argentina. E está provado que há uma relação
entre educação e violência. Quanto mais educado,
menos violento e menos vitimado pela violência é
o cidadão. Outra razão é a divinização
do consumo.
Veja
O que é isso?
Soares
Vivemos numa sociedade que estimula a comparação
entre as pessoas no que diz respeito à posse de bens, ao
status e ao nível de vida. Isso eleva o nível de
aspirações, criando uma insatisfação
permanente, a despeito dos ganhos de renda. O hiato entre os desejos
de consumo e a impossibilidade de satisfazê-los pode ser
uma fonte geradora do crime. Esse é um fator que atinge
especialmente os jovens mais pobres, que são estimulados
ao consumo, mas não têm acesso a ele. A violência
é a principal causa mortis entre os jovens brasileiros.
Veja Os jovens são a faixa da população
mais exposta ao crime?
Soares
Os jovens são os maiores atores, tanto como vítimas
quanto como criminosos. Eles estão numa faixa etária
mais exposta ao perigo. O fenômeno se verifica em todos
os países e em todos os tempos para os quais há
dados confiáveis. Eles se expõem mais a situações
de conflito e às drogas, particularmente nos fins de semana.
As estatísticas mostram que os jovens que obtêm trabalho
cometem menos crimes. Os que casam e têm filhos, menos ainda.
Essas condições também os ajudam a sair da
delinqüência. E a grande maioria sai. Os jovens criminosos
geralmente estão entre os mais pobres, menos instruídos,
menos religiosos, com menos alternativas criativas (como esporte
e estudo). Entre eles também há mais filhos de mães
sem companheiros estáveis.
Veja
Que avaliação o senhor faz do plano federal
de segurança anunciado recentemente pelo governo?
Soares
Um aspecto louvável é o governo federal ter
chamado a si um problema que não é de sua competência
legal, mas dos Estados. Mostrou com isso que o combate ao crime
é algo que o sensibiliza. Mas o plano em si encontra-se
descosturado em vários pontos. Ele foi motivado pela violência
televisionada, para todo o país, do roubo e seqüestro
dos passageiros do ônibus 174, no Rio de Janeiro, que culminou
com o assassinato de uma passageira. Mas limita-se a afirmar que
em 2002 terá reduzido a criminalidade. Como? Isso é
um chute.
Veja Que sugestões o senhor daria para corrigir
esse plano?
Soares
Em Boston, um programa antigangues mobilizou polícia, igrejas,
clubes, toda a comunidade e deu certo. Ao fim de três
anos, a criminalidade reduziu-se em 70%. Mas foi um programa em
que cada um teve sua cota de responsabilidade. O nosso é
uma bravata. A polícia tem de trabalhar de forma integrada
com a comunidade. Um bandido, quando comete um crime, dificilmente
guarda segredo absoluto sobre o que fez. O mais provável
é contando a alguém, seja para desabafar,
seja para fazer bravata. A polícia só tem acesso
a esse tipo de informação se estiver entrosada com
a comunidade. No Brasil ocorre o oposto disso. Aqui, em apenas
8% dos homicídios a polícia consegue reunir elementos
suficientes para abrir um bom inquérito. Nos restantes
92%, não. Por medo e desconfiança da polícia,
a população não colabora. É a lei
do silêncio.
Veja
Qual a origem desse mutismo?
Soares
O fato de a relação entre polícia
e comunidade ser podre, particularmente no Rio de Janeiro. Então,
a comunidade não se sente de maneira alguma estimulada
a chegar e dizer: "Olha, eu sei quem matou aquele cara ali". Precisaríamos
de vinte anos para ter uma melhoria considerável no Rio.
Em outros Estados, onde a polícia é menos corrupta
e mais profissional, talvez isso demore menos tempo.
Veja
O que mais é preciso fazer para reduzir a criminalidade?
Soares
No caso dos homicídios, a primeira linha de combate deve
ser contra as armas de fogo, que chegam a representar 80% das
mortes em algumas cidades, incluindo aí os casos de suicídio.
Detectores móveis de metal impedem que essas armas transitem
livremente pelas ruas. Precisamos de campanhas para demonstrar
que armas em casa matam muito mais gente da família que
assaltantes. Você compra a arma na ilusão de que
vai matar um criminoso e descobre que o filho de 8 anos foi brincar
com ela e morreu. E aí? Eu estava em Brasília falando
sobre isso, insistindo nisso, quando ocorreu um acidente com o
filho de uma das pessoas que trabalhavam conosco. Quer dizer,
é perfeitamente previsível e evitável.
Veja
O que poderiam fazer os próprios fabricantes
de armas?
