Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do
Banco Central (gfranco@palavra.inf.br)
O socialismo
brasileiro
"Se é verdade que nos Estados Unidos o
trabalho subjugou o capital por meio dos
fundos de pensão, no Brasil a privatização
terá criado o caminho para o socialismo"
Anos
atrás, Peter Drucker, já um reputado guru na área
de negócios, escandalizou diversas audiências americanas
ao observar que os Estados Unidos se tinham tornado um país
socialista. Drucker não estava fazendo graça: os
veículos de investimento da poupança dos trabalhadores,
vale dizer, os fundos de pensão, haviam-se tornado os acionistas
dominantes na maior parte das grandes empresas americanas. Em
conseqüência, a propriedade dos meios de produção
fora socializada, ou ao menos democratizada, sem que os comunistas
americanos, de dentro de seu Karmann-Ghia, tivessem de fazer qualquer
esforço.
Era uma bravata, é claro, e de grande impacto naqueles
anos de Guerra Fria. Mas o argumento era cristalino. O mercado
de capitais havia adquirido tamanha profundidade, e os chamados
investidores institucionais, especialmente os fundos de pensão,
tamanha importância, que o capital passou a ser dominado
por condomínios de trabalhadores e poupadores que votavam
em assembléias para eleger administradores que por sua
vez escolhiam executivos para as empresas, todos na base da meritocracia.
Tudo muito democrático.
As coisas poderiam ter evoluído de forma semelhante no
Brasil, mas, infelizmente, o longo inverno inflacionário
distorceu a percepção que a sociedade brasileira
tem da idéia de poupança. Na velha e ainda viva
cultura desenvolvimentista, o Estado não precisa poupar,
pois pode fabricar dinheiro, ou se endividar, para pagar suas
contas. E não precisa poupar para saldar suas dívidas,
pois os juros são inconstitucionais e ilegítimos,
e portanto dívida é para ser rolada, jamais paga.
Mas, como todos percebemos, o fim da inflação foi,
além de tudo, um enorme choque cultural. Subitamente, os
orçamentos começaram a ter de fechar, as dívidas
passaram a aumentar quando a despesa era maior que a receita e,
para surpresa de muita gente, o Brasil redescobriu a aritmética,
e com ela a necessidade de poupar. Em conseqüência,
começamos a ver florescer as instituições
que favorecem a poupança, na forma como descrito anteriormente
para os Estados Unidos. Já podemos, portanto, enxergar
alguns sinais de "socialismo" a nossa volta.
Foi extraordinário, por exemplo, o crescimento da importância
dos investidores institucionais, notadamente entidades de previdência
privada fechada (fundos de pensão) e aberta. O patrimônio
dessas instituições triplicou desde 1994, chegando
a 132 bilhões de reais nos dias de hoje. Os outros condomínios
de investimentos, vale dizer, os fundos mútuos de várias
modalidades, quadruplicaram seu patrimônio no mesmo período,
chegando a 284 bilhões de reais.
A mudança qualitativa nos fundos de pensão durante
esses anos também é extraordinária. Em 1994,
apenas nove dos cinqüenta maiores fundos de pensão
tinham patrocinadoras privadas; todos os outros eram ligados a
empresas estatais. Em 2000, 24 dos cinqüenta maiores são
fundos patrocinados por empresas privadas, onze dos quais de empresas
que foram privatizadas. Dos 26 fundos patrocinados por estatais,
seis são de empresas prestes a ser privatizadas.
É
pouco notado, e importante enfatizar, que a privatização
também transforma o fundo de pensão atrelado à
empresa vendida. Em geral, os planos de benefícios são
modificados e a gestão é profissionalizada. Ao mesmo
tempo, o próprio processo de privatização
proporcionou aos fundos a matéria-prima para que cumprissem
o destino que Drucker lhes havia reservado: os fundos tiveram
participação fundamental no processo de privatização,
e com isso passaram à condição de importantes
acionistas de muitas das maiores empresas brasileiras.
No futuro, a importância dos fundos apenas crescerá,
pois a nossa incapacidade de salvar a previdência pública
apenas ampliará os condomínios de pessoas com o
propósito de poupar para a velhice por intermédio
de veículos profissionais de investimento. Se é
verdade o paradoxo de Drucker, ou seja, que foi nos Estados Unidos
que o trabalho subjugou o capital por meio dos fundos de pensão,
também será verdadeiro e paradoxal que no Brasil
a privatização terá criado o caminho para
o socialismo.