Soares
Os fabricantes deveriam ser obrigados a colocar fechos de segurança
no gatilho. Esses dispositivos impedem muitos acidentes e suicídios.
Outra medida bastante útil é fabricar armas com
"DNA", uma identificação balística que permita
relacionar a arma usada em um crime ao primeiro comprador.
Veja
A proibição do porte de armas deveria
ser total?
Soares
Ter uma arma em casa não é um direito absoluto do
cidadão, da mesma forma que ninguém tem o direito
absoluto de estocar em casa um monte de C4, o explosivo plástico
usado nas décadas de 70 e 80 por terroristas. Não
se pode ter no porão barris do gás venenoso sarin
nem uma criação de vírus. O mesmo vale para
as armas de fogo. Há evidências estatísticas
de que a maior facilidade de acesso às armas favorece o
crescimento da criminalidade.
Veja
O senhor poderia citar um exemplo?
Soares
A taxa de mortes violentas entre os jovens abaixo de 14 anos nos
Estados Unidos é mais alta que as taxas somadas de 25 países
industrializados. Não se trata do fato de as crianças
americanas serem ou não mais violentas que as outras, mas
sim de que os meios para matar à disposição
delas são, além de numerosos, mais eficientes. Em
1996, revólveres e pistolas foram usados para matar duas
pessoas na Nova Zelândia, quinze no Japão, trinta
na Grã-Bretanha, 106 no Canadá, 213 na Alemanha
e, pasme, nada menos que 9.390 nos
Estados Unidos.
Veja
E no Brasil?
Soares
Infelizmente estamos seguindo a mesma ordem de grandeza dos Estados
Unidos, país considerado muito violento pelos padrões
dos demais industrializados e com cerca de 100 milhões
de habitantes a mais que o Brasil. Aqui, em 1995, 4.571
crianças e adolescentes morreram com armas de fogo, aproximadamente
treze a cada dia. De 1979 a 1995, 44.000
já haviam morrido. Seguindo essa tendência, neste
primeiro ano do novo milênio, mais 5.500
jovens morrerão violentamente com armas de fogo.
Veja
O senhor não teme que a proibição
inevitavelmente gere um mercado negro de armas?
Soares
Esse mercado de certa forma já existe. Ou você acha
que todas as armas em mãos de bandidos no Brasil são
legalizadas? Ao contrário, a maioria é clandestina,
roubada ou contrabandeada. Mas, se o preço aumentar, como
é provável, deve diminuir a disponibilidade. Essa
medida isoladamente vai ter um efeito pequeno, talvez a redução
de 5% ao ano no número de mortes. Isso, projetado sobre
quase 40.000 pessoas assassinadas,
estará poupando 2.000 vidas.
Acho que esse número sozinho já vale a pena.
Veja A polícia brasileira está preparada
para reprimir o crime?
Soares
Para começar, não existe um quadro policial
brasileiro. Existem quadros estaduais com tremenda variação
de qualidade, corrupção e competência entre
as polícias. O Rio de Janeiro, por exemplo, tem uma das
piores polícias quando comparado com Minas Gerais ou Distrito
Federal.
Veja
A que se devem essas diferenças?
Soares
Primeiro à grande preocupação com o treinamento.
O governo mineiro tem um convênio com a Universidade Federal
de Minas Gerais há vinte anos, com o objetivo de melhorar
o nível das polícias, mais particularmente o da
PM. Os policiais hoje usam armas sofisticadas para a prevenção,
mas não para a repressão. Essa é a função
da polícia: impedir o crime. E usam polícia comunitária.
Veja
Nos casos mais complicados, em que se inclui o Rio de
Janeiro, o que se pode fazer?
Soares
O prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, fez aquele programa
que todo mundo cita, mas poucos conhecem, o Tolerância Zero.
Ele começou com duas providências. A primeira, limpar
a polícia. A de Nova York era notoriamente violenta e corrupta.
E ele conseguiu. É mais fácil lá do que aqui,
porque nos Estados Unidos não há proteção
especial para servidor público, o que existe aqui conforme
a legislação trabalhista. A segunda é que
ele se reuniu com a polícia e disse: "Muito bem, vocês
estão com uma boa taxa de solução de homicídio,
agora eu quero ausência de homicídio". E funcionou.
Veja
O senhor acredita que seja possível fazer algo
parecido nas cidades brasileiras?
Soares
É possível e tem de ser feito com urgência.
Um país como o Brasil, capaz de conquistar um grau de desenvolvimento
econômico até elevado em alguns setores, já
deveria apresentar também um quadro de violência
mais reduzido